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Abdulrazak Gurnah, cronista da experiência africana e do refugiado, é o Prémio Nobel da Literatura 2021

Gurnah escreve em inglês e tem apenas uma obra traduzida em Portugal. É o primeiro negro africano a receber o prémio desde que Wole Soyinka fez história em 1986.

O escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah é o Prémio Nobel da Literatura 2021, anunciou esta quinta-feira a Academia Sueca numa conferência de imprensa transmitida online. Gurnah, que escreve em inglês, é o primeiro negro africano a receber o prémio desde que Wole Soyinka fez história em 1986 — Gurnah é a quarta pessoa negra a receber a prestigiada distinção literária e o primeiro tanzaniano.

Abdulrazak Gurnah, de 73 anos, tem apenas uma obra traduzida em Portugal — Junto ao Mar, editada em 2003 pela Difel, e que esteve na lista de candidatos ao prémio Booker. Gurnah nasceu e cresceu numa das ilhas de Zanzibar (uma região autónoma da Tanzânia) e vive em Inglaterra desde a década de 1960, onde chegou inicialmente enquanto refugiado. O escritor estava na cozinha de sua casa quando foi informado pela fundação de que seria o premiado deste ano. O anúncio “foi uma surpresa tal que tive de aguardar para o ouvir por parte do júri antes de acreditar”, disse Abdulrazak Gurnah à Reuters, acrescentando que “[Nobel] é um prémio maravilhoso, cheio de grandes autores… Ainda me estou a adaptar à ideia”.

A sua obra consiste em dez romances publicados e alguns contos. O tema da vida dos refugiados e um retrato pungente de África permeia a sua obra e é um dos elementos destacados pelo júri do Nobel da Literatura na defesa da sua distinção. O prémio foi atribuído “pela penetração compassiva e sem compromissos dos efeitos do colonialismo e o destino do refugiado no golfo entre culturas e continentes”, anunciou Anders Olsson, secretário-geral do Nobel, em Estocolmo.

Na forma como Abdulrazak Gurnah trata a experiência do refugiado, o foco está na identidade e na auto-imagem, destaca a Fundação Nobel. “As personagens encontram-se num hiato entre culturas e continentes, entre uma vida que era e uma vida que emerge; é um estado inseguro que nunca pode ser solucionado.” Olsson sublinhou ainda que “no universo literário de Gurnah, tudo está a mudar — recordações, nomes, identidades. Provavelmente porque o seu projecto não pode chegar ao fim em qualquer sentido mais definitivo. Em todos os seus livros está presente uma exploração infinita movida pela paixão intelectual e de forma igualmente proeminente agora, em Afterlives [o seu romance de 2020], tanto quando começou a escrever quando era um refugiado de 21 anos”.

A sua língua materna é o swahili mas escreve em inglês. Está neste momento reformado da vida académica, mas ocupava a cátedra de professor de Literaturas Inglesas e Pós-Coloniais na Universidade de Kent, na Cantuária. A sua escolha como laureado de 2021 gorou grande parte das listas de candidatos e favoritos ao Nobel que anualmente se coligem entre os especialistas e as casas de apostas. Mas o seu perfil coincide com o que a Academia vinha a prometer: o escritor sueco e crítico literário Anders Olsson explicou recentemente que o prémio está a tentar mudar de rumo, para deixar de ser tão eurocêntrico (sete dos últimos dez premiados são europeus) e dar mais atenção à literatura escrita por mulheres.

Gurnah é então o quarto negro a receber o prémio, na peugada do nigeriano Wole Soyinka, de Derek Alton Walcott (natural de Santa Lucia, nas Caraíbas) e da norte-americana Toni Morrison. É também a primeira vez desde 2012 que a Academia Sueca premeia um autor que não seja europeu ou norte-americano, como destacava quarta-feira o jornal francês Le Figaro. Em 2017, o prémio foi para Kazuo Ishiguro — nascido em Nagasaki, no Japão, tem nacionalidade britânica desde 1983, diz enquadrar-se mais na tradição literária ocidental embora tenha uma educação embebida em valores japoneses, como revelou em várias entrevistas.

O tema colonial, dos refugiados e um olhar sobre paisagens e ideias feitas sobre África são alguns dos contributos da literatura de Abdulrazak Gurnah. O primeiro romance de Gurnah, Memory of Departure, data de 1987, mas foi em 1994 que publicou Paradise, a obra que verdadeiramente o lançou como autor — Yusuf é o seu jovem protagonista, um rapazinho tanzaniano entregue pelo pai a um mercador para ajudar a pagar as suas dívidas; a viagem de Yusuf pela África Central e Bacia do Congo produzem um romance nomeado para o Booker e para o Whitbread. Em 2005, destaca a Fundação Nobel, o autor publicou Desertion, que se passa entre Zanzibar e o Quénia e envolve personagens britânicas. A história é de amor, mas que contradiz de forma contundente aquilo que apelida de “romance imperial”.

Sobre Junto ao Mar, o único Gurnah traduzido em Portugal, o jornal britânico The Observer escreveu na época: “Desde as primeiras linhas sabemos que estamos nas mãos de um verdadeiro escritor, alguém que tem algo a dizer sobre o mundo”. E o também britânico The Times dizia que “raras são as vezes em que abrimos um livro e achamos que lê-lo captura as qualidades mágicas de um relacionamento amoroso”: “Junto ao Mar é uma dessas obras. É um livro que transforma miséria, decadência e perda em prosa, de uma elegância e de uma humanidade tal, que quase não nos atrevemos a respirar enquanto o lemos, com medo de quebrar o encanto.”

No ano passado, o prémio foi atribuído à norte-americana Louise Glück, “uma candidata invulgar ao Prémio Nobel”, como escreveu no Ípsilon o crítico literário Hugo Pinto Santos. A escritora não tinha até então livros publicados em Portugal, mas tem agora a sua obra poética traduzida na Relógio D’Água.

Em 2016, o prémio foi atribuído a Bob Dylan. Depois esteve suspenso e foi entregue em dose dupla à polaca Olga Tokarczuk​, que recebeu o prémio relativo ao ano de 2018, e ao austríaco Peter Handke, Prémio Nobel 2019.  De 117 laureados com o Nobel da Literatura, só 16 foram mulheres em toda a história do prémio. O Nobel ex-aequo a Olga Tokarczuk foi entregue após a suspensão da entrega do prémio em pleno momento MeToo após um escândalo de assédio e fuga de informação envolvendo o marido de uma dos membros da academia.

Entre uma lista de 200 autores nomeados (por entidades e academias literárias de vários países e por escritores que receberam o Nobel) foram neste ano escolhidos cinco candidatos finais. Durante o Verão, todos os membros da Academia Sueca — composta agora por 18 membros, sete deles nestas funções desde há três anos, quando os estatutos do prémio foram actualizados pelo rei sueco —, leram as obras desses cinco candidatos, já que este é um prémio dado ao conjunto de obras de determinado autor. Depois, para se ser o escolhido, é preciso recolher pelo menos um voto a mais do que a metade das indicações do júri. E o prémio é atribuído a um autor pelo seu mérito literário.

Neste ano, já se sabe que tal como em 2020, por causa da pandemia, não irá acontecer o habitual banquete organizado para os laureados em Estocolmo. A cerimónia em que os vencedores recebem das mãos do rei Carl XVI Gustaf o Prémio Nobel, agendada para 10 de Dezembro, em Estocolmo, será substituída por uma cerimónia transmitida pela televisão com os premiados a receberem os prémios nos seus respectivos países. 

Fonte: Público

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