Ambiente

Dessalinizar a água do mar pode salvar-nos da seca? No Porto Santo já se faz, no Algarve está a caminho

Preço da água purificada pode ficar entre os 35 e 50 cêntimos por metro cúbico, mas há outros riscos a ter em conta, como a salmoura resultante do processo e a poluição. Ainda assim, é uma das melhores soluções para evitar a escassez – e já há uma ilha em Portugal cuja água para consumo humano é toda proveniente da dessalinização.

Com tantos quilómetros de costa em Portugal, transformar a água salgada em água potável parece uma solução demasiado boa para desperdiçar. Certo é que já existe uma central dessalinizadora em Porto Santo, na Madeira, que funciona há mais de 40 anos – e está prevista outra para o Algarve, já em fase de projecto. Ainda assim, o processo pode trazer outros custos e riscos, como a salmoura resultante e as emissões necessárias para a sua produção. Mas, para o engenheiro Joaquim Poças Martins, é inequívoco que “a reutilização de água e a dessalinização fazem parte da solução para o problema da seca” no país.

A investigadora do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve, Manuela Moreira da Silva, deixa claro que a dessalinização não é um mito: “Utiliza-se em mais de 150 países e corresponde a 86 milhões de metros cúbicos por dia de água que dão suprimento às necessidades de cerca de 300 milhões de pessoas”.

Em Portugal, também é um facto. Já existe na Madeira e o Ministério do Ambiente e da Acção Climática diz ao PÚBLICO que a central dessalinizadora do Algarve se encontra em fase de projecto e que o estudo de impacte ambiental será elaborado na fase de estudo prévio. É a única estrutura de dessalinização prevista até agora pelo Governo.

Num caso extremo em que a central dessalinizadora esteja em disponibilidade máxima, “estima-se que os custos de dessalinização variem entre os 35 e os 50 cêntimos, dependendo da solução encontrada em termos energéticos”, avança o Ministério do Ambiente ao PÚBLICO. “A estes valores acrescem ainda os custos de adução, elevação e distribuição para levar água aos clientes.” O antigo secretário de Estado do Ambiente Joaquim Poças Martins diz que a dessalinizadora do Algarve não deverá funcionar a 100% e que isso pode fazer com que os preços sejam mais elevados. “Em zonas da Europa, o custo é ainda muito elevado porque as centrais não funcionam na totalidade.”

Posto isto, se a água dessalinizada rondar os 50 cêntimos e cada família gastar uns dez metros cúbicos por mês, tal corresponde a cinco euros mensais. “Já não é aquela loucura que era há uns anos. Quem tem mar e quem tem cinco euros por mês, não tem falta de água”, considera o engenheiro especialista em hidráulica. E a sua visão é optimista: “A tecnologia está cá. Com energia barata, não há falta de água. A capacidade de produção de água a partir do esgoto e da água do mar é infinita.” Mas há custos e riscos a ter em conta. Já lá vamos.

Esta não é uma solução inédita no país: a ilha de Porto Santo, na Madeira, foi pioneira na dessalinização e já transforma água do mar em água potável há mais de 40 anos. É uma zona seca e onde havia muita falta de água, mas isso deixou de ser um problema desde que foi construída a central dessalinizadora: são agora produzidos 6500 metros cúbicos de água por dia, distribuídos por toda a ilha para consumo humano – com um custo de 70 cêntimos por metro cúbico. Com uma população de cerca de 5000 habitantes, a quantidade de água dessalinizada é suficiente para abastecer uma população seis vezes superior à da ilha, explicou à TVI o responsável pela central, Nuno Pereira. No Algarve, há também alguns hotéis que usam água dessalinizada, a uma escala mais pequena.

Além disso, a rega nos campos de golfe na ilha é também feita com o aproveitamento de águas residuais. Onde antes se sofria com a seca, vê-se “um campo de golfe verdejante, alimentado com o fluxo do autoclismo das pessoas de Porto Santo e dos turistas”, nota Poças Martins. “Às vezes as pessoas são contra os campos de golfe por gastar água, mas um metro quadrado num campo de golfe é um rendimento. Se não roubar água que é preciso para o abastecimento público, está certo.”

Tanto no caso de Porto Santo como na futura central dessalinizadora do Algarve, o processo utilizado é o de osmose inversa, mais eficiente que a destilação. Resumido de uma forma simples, a água salgada é sujeita a uma pressão elevada e passa por umas membranas, cada vez menos porosas, em que as moléculas de sal vão ficando retidas – para o outro lado passa a água “mais pura”, sem cloreto de sódio. “São quase umas peneiras”, brinca o engenheiro de hidráulica.

“Essa osmose inversa gasta agora uma quantidade de energia de cerca de 4kW/hora por cada metro cúbico de água”, diz, mas acredita que daqui a uns anos o custo vai ficar dez vezes mais barato. “Depende muito do custo da energia: como é que vai evoluir e como é que vamos ter energia no futuro.”

A “transformação” desta água tem também um custo ambiental. A elevada pressão utilizada por este sistema faz com que existam elevados consumos energéticos, explica Manuela Moreira da Silva. “Se forem utilizadas fontes energéticas fósseis, as estações de osmose inversa serão responsáveis por elevadas emissões de carbono”, acautela a professora da Universidade do Algarve.

Dá como exemplo o Chipre, em que 95% da água consumida é produzida por dessalinização por osmose inversa: em 2017, a produção desta água correspondeu a 2% do total de emissões de carbono desse ano. No caso de Porto Santo, que assegura também 100% do abastecimento público de água potável e em que tem havido um esforço para melhorar a eficiência energética, a dessalinização é ainda responsável por um elevado número de emissões de dióxido de carbono, alerta a investigadora.

Olhando para todos estes custos – o investimento inicial, as despesas de manutenção, os consumos energéticos –, “facilmente se compreende que a água dessalinizada potável custe cerca de dez vezes mais” do que a restante água que temos ao nosso dispor. Manuela Moreira da Silva diz que, em Portugal, o custo médio de produção de água dessalinizada está entre os 63 e 70 cêntimos por metro cúbico. “No actual modelo de negócio, esta diferença no preço será custeada pelo consumidor.”

Mas nem toda a água produzida precisa de ser doce e potável: há menores custos associados à produção nas dessalinizadoras de água salobra, que poderá ser usada em piscinas, por exemplo. “Seria uma medida de poupança de água muito relevante, em regiões com grande afluência turística, como é o caso do Algarve”, considera a investigadora do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA).

Manuela Moreira da Silva recorda que “a água doce à superfície é um bem muito escasso”, daí que o uso eficiente seja crucial, reduzindo-se perdas e desperdícios – e é também preciso olhar para origens alternativas. “Se Portugal continental tem mais de 900 quilómetros de costa, a dessalinização deve certamente ser considerada para integrar o ciclo urbano da água” e evitar escassez.

Antes de se avançar para uma estratégia de dessalinização, é importante fazer uma “análise muito séria do custo-benefício”, em que é preciso avaliar o impacte ambiental, defende a geógrafa Maria José Roxo. “Podemos estar à procura de um recurso e a destruir muitos outros”, avisa a perita em seca. Uma das suas principais preocupações em relação a este método é o tratamento do resíduo resultante do processo de dessalinização. Um estudo apoiado pelas Nações Unidas divulgado em 2019 alertava para o risco tóxico dos metros cúbicos de salmoura (água com cerca de 5% de sal) resultantes das centrais de dessalinização, sobretudo em países do Golfo, como a Arábia Saudita e o Qatar. Para comparação, a água do mar tem uma concentração de cerca de 3,5% de sal.

No caso do Algarve, a solução para os resíduos sólidos da central está por definir e “será encontrada no desenvolvimento do projecto”, refere o Ministério.

A salmoura concentra os sais resultantes do processo e é normalmente tóxica, por também conter produtos químicos, diz Manuela Moreira da Silva. Esclarece que o impacto dos resíduos “depende da toxicidade da salmoura produzida”, que também depende do tipo de pré-tratamento que se faça. “Tem de ser devidamente acautelado porque é relevante em termos de impacte ambiental.” A localização da estação de dessalinização e da descarga de salmoura deve ter esse aspecto em consideração, refere, para minimizar eventuais episódios de poluição. Para já, não se sabe onde ficará localizada a central dessalinizadora do Algarve.

Joaquim Poças Martins vê com bons olhos a unidade de dessalinização do Algarve: “É uma primeira experiência e com isso vamos aprender”. Quanto aos resíduos daí resultantes, o docente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto tranquiliza: “A dessalinização bem projectada não tem problema nenhum”. A água com grande concentração de sal é devolvida ao mar, “mas tem de ser dispersa numa área muito grande – e a engenharia tem solução para isso”. “Não pode ser em todos os sítios; é um problema nalguns sítios, nalguns sítios foi mal feito. Se eu, para poupar dinheiro, voltar a pôr as salmouras muito perto da costa, claro que vai dar problemas”, admite o antigo secretário de Estado do Ambiente.

Além disso, é crucial saber em que será gasta a água resultante do caro processo de dessalinização. “É para regar os abacates ou é mesmo água porque temos uma enorme necessidade de abastecer as populações?”, satiriza a académica Maria José Roxo. O debate tem de ser sério. “É uma tristeza muito grande vermos que decisões importantes relacionadas com utilização de recursos naturais sejam sempre cavalos de batalha política – como foi o Alqueva ou o lítio.” Maria José Roxo acredita que o custo associado à dessalinização tem tendência a diminuir, como acontece com toda a tecnologia e como tem acontecido com a energia solar.

Já Catarina Miranda, do Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (Geota), considera que a dessalinização “é uma estratégia complexa, com custos”. “Estarmos a apostar na dessalinização ou na construção de reservatórios de água, estarmos a apostar em coisas feitas pela mão humana dificilmente será tão vantajoso como apostarmos na preservação do que a própria natureza já nos dá”, argumenta.

Em 2019, Matos Fernandes reconhecia que a dessalinização era um processo muito dispendioso: “Consome muita energia e produz água bruta mais cara do que noutras soluções, como as barragens”, afirmou, dizendo que só seria viável existirem dessalinizadoras no mar do Algarve e nos grandes estuários. Pesava ainda o preço: “No Alqueva, a água é vendida a três cêntimos por metro cúbico. No entanto, na dessalinização, não conheço nenhuma solução que faça com que o preço seja inferior a 30 cêntimos por metro cúbico”. Em Fevereiro do ano seguinte, apoiava a ideia de construir uma central dessalinizadora no Algarve – mas a prioridade, dizia, era fazer uma gestão eficiente dos recursos já existentes.

Fonte: Público

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