Ambiente

Cientistas portugueses partem para o Árctico em Março para avaliar impacto do mercúrio

O mercúrio está retido há milhares de anos no solo permanentemente congelado nas regiões polares, mas o seu degelo tem levado à libertação deste metal pesado para a atmosfera e a água.

Cientistas do Instituto Superior Técnico partem a 6 de Março para o Árctico numa primeira campanha para avaliar o impacto do mercúrio na vida animal e humana na região gelada, disse esta sexta-feira o coordenador da expedição, João Canário.

O grupo, que vai juntar-se a outros investigadores no Canadá, devia ter partido em Janeiro, mas o agravamento da pandemia da covid-19 impediu que tal acontecesse. A equipa de investigadores luso-canadiana, coordenada por João Canário, especialista em química ambiental, vai trabalhar durante uma semana numa “área esporádica” de permafrost (solo permanentemente gelado) no vale do rio Sasapimakwananisikw, na região subárctica de Nunavik, na província canadiana do Quebeque.

O vale, que serve a comunidade de Whapmagoostui-Kujjuuarapik, onde o grupo ficará alojado, é um sítio de “rápido degelo” e erosão da paisagem, com formação de lagos devido à “degradação contínua de montículos de permafrost”, designados por palsas.

Em 2019, João Canário orientou um trabalho de mestrado que constatou elevadas concentrações de metilmercúrio em lagos nesta zona, mas muita coisa ficou por esclarecer, como por exemplo que bactérias fazem com que o mercúrio se torne uma neurotoxina (que causa lesões no sistema nervoso) e que processos bioquímicos ocorrem nessa transformação. A forma mais tóxica de mercúrio, com efeitos nocivos para animais e humanos, tem o nome de metilmercúrio.

A campanha a Sasapimakwananisikw, que inclui uma nova deslocação no Verão, em Setembro, insere-se no projecto Permamerc, que visa medir os níveis de mercúrio no gelo, na água, sedimentos de lagos e em peixes e avaliar o seu impacto na vida selvagem da região árctica e na saúde da população indígena.

João Canário espera ter resultados preliminares desta primeira campanha no fim do ano. Uma outra campanha, que decorrerá também no Inverno e no Verão, está prevista para 2023, também na região canadiana de Nunavik, mas numa área de permafrost distinta, mais rica mas descontínua, perto da comunidade indígena de Kangiqsualujjuaq. Os lagos de Kangiqsualujjuaq “resultaram do descongelamento de permafrost de granulação fina rica em gelo e são muito menos biogeoquimicamente caracterizados” do que os do vale do rio Sasapimakwananisikw.

No projecto Permamerc, orçado em cerca de um milhão de euros, serão, designadamente, recolhidas e analisadas amostras e estimado o grau de contaminação nas cadeias alimentares através de modelos matemáticos aplicados aos dados obtidos. O trabalho irá envolver a comunidade indígena (inuítes) em acções pedagógicas nas escolas, onde será explicada a investigação que vai ser feita e a sua importância.

Além de cientistas do Instituto Superior Técnico, participam, por Portugal, no Permamerc investigadores do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto. O Canadá está representado por cientistas das universidades de Laval e Trent, da agência governamental Ambiente e Alterações Climáticas e do Instituto Nacional de Investigação Científica.

Segundo o investigador João Canário, o degelo em zonas de permafrost do Árctico, onde o mercúrio está retido há milhares de anos, tem levado à libertação deste metal pesado para a atmosfera e água. Em consequência do aumento da temperatura global, superfícies permanentemente geladas têm derretido e gerado a formação de lagos que são autênticas “sopas” de bactérias e metais pesados como o mercúrio, que se acumula na água e em sedimentos.

Estudos anteriores revelaram que bactérias transformam o mercúrio inorgânico em mercúrio orgânico, “que é mais tóxico”, e fazem com que se torne volátil e seja libertado para a atmosfera. Os efeitos do degelo, causado pelo aquecimento do planeta, acrescenta João Canário, podem ser igualmente preocupantes quando a água dos lagos no Árctico drena para ribeiros, rios e mares.

Fonte: Público

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