Ciência

Há uma nova candidata a lua fora do nosso sistema solar

Caso a descoberta se confirme, estamos perante uma exolua gasosa duas vezes e meia maior do que a Terra.

Detectar uma lua fora do nosso sistema solar não é uma tarefa propriamente fácil. Mas os astrónomos têm enfrentado essa dificuldade. No rescaldo desse hercúleo desafio, foi anunciada esta quinta-feira na revista científica Nature Astronomy a segunda possível lua fora do nosso sistema solar. Há agora um longo caminho para se confirmar se, de facto, os sinais identificados pertencem mesmo a uma lua.

David Kipping tem passado os últimos anos a tentar caçar luas fora do nosso sistema solar e sabe bem como são difíceis de apanhar. “Os astrónomos já encontraram mais de 10.000 candidatos a exoplanetas [planetas fora do nosso sistema solar], mas as exoluas são muito mais desafiantes”, afirma o professor de astronomia e coordenador do Cool Worlds Lab na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

A detecção de luas e planetas fora do nosso sistema solar pode ser feita indirectamente quando eles passam em frente das suas estrelas hospedeiras (o seu sol). Dessa forma, a luz da estrela escurece de forma intermitente. Mesmo assim, não é fácil “apanhar” um destes sinais fugazes com um telescópio nem interpretar os dados obtidos – sobretudo quando estão em causa luas. “É expectável que sejam pequenas e que estejam perto dos seus planetas, o que faz com que seu sinal fique encadeado e misturado com o dos planetas. Isto torna [as exoluas] mais difíceis de identificar”, nota ao PÚBLICO David Kipping, que é o primeiro autor do trabalho agora publicado na Nature Astronomy.

Até agora, tinha sido apenas identificada uma candidata a exolua. Detectada em 2017 também pela equipa de David Kipping, orbitará no sistema estelar Kepler-1625, à volta de um exoplaneta chamado Kepler-1625b. Foi designada “Kepler-1625b-i” e terá aproximadamente o tamanho de Neptuno, o que significa que é uma lua bem grande. Suspeita-se de que será gasosa. Por enquanto, todo este mundo da Kepler-1625b-i é feito de suspeitas, visto que ainda se aguarda confirmação se é uma exolua ou não.

Poucos anos depois, surge então uma nova candidata a exolua – a Kepler-1708 b-i. “Por agora, ainda é só uma candidata, porque apenas temos um elemento de prova para a sua existência e precisamos de obter mais antes de confirmar a sua verdadeira natureza”, refere David Kipping. Que elemento é esse? Neste estudo, a equipa reteve a sua atenção num conjunto de exoplanetas frios, gasosos e gigantes captados pelo telescópio espacial Kepler da NASA – este telescópio já se reformou em 2018, mas deixou muitos dados por analisar. Depois de analisar a fundo 70 dos exoplanetas em questão, encontrou-se um possível sinal de uma lua.

O astrónomo adianta que os dados da curva de variação de luminosidade da estrela são “insatisfatoriamente explicados” por um modelo com apenas um planeta. Já o modelo com um planeta e uma lua encaixa melhor com os dados obtidos. “Concluímos que um modelo com um planeta e uma lua é 11,9 vezes mais provável para explicar os dados do que o modelo com apenas um planeta.”

Se se confirmar, esta exolua está a orbitar o exoplaneta Kepler-1708 b, que fica a 5500 anos-luz da Terra na direcção das constelações Lira e Cisne. Este planeta tem uma dimensão semelhante à de Júpiter e uma órbita parecida com a de Marte em torno do Sol. A lua será cerca de duas vezes e meia maior do que a Terra e será assim cerca de um terço mais pequena do que a primeira candidata a exolua. “[A sua órbita] é muito semelhante à órbita da lua Europa em torno de Júpiter”, compara David Kipping.

Provavelmente, é gasosa e isso leva o astrónomo a sugerir que foi acumulando gás devido à atracção gravitacional motivada pelo seu considerável tamanho. Se esta hipótese se confirmar, esta exolua poderá ter começado a sua vida como um planeta, mas foi depois puxada para a órbita de um planeta ainda maior do que ela, refere-se num comunicado sobre o trabalho.

Para se confirmar a existência desta exolua, serão necessárias observações de outros telescópios espaciais como o Hubble. No comunicado, realça-se que o processo “poderá levar anos” e que a primeira candidata continua em análise. David Kipping acrescenta que, por agora, estas são as únicas candidatas a exoluas em cima da mesa, mas que estas poderão apenas ser as maiores e até mais fáceis de detectar. Se estas forem confirmadas, pode querer dizer que há mais luas espalhadas pelo Universo. “As primeiras a serem detectadas são, geralmente, as mais excêntricas. Com a nossa sensibilidade limitada, as maiores são sempre as mais fáceis de detectar.”

Cientistas que não integraram este trabalho já manifestaram as suas dúvidas e certezas quanto a esta candidata. Eric Agol, professor de astronomia na Universidade de Washington, mostrou-se céptico relativamente a uma confirmação dos resultados: “Pode ser apenas uma oscilação nos dados”, afirmou no comunicado. Já Michael Hippke, astrónomo na Alemanha, diz estar muito entusiasmado. “Isto é a ciência no seu melhor! Encontramos um objecto intrigante, fazemos uma previsão e, depois, ou o confirmamos a candidato ou descartamo-lo em observações futuras.” O astrónomo diz estar muito animado com esta candidata a lua, mas reforça que são mesmo necessários mais dados para lhe podermos chamar “exolua”.

Fonte: Público

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