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Primeira produção portuguesa de hidrogénio verde avança na Póvoa de Santa Iria

Hychem tem projectos para produzir hidrogénio para fins industriais, mas também para aviões e para veículos pesados. Projecto arranca com capacidade para produzir mais de 1000 toneladas. Empresa está a investir 35 milhões de euros no complexo químico da Póvoa de Santa Iria.

O hidrogénio verde deverá ser um dos combustíveis do futuro e Portugal está apostado em desenvolver, na área de Sines, um dos primeiros projectos europeus para a sua produção em grande escala. O megaprojecto de Sines ainda vai demorar alguns anos, mas a primeira unidade portuguesa de produção de hidrogénio em escala industrial deverá começar a funcionar até final do ano no complexo da Hychem-Produtos Químicos na Póvoa de Santa Iria. Falta apenas concluir o processo de licenciamento da unidade de painéis fotovoltaicos prevista no projecto para que comece a sair hidrogénio verde da fábrica de clorato de sódio da Hychem. Em paralelo, a empresa está a instalar um outro sistema que permitirá produzir também hidrogénio verde a partir de biogás captado em aterros sanitários da região.

Tudo isto vai ter diversas aplicações e, de acordo com os responsáveis da Hychem, para além de alimentar algumas indústrias da região, o hidrogénio verde produzido na Póvoa de Santa Iria (concelho de Vila Franca de Xira) poderá ser incorporado até 15 % na rede de gás natural e poderá ser utilizado como combustível em veículos pesados, entre muitas outras utilizações. Outra das vertentes do projecto será instalar uma unidade de fermentação e uma biorrefinaria para produzir bio-jet fuel (biocombustíveis para a aviação) que permita abastecer voos comerciais da TAP com este combustível verde.

A antiga fábrica de Clorato de Sódio da Póvoa de Santa Iria, integrada no complexo industrial que a Solvay Portugal vendeu, no final do ano passado, à Algora (joint venture constituída pelas portuguesas A4F e Green Aqua), será a mola principal de todo este projecto de produção de combustíveis verdes. “Produz-se aqui hidrogénio há mais de 60 anos”, constata Nuno Coelho, presidente dos conselhos de administração da A4F e da Hychem, em declarações ao PÚBLICO, vincando que a fábrica, que tem o sal como principal matéria-prima, produz clorato de sódio (usado na indústria do papel, entre outras) e hidrogénio. Esse hidrogénio tem sido destinado, tradicionalmente, a indústrias como a vizinha fábrica de peróxido de hidrogénio (água oxigenada). Mas a Hychem quer dar uma dimensão muito mais alargada a esta capacidade de produção de hidrogénio, que para já está um pouco acima das 1000 toneladas/ano, mas vai crescer bastante nos próximos anos. Para isso, a empresa química portuguesa está a desenvolver várias vertentes de evolução/transformação tecnológica para a produção de hidrogénio verde, contando para isso com a instalação de um parque de energia fotovoltaica e com o aproveitamento de biogás gerado em aterros sanitários.

“Quando o Governo anunciou que o hidrogénio é um dos futuros energéticos do país, nós temos aqui um sítio que há mais de 60 anos produz, armazena e distribui hidrogénio. Uma das vertentes que vamos ter aqui, juntamente com a produção de clorato de sódio, é a produção de hidrogénio verde. Vamos aproveitar todas as ferramentas que temos disponíveis para ter aqui uma importante produção de hidrogénio verde”, sustenta Nuno Coelho, vincando que aquilo que foi anunciado pelo Governo como uma intenção de produzir hidrogénio verde em Sines vai começar a acontecer, nas próximas semanas, na Póvoa de Santa Iria.

Nesse sentido, a Hychem, a Green Aqua e outros parceiros estão a instalar uma central de energia solar, no âmbito de um projecto de autoconsumo que deverá atingir uma capacidade de 10 MW. “Essa energia poderá ser distribuída por várias empresas, de acordo com uma alteração legislativa recente. Vai funcionar num sistema de autoconsumo colectivo. Tem várias vantagens, desde logo porque vai permitir que não estejamos à mercê deste movimento muito recente em que a energia eléctrica multiplicou por várias vezes aquilo que era o seu custo no início deste ano”, salienta Nuno Coelho, explicando que a entrada em funcionamento da central de painéis fotovoltaicos está para muito breve e aguarda apenas a conclusão de um licenciamento.

“A partir daí toda a produção que façamos de hidrogénio é considerada hidrogénio verde. E isso é uma vantagem competitiva muito grande. Neste momento na fábrica de clorato de sódio temos uma capacidade um bocadinho acima das 1000 toneladas/ano de hidrogénio e a nossa ideia é, com aquilo que nos sobra da actividade dentro do parque (fábrica de peróxido), disponibilizar esse hidrogénio verde a parceiros ou entidades desta nossa área geográfica”, explica o administrador da Hychem, vincando que este hidrogénio terá sobretudo aplicações industriais, mas também poderá ser incorporado como biocombustível na rede de gás natural. “Estamos à espera de nos próximos dias resolver o tema do licenciamento e, temos tudo preparado para, em poucas semanas, começarmos a produzir energia fotovoltaica e termos hidrogénio verde. A expectativa que temos é que isso aconteça brevemente”, adianta, frisando que os vários projectos que a Hychem está a promover na Póvoa de Santa Iria envolvem investimentos da ordem dos 35 milhões de euros.

Paralelamente, sob coordenação da A4F, a Hychem está a desenvolver o projecto Move2lowC, que pretende desenvolver um conjunto de soluções de mobilidade no âmbito da evolução para o baixo carbono. O projecto reúne já 22 parceiros industriais e grandes consumidores de combustíveis como a TAP e envolve um investimento global de 12 milhões de euros, parcialmente financiados por fundos do Portugal 2020. Nesse sentido, a Hychem está a adquirir tecnologia que lhe vai permitir expandir a unidade fabril de clorato de sódio para que ali seja também produzido hidrogénio verde a partir do biogás gerado em aterros sanitários da região.

Este complexo industrial da Póvoa de Santa Iria está relativamente próximo do Aterro Sanitário do Mato da Cruz e, através de cisternas, passará a receber o biogás que vai utilizar na produção de hidrogénio verde. “Como parceiros deste Move2lowC, fomos à procura dessa tecnologia. Junta-se tudo e temos aqui economia circular”, salienta Nuno Coelho, frisando que a A4F e a Green Aqua estão ligadas a vários parceiros europeus líderes na investigação e desenvolvimento de tecnologias vocacionadas para o reaproveitamento dos resíduos. “É uma tecnologia que queremos experimentar à escala industrial para garantir uma nova frente de energia na perspectiva de podermos reciclar o biogás”, explica.

“Temos que olhar para o futuro com confiança e saber que há soluções por esse Mundo fora, às quais temos acesso e que nos permitem olhar para uma actividade industrial como uma oportunidade, porque o País não tem fatalmente que perder indústria, porque a indústria é um problema e é um peso. Não é. É olhar para isto numa perspectiva de futuro e muito ambiciosa”, defende o administrador da Hychem, acrescentando que outra vertente em desenvolvimento para a Póvoa de Santa Iria (a 10 quilómetros do aeroporto de Lisboa) é a instalação de uma unidade de fermentação e de uma biorrefinaria que vão permitir produzir bio jet fuel e outros compostos verdes. Esta vertente envolve, também, a TAP e visa criar condições para realizar um primeiro voo comercial com um combustível verde, o bio-jet fuel. “Iremos ter bio-jet fuel para fazer um voo comercial. É um desafio gigante, mas cá estamos. O nosso parceiro TAP está muito envolvido e muito empenhado nisto. Sabemos que são projectos de investigação e desenvolvimento, mas estamos muito confiantes de que lá chegaremos”, conclui, “frisando que para a produção deste bio-jet fuel poderão ser também utilizadas matérias-primas como biomassa de microalgas (produzida também no parque industrial da Póvoa de Santa Iria) ou resíduos florestais”.

Fonte: Público

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