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Cada vez mais isolada, Rússia avisa para ataques em Kiev

Presidente ucraniano nomeia um general para a defesa da capital, que passa a ser a maior prioridade.

Enquanto no palco internacional o isolamento da Rússia se materializava com a saída de mais de uma centena de membros de uma sessão da ONU em Genebra quando falou por videoconferência o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, no terreno intensificava-se a ofensiva russa contra a segunda maior cidade da Ucrânia, Kharkiv, e Moscovo avisava os residentes de Kiev para ataques em breve.

A agência da ONU para os Refugiados dizia que nos últimos seis dias tinham saído da Ucrânia quase 660 mil pessoas, e que nas últimas 24h o aumento foi de 150 mil – é provável que o número suba muito mais à medida que a ferocidade dos ataques também aumenta.

Em Kharkiv os ataques russos têm atingido também zonas civis, e as Forças Armadas russas são acusadas de usar explosivos de fragmentação em zonas densamente povoadas.

Ontem uma enorme explosão atingiu um edifício da administração local na enorme Praça da Liberdade e várias zonas civis, mas a cidade mantinha-se sob controlo ucraniano, embora cercada pelas forças russas, disse o presidente da câmara da cidade, Ihor Terekhov, ao Washington Post.

Um responsável da defesa dos EUA disse que o Kremlin parecia disposto a aplicar em Kiev a mesma táctica de cerco usada em Kharkiv. Havia ainda temor de que os alvos na capital fossem mais do que os que o Ministério da Defesa da Rússia prometeu atingir com “armas de precisão”: sítios ligados a comunicações, além de estruturas dos serviços de segurança da Ucrânia e de uma unidade especial de informação militar.

Perto da capital, a enorme coluna militar russa que se ia aproximando de Kiev parecia ter feito uma paragem, de quase um dia inteiro. Um responsável norte-americano afirmava que isso se poderia dever tanto a acções ucranianas de sabotagem, como a falta de combustível e mesmo de comida. “Pensamos que uma parte tem a ver com logística”, disse, acrescentando que as tropas russas estão, “em geral, a reagrupar e repensar e tentar reajustar-se aos desafios que tiveram”.

Repetem-se as alegações de falhas, de mantimentos a combustível, passando pelas comunicações que deviam ser secretas feitas em sinal aberto. O Pentágono diz que essas falhas têm levado muitos soldados russos, alguns jovens recrutas sem grande preparação, a desistir de lutar ou a sabotar os próprios veículos para evitar combater.

Já entre os ucranianos, o moral está em alta. Em Kiev, os painéis na auto-estrada informavam: “Temperatura do ar +1, temperatura da estrada +2, russos, vão-se lixar!”, referia o diário britânico The Guardian.

Mas quanto mais tempo se passa sem que os russos conquistem Kiev (ou mesmo Kharkiv, sob fortes ataques desde domingo), mais aumenta o perigo de ataques com maior número de vítimas.

Na estação central de comboios de Kiev, os bilhetes já comprados não serviam ontem para nada, conta ainda o Guardian. A ordem de embarque estava bem estabelecida: mulheres com crianças primeiro, de seguida mulheres sozinhas, depois idosos. Polícia e soldados asseguravam que essa ordem era mantida, perante a multidão que tentava sair.

A sensação de urgência foi cimentada com uma comunicação do Presidente ucraniano, Volodimir Zelenskii, no Telegram, em que o Presidente nomeava um comandante militar para coordenar a defesa da cidade, dizendo que esta é agora a “prioridade mais importante”, cita o Politico.

Ainda ontem, um míssil russo que pareceu atingir a torre de televisão de Kiev também atingiu o memorial do Holocausto Babyn Yar, deixando cinco mortos. O memorial está no local onde foram mortos e depois sepultados numa vala comum 34 mil judeus em 1941, quando Kiev estava ocupada pelos nazis. Israel criticou o ataque e prometeu ajudar na reconstrução do memorial.

O Estado hebraico tem ainda repetido ofertas de mediação, invocando ligações fortes quer com a Rússia, quer com a Ucrânia. Até agora, não há sinais de grandes avanços na frente diplomática, embora esteja previsto para breve um segundo encontro entre as delegações russa e ucraniana.

A batalha jogava-se também no plano informático. Da Rússia, o Ministério dos Negócios Estrangeiros tinha indicado, numa declaração citada pela agência Interfax, que houve um grande aumento do número de ciberataques contra o país desde o lançamento da “operação militar especial”, como a Rússia se refere à invasão da Ucrânia. O vice-primeiro-ministro ucraniano, Mikhailo Fedorov, disse no canal Telegram que “a ciberguerra está aberta e em grande escala”, num esforço que envolve agências governamentais, serviços de espionagem e informação e voluntários. Um dos grupos que tem estado ao lado da Ucrânia tem sido o Anonymous.

O Tribunal Internacional de Justiça, o principal tribunal da ONU, anunciou ontem que vai realizar, a 7 e 8 de Março, audiências sobre a queixa da Ucrânia contra a Rússia por alegações de crime de genocídio. Na véspera, o Tribunal Penal Internacional tinha informado também que investigará potenciais crimes de guerra na Ucrânia.

Se o isolamento da Rússia ia parecendo cada vez mais forte em todas as frentes, da diplomacia ao desporto, da economia às artes, o Presidente ucraniano ia, em paralelo, somando apoios tanto reais como simbólicos, desde a ovação em pé que recebeu no Parlamento Europeu, até um telefonema com o Presidente norte-americano, Joe Biden, sobre mais sanções à Rússia e apoio à Ucrânia, antes do discurso do Estado da União.

Nos mercados, a Ucrânia conseguiu ainda angariar quase 250 milhões de euros com a venda de obrigações (títulos de guerra) para aumentar as capacidades militares do país.

Os Estados Unidos decidiram, por outro lado, expulsar 12 diplomatas russos nas Nações Unidas, ordenando-lhes que saíssem do país até 7 de Março, segundo a Reuters. O embaixador russo na ONU, Vasili Nebenzia, disse que esta era uma “violação grave” da posição dos Estados Unidos como país anfitrião da ONU.

Enquanto isso, a oposição à invasão continua a existir e mostrar-se na Rússia, com novos protestos. Segundo a organização que monitoriza acções da polícia, foram detidas pelo menos 6784 pessoas em mais de 70 cidades desde o início da invasão – uma média de mais de mil detenções por dia.

O descontentamento com esta guerra existe também dentro da elite russa. A mais recente voz contra a invasão foi de Andrei Kozirev, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros conhecido pela sua posição pró-ocidental (o primeiro a ocupar o cargo após o fim da União Soviética), que apelou a todos os diplomatas russos que se demitam em protesto contra a “sangrenta guerra fratricida na Ucrânia”, cita o New York Times, dizendo para agirem “como profissionais, não como propagandistas baratos”.

Fonte: Público

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