Ciência

Morreu Richard Leakey, um “Indiana Jones” que nos revelou o início da humanidade

As suas descobertas de fósseis ajudaram a escrever a história da evolução humana em África e o seu trabalho para conservar os animais selvagens, em especial os elefantes, tornam-no uma figura incontornável na ciência e no Quénia.

O paleoantropólogo Richard Leakey, que morreu a 2 de Janeiro, aos 77 anos, na sua casa, em Nairóbi, no Quénia, encontrou o seu primeiro fóssil aos seis anos – a mandíbula de um porco gigante extinto. Leakey, que nasceu numa família que revolucionou a nossa compreensão da evolução da evolução humana, foi uma espécie de Indiana Jones da paleoantropologia e também um grande protector da natureza – deve-se à sua acção o lançamento de grandes campanhas para a protecção dos elefantes africanos.

A mais famosa descoberta de Richard Leakey aconteceu em 1984, no Quénia, em escavações que trouxeram à luz do dia um esqueleto quase completo de um Homo erectus que morreu há 1,6 milhões de anos – o fóssil conhecido como “o Rapaz de Turkana” é ainda hoje o mais completo de um hominíneo, um antepassado da nossa própria espécie, diz a National Geographic.

Mas se as biografias de Leakey, nascido a 19 de Dezembro de 1944, enumeram os seus feitos, não escondem o seu carácter: “Ele era Richard Leakey, homem de acção”, disse Virgínia Morell, biógrafa da família Leakey – os seus pais, Louis e Mary Leakey, foram pioneiros na descoberta de fósseis no Grande Vale do Rift, na África Oriental, que nos revelaram alguns dos mais remotos antepassados da árvore genealógica humana. Outros usaram expressões como “fanfarrão, belicoso” para classificar Richard Leakey – o que ajudou a dar-lhe a fama de uma espécie de Indiana Jones. Ele próprio dizia: “Se querem que faça alguma coisa, sugiram que é algo que não se pode fazer.”

Ele usou essa atitude para superar vários encontros com a morte – aos 25 anos, foi-lhe diagnosticada uma doença de rins terminal. Fez um transplante de rim, cedido por um irmão, mas o seu organismo rejeitou o transplante; os medicamentos imunossupressores que teve de tomar quase o levaram à morte, com uma inflamação nos pulmões. Mas sobreviveu, e usou a sua determinação para vestir várias peles ao longo da sua vida cheia: caçador de fósseis, conservacionista, director dos Museus Nacionais do Quénia, director do Serviço da Vida Selvagem – em que se destacou na luta contra os caçadores ilegais –, responsável pela luta contra a corrupção no Quénia.

Enquanto responsável pelo Serviço da Vida Selvagem, deu ordem aos guardas para disparar contra os caçadores furtivos. Patrocinou grandes queimas de presas de elefante e rinoceronte confiscadas a caçadores – de uma só vez, em 1989, queimou 12 toneladas de marfim. Claro que isto lhe granjeou inimigos políticos. Em 1993, o avião Cessna que pilotava sofreu um acidente, que obrigou à amputação de ambas as pernas de Leakey – ele nunca o conseguiu provar, mas desconfiava de sabotagem.

Após sair do Serviço da Vida Selvagem, em 1994, liderou um partido político de oposição, Safina, cujo programa se baseava na luta contra a corrupção. Foram anos difíceis face ao então Presidente, Daniel Arap Moi, que teve uma gestão autoritária e marcada pela corrupção e perseguição aos adversários. Leakey sofreu até açoitamentos em público enquanto líder do Safina – até que o Presidente Arap Moi mudou de rumo e resolveu convidá-lo para o Governo, para lidar um organismo de luta contra a corrupção. Leakey aceitou, desempenhou o cargo durante dois anos e demitiu-se – não era um período sobre o qual gostasse de falar, salienta o Financial Times.

Em 2015, o agora Presidente Uhuru Kenyatta convidou-o a assumir de novo a direcção do Serviço da Vida Selvagem e Leakey repetiu, um ano depois, a queima de 12 toneladas de marfim confiscado resultante de caça furtiva.

A atitude desafiadora serviu-lhe inicialmente para tentar diferenciar-se dos seus pais antropólogos – saiu da escola aos 16 anos para caçar animais para recolher os esqueletos que vendia a instituições de investigação científica, tirou brevet de piloto e iniciou uma empresa para levar turistas em safaris fotográficos.

Mas acabou por se render ao que era a especialidade da família, a escavação de fósseis. Em 1967, ao sobrevoar as margens rochosas do lago Turkana, no Quénia, disse para consigo que aquela área poderia ser rica em fósseis. Com uma equipa de caçadores de fósseis quenianos, fez descobertas que o tornaram famoso, relata o New York Times. A primeira, em 1972, foi um crânio, denominado 1470, que permitiu compreender que a espécie Homo erectus era mais antiga do que se pensava, em vários milhões de anos. A revista Time fez uma capa com ele em 1977, ao lado de um modelo de hominíneo primitivo, com o título Como o Homem se fez Homem. E isto foi antes de ter sido achado o esqueleto Rapaz de Turkana, em 1984.

Richard Leakey foi um cientista importante pelas descobertas que fez, mas também porque ter criado estruturas de investigação importantes para acolher e formar cientistas africanos e de outros continentes. “Criou uma infra-estrutura científica, interdisciplinar que permitiu fazer descobertas”, comentou ao New York Times John Hawks, paleoantropólogo da Universidade de Wisconsin (EUA).

Escreveu múltiplos livros, foi protagonista de várias séries e documentários sobre evolução humana e conservação da natureza, e tornou-se conhecido no mundo inteiro. Deixou incompleto o projecto de abrir um museu da humanidade, Ngaren, no local onde descobriu o “Rapaz de Turkana”, no Vale do Rift. Deveria abrir em 2024.

Fonte: Público

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