Ciência

Há um novo centro que explorará tudo sobre o cancro do pâncreas em Portugal

O Centro de Cancro do Pâncreas Botton-Champalimaud é inaugurado esta segunda-feira. É o primeiro projecto criado de raiz dedicado exclusivamente à investigação e ao tratamento do cancro do pâncreas no mundo.

Ainda não estão lá os equipamentos nem os cientistas com a bata branca, mas ao longo de uma extensa fileira de bancadas já se conseguem decifrar as silhuetas de um laboratório. Estamos no Open-lab do novo Centro de Cancro do Pâncreas Botton-Champalimaud, acompanhados por Markus Maurer, investigador na Fundação Champalimaud. De peito cheio – e, ele sim, já vestido a rigor com a bata branca –, volta a sua atenção para imagens na parede e não consegue esconder: “Isto é particularmente entusiasmante para mim”. As fotografias mostram laboratórios que permitem manipular células humanas num ambiente altamente controlado. “É uma visão do que acontecerá do outro lado da parede.” Quando essas salas estiverem autorizadas, permitirão preparar terapias celulares para doentes com cancro do pâncreas que estejam a ser tratados no centro.

Mas esta é apenas uma das partes do Centro de Cancro do Pâncreas Botton-Champalimaud, que é inaugurado esta segunda-feira. Na cerimónia, prevista para as 15h30, estarão presentes os reis de Espanha, Felipe VI e Letizia Ortiz, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. “É o início de uma viagem única”, ilustra Markus Maurer sobre o que vai acontecer esta segunda-feira. Este é o primeiro projecto criado de raiz dedicado exclusivamente à investigação e ao tratamento do cancro do pâncreas no mundo.

O novo centro resulta de uma parceria entre a Fundação Champalimaud e Mauricio e Charlotte Botton, que doaram cerca de 50 milhões de euros para a sua construção. Mesmo ao lado dos espaços “originais” da Fundação Champalimaud, em Lisboa, e também com vista para o rio Tejo, o novo edifício alberga – além do Open-lab com 19 bancadas de investigação e os laboratórios de ambiente controlado – um centro clínico (com 29 quartos de internamento e 15 de unidades de cuidados intensivos/recobro), um hospital de dia (com 24 quartos de tratamento) e um centro cirúrgico (com três salas).

Prevê-se que o hospital comece a funcionar entre daqui a cinco ou seis meses, “ou talvez antes”, informa Markus Maurer. Quanto ao Open-lab, o cientista espera que entre em funcionamento “o mais breve possível”, mas aos poucos e com todas as medidas de segurança. Já para os laboratórios de boas práticas de fabrico (GMP, na sigla em inglês) – os tais laboratórios de ambiente altamente controlado – devem ainda ser necessários 12 meses até que exista uma permissão para a manipulação das células humanas aí. “Depois dos laboratórios GMP terem sido certificados e os ensaios em pessoas aprovados, os doentes serão tratados no mesmo edifício”, esclarece.

É sempre difícil fazer previsões sobre o número de pessoas que vão ser necessárias para este novo centro, mas Markus Maurer lança alguns valores: espera-se que estejam envolvidos cerca de 120 investigadores e mais de 80 profissionais de saúde – alguns serão recrutados e outros pertencerão já à Fundação Champalimaud. “Os profissionais de saúde devem ser ajustados ao crescente número de doentes”, adianta. O centro terá a capacidade para operar dez doentes por dia e antevê-se que “muitos milhares de doentes recebam aí tratamentos médicos”.

Já agora, no último ano, o actual Centro Clínico Champalimaud tratou 32.536 doentes e fez 2373 intervenções cirúrgicas. Aí, 2507 doentes foram tratados com quimioterapia e 1112 com radioterapia – tudo isto para diferentes tipos de cancro.

A intenção é ir sempre mais além. “Queremos dar um passo ainda mais à frente e superar os limites das diferentes áreas – da cirurgia, da oncologia e da imunoterapia.” E ir mais além também no tempo: “Não é apenas algo que estamos a preparar para os próximos dois ou três anos. Todas as ferramentas estão a ser preparadas para no futuro sermos capazes de fornecer aos doentes novos tratamentos, mas também para os desenvolvermos”.

Para consolidar todo esse caminho, já foram feitas parcerias internacionais, nomeadamente com outros centros dedicados ao cancro, como o da Universidade de Shandong (China), da Universidade de Heidelberg (Alemanha), da University College de Londres e o da Universidade de Pittsburgh (Estados Unidos).

“O centro é dedicado ao diagnóstico, ao tratamento e à ciência. Teremos em conta toda a precisão, todos os detalhes, bem como todos os instrumentos e conhecimento científico para perceber mais sobre o doente. E questionaremos sempre: como poderemos usar tudo isto para conceber novos tratamentos?”, sintetiza o investigador. Uma vez que é uma continuação do que já existe na Fundação Champalimaud, este centro não terá agora um director-geral.

Hoje, o cancro do pâncreas é a quarta causa de morte por cancro na Europa e estima-se mesmo que entre os próximos dez e 20 anos o número de casos possa aumentar para mais de 70% – tornando-se assim a segunda causa de morte por cancro na Europa e nos Estados Unidos. Markus Maurer sublinha que o maior desafio relativo ao cancro do pâncreas é o seu tratamento. Apenas entre 20% e 30% dos casos é diagnosticado a tempo de a pessoa poder ser operada.

“A doença é detectada tão tarde que já há metástases e é logo preciso quimioterapia”, assinala o investigador. “É dos cancros mais letais e dos mais difíceis de tratar. Temos de ter programas para o diagnosticar mais cedo, assim como melhorar tratamentos e criar outros novos.”

Portanto, como funcionará o novo centro? Markus Maurer dá-nos um exemplo: um doente pode aí entrar porque sentiu que algo estava errado. Pode ter notado que já andava cansado há muito tempo, que tinha uma dor de costas que não passava ou por um familiar ter visto que os olhos pareciam estar amarelados. Foi feito o diagnóstico e soube que tinha cancro do pâncreas.

Depois, terá diferentes opções de tratamentos: a cirurgia, a quimioterapia, radioterapia ou as imunoterapias celulares. É desta última opção que Markus Maurer nos fala entusiasticamente – ou não fosse o responsável por esta área no centro. Há vários tipos de imunoterapias e, para todas elas, são necessários os tais laboratórios de GMP, um processo de produção celular no local e que o tratamento para o doente seja aprovado. “As instalações de GMP do novo centro foram projectadas para permitir a produção de diferentes produtos celulares e para o uso de novas tecnologias para futuros tratamentos”, nota o investigador. Nessas salas tudo está esterilizado e qualquer passo que se dê será documentado.

Vejamos, por exemplo, como poderá vir a funcionar uma das imunoterapias no novo centro: a terapia dos linfócitos infiltrantes do tumor (TIL, na sigla em inglês). Através de uma cirurgia ou de uma biopsia, há células imunitárias que podem ser retiradas. “Essas células imunitárias foram capazes de reconhecer as células tumorais, mas perderam a batalha [contra elas]”, compara o cientista. Nos laboratórios GMP, essas células imunitárias “inteligentes” podem ser multiplicadas de poucas centenas ou milhares para muitos milhões para lutarem contra as células cancerosas.

Com um transplante, podem ser devolvidas ao doente que está a ser tratado no centro. Para se ter a certeza que a terapia é segura, a pessoa vai sendo monitorizada e até pode receber outros tratamentos para se conseguir aumentar o efeito das células imunitárias e para ajudar a que o efeito seja duradouro.

Este é apenas um exemplo de como se pode aplicar uma imunoterapia celular em doentes que não respondem a tratamentos mais convencionais, como a quimioterapia. “Estas terapias celulares são uma das partes de todo um modelo que também inclui a cirurgia e a oncologia – com o doente sempre no centro.” Este conceito onde estas três partes andam sempre de mãos dadas e vivem num mesmo centro é único no mundo para o cancro. 

Mas todo o caminho que será agora percorrido no novo centro começou ainda no edifício ao lado. O experiente cirurgião alemão Markus W. Büchler, da Universidade de Heidelberg, tem partilhado conhecimento e dado formação no Centro Clínico Champalimaud. Um outro percurso tem sido feito precisamente por Markus Maurer, que já liderava o laboratório de imunoterapia da Fundação Champalimaud. Aí, analisam-se a nível funcional e molecular células imunitárias de tecidos de tumores de doentes, mas ainda não se aplicam terapias celulares. “O trabalho passará a ser mais arrojado. O centro acrescentará uma nova qualidade àquilo que fazemos.” O cientista alemão coordena desde 2018 este laboratório. “Vim para a instituição por causa das terapias celulares e, logo depois, surgiu a ideia e a doação para o novo centro”, recorda.

Agora, vai conseguir explorar-se tudo sobre o cancro do pâncreas? “Essa é a missão”, responde, notando que não quer que sejam criadas falsas expectativas e que se tentará aprender tanto com os sucessos como com os falhanços. Todo o conhecimento sobre o cancro do pâncreas aqui conquistado poderá depois ser também aplicado aos restantes cancros. E sublinha ainda sobre a nova missão: “Há poucos sítios no mundo que têm uma filosofia em que o doente está no centro e em que todas as áreas estão ligadas. Esta é uma ciência para o doente. Há aqui um lado clínico muito importante”.

O ânimo de Markus Maurer por este centro já se reflecte na restante comunidade científica e clínica. O investigador procura até no telemóvel as mensagens que trocou na noite anterior com Michael Lotze, professor de imunologia da Universidade de Pittsburgh e um pioneiro na área da imunoterapia. “Como vão as coisas com o novo centro? Assim que a pandemia chegar ao fim gostava de ir logo aí”, escreveu na mensagem o cientista norte-americano ao investigador da Fundação Champalimaud. E, para nós, Markus Maurer reforça com um sorriso: “A comunidade científica e clínica está mesmo muito entusiasmada com este projecto!” Não será um exagero dizer que muitas pessoas fora dessa comunidade também estão.

Fonte: Público

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