Ciência

China queixa-se de Elon Musk e dos EUA à ONU por risco de colisões com a sua estação espacial

Por duas vezes, satélites da constelação Starlink da SpaceX estiveram perto de colidir com o módulo habitacional da estação chinesa, diz Pequim, que pede a Guterres que circule esta informação pelos Estados signatários do Tratado do Espaço Exterior.

O Governo chinês queixou-se dos Estados Unidos às Nações Unidas, dizendo que este país não está a cumprir as suas obrigações como signatário do Tratado do Espaço, porque por duas vezes a estação espacial chinesa, que está em construção, teve de efectuar este ano manobras para não ser atingida por satélites da constelação Starlink do milionário Elon Musk, com os quais pretende fazer chegar a Internet a locais remotos.

Os incidentes ocorreram a 1 de Julho e a 21 de Outubro, de acordo com um documento apresentado pela China neste mês ao Gabinete das Nações Unidas para o Espaço Exterior e disponível online. Segundo o relato de Pequim, o módulo principal da estação chinesa, Tianhe, que tem mantido uma altitude estável de 390 quilómetros, teve uma quase colisão com um dos satélites da constelação Starlink da SpaceX a 1 de Julho, quando tinha a primeira tripulação a bordo.

Os satélites da Starlink – já há cerca de 1600 em órbita da Terra – estão a cerca de 550 quilómetros de altitude, em média, mais baixo do que satélites tradicionais. Mas quando são lançados por um foguetão Falcon 9 ficam um pouco mais abaixo, a cerca de 440 quilómetros de altitude – é aí que abrem os seus painéis solares e iniciam a subida para uma altitude mais alta, segundo a revista Astronomy. Provavelmente, terá sido durante esse percurso que um dos satélites encontrou no caminho o módulo da estação espacial chinesa.

O problema repetiu-se a 21 de Outubro, com outro satélite da constelação Starlink, relata o Governo chinês. O módulo Tianhe, onde ficam os alojamentos da tripulação e os sistemas de apoio à vida, está ocupado por três taikonautas (como se designam os astronautas chineses), que iniciavam uma missão que só deve terminar com o regresso à Terra em Abril de 2022.

“Para garantir a segurança e vida dos astronautas em órbita, a Estação Espacial da China fez uma manobra de evasão no mesmo dia para evitar uma potencial colisão entre os dois veículos espaciais”, diz o documento apresentado por Pequim ao Gabinete da ONU para o Espaço Exterior.

Para Pequim, estes dois incidentes constituíram “riscos para a vida ou saúde dos astronautas a bordo da Estação Espacial da China”. Por isso, pediu ao secretário-geral da ONU, António Guterres, “para fazer circular esta informação entre todas os Estados que são parte do Tratado do Espaço Exterior e chamar-lhes a atenção para que, de acordo com o artigo IV, ‘Estados signatários têm responsabilidade internacional por actividades nacionais no espaço exterior, incluindo a Lua e outros corpos celestiais, quer estas actividades sejam levadas a cabo por agências governamentais ou por entidades não-governamentais, e por garantirem que as actividades nacionais são feitas em conformidade com o estabelecido neste tratado”.

Jonathan McDowell, do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, disse ao jornal The Guardian que é “muito invulgar” que um país apresente uma queixa através de “um boletim de informação”.

Este problema já aconteceu com um satélite da Agência Espacial Europeia (ESA) e satélites da Starlink de Elon Musk, em 2019: o Éolo, satélite de observação da ESA, teve de activar os seus propulsores para se desviar e evitar uma possível colisão com o Starlink 44.

Não há comentários sobre isto de Elon Musk ou da SpaceX, mas há muitos comentários nas redes sociais chinesas sobre o tema, normalmente insultuosos para o empresário que comercializa também os automóveis eléctricos Tesla. Um utilizador da plataforma Weibo, semelhante ao Twitter, classificou os satélites Starlink “como uma pilha de lixo”, relata a agência de notícias Reuters. Outro descreveu-os como “armas de guerra espaciais americanas”.

Mas em 2020, a China revelou planos para a criação de uma constelação de satélites para garantir o serviço de Internet a partir do espaço, a China Star Network, com 12.992 satélites, e já em 2021 anunciou a criação da empresa que será responsável por mandá-la para o espaço, diz um artigo noticioso recente na revista Science.

Com cerca de 30 mil satélites e fragmentos de lixo espacial em órbita do planeta, os cientistas têm apelado aos governos para que partilhem dados suficientes para evitar colisões espaciais, que se podem tornar numa catástrofe. Mas a China tem contribuído muito para o problema do lixo espacial, sublinhou Jonathan McDowell ao Guardian. A grande quantidade de satélites que estão a ser lançados contribuem também para aumentar o risco de colisões no espaço, reconheceu o astrofísico, e os da constelação Starlink “são uma grande parte disso”.

Fonte: Público

Mostrar mais

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to top button
Close
Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker