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Julgamento de dona de um lar em Riachos que deixou idosa morta 12 dias

A mulher acusada de manter uma idosa morta 12 dias no quarto com duas outras disse hoje, em tribunal, que o óbito ocorreu “dois ou três dias antes” de ser descoberto e estar arrependida por não o ter comunicado.

A arguida, que decidiu prestar declarações no início do julgamento no Tribunal de Santarém em que é acusada pelo Ministério Público da prática de quatro crimes de maus tratos, dois deles de forma agravada (por terem resultado na morte de duas idosas), e um de profanação de cadáver, procurou convencer o tribunal do seu arrependimento.

Contudo, entrou em contradição quando questionada sobre quando se apercebeu da morte da idosa que permaneceu, segundo as perícias médicas, pelo menos 12 dias no mesmo quarto em que dormiam outras duas mulheres, até ser descoberta em 02 de março de 2021.

A proprietária da casa de acolhimento, em Riachos (Torres Novas, no distrito de Santarém), justificou a não comunicação da morte nem às autoridades de saúde, nem aos familiares, com um “bloqueio”, porque se “atrapalhou” devido à situação da pandemia de covid-19.

“Confesso que errei, agi mal”, disse, afirmando que, com o momento que se vivia devido à covid-19, se atrapalhou e ficou “sem saber o que havia de fazer”.

Quando questionada pela procuradora do Ministério Público sobre se se apercebeu da morte da idosa e do momento em que ocorreu, a mulher afirmou deduzir que tenha sido “repentina”, mas não conseguiu precisar o momento em que ocorreu, insistindo que só se apercebeu no dia em que o neto a ia buscar para a mudar para outro lar, em 02 de março de 2021.

Esta resposta levou a procuradora a lembrar que, no dia anterior, indicou uma outra idosa à técnica que se deslocou ao lar para fazer o teste exigido pelo outro lar, ao que respondeu que, nesse dia, quando olhou para ela achou que “havia algo estranho”.

A presidente do coletivo pediu que fossem mostradas à arguida as fotos do cadáver, “completamente desfigurado”, salientando as informações da perícia que referem a existência de larvas na fralda suja e de moscas na camisola, questionando se isto seria possível numa pessoa que tivesse morrido há dois ou três dias como afirmou.

A procuradora questionou ainda se nesses dois ou três dias não esteve junto da idosa, concluindo que não procurou alimentá-la, nem lhe prestar cuidados.

Quanto à situação da segunda idosa, cujo óbito foi declarado em 03 de março de 2021, a arguida tentou explicar os sinais de aparentemente não ter seguido as instruções que lhe estavam a ser dadas pelo INEM na sequência da chamada que fez para o 112.

A arguido explicou que continuou a fazer manobras de reanimação com uma mão enquanto enviava uma mensagem pelo telemóvel à sobrinha da vítima e que os silêncios notados pelos técnicos ocorreram no momento em que foi abrir a porta para que a equipa de socorro pudesse entrar na casa.

Além da arguida, o Tribunal ouviu, durante a manhã, o neto da primeira idosa, um guarda da GNR e uma enfermeira que estiveram no local em 02 de março de 2021.

Foi igualmente ouvida a enfermeira que assistiu a segunda idosa no dia seguinte, que disse que os sinais que encontrou eram de paragem cardiorrespiratória, mas ocorrida algum tempo antes, e que a idosa estava já morta.

A equipa que acorreu à primeira situação relatou o forte cheiro nauseabundo, tendo a enfermeira afirmado que nem tentou a reanimação porque era “óbvio” que estava morta.

Segundo a testemunha, a arguida disse que tinha medido a tensão nesse dia à idosa e quis mostrar o aparelho, ao que respondeu que não valia a pena porque era “impossível”.

Tanto o guarda da GNR como a enfermeira afirmaram apenas ter visto, nesse dia, mais duas idosas na sala.

A enfermeira adiantou ainda que abriu as portas dos outros dois quartos, atestando que não estava ninguém, mas admitiu que não viu as duas casas de banho.

A arguida é acusada de, nesse dia, ter já escondido o corpo da segunda idosa.

Fonte: Agência Lusa

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