Ciência

Afinal, as mais antigas pegadas humanas na América do Norte têm cerca de 20 mil anos

Artigo publicado na Science revela que nas investigações feitas no Parque Nacional de White Sands, no Novo México, foram encontradas pegadas humanas que terão entre 21 mil e 23 mil anos.

Uma equipa de cientistas relatou esta quinta-feira na revista Science a descoberta daquelas que podem ser as pegadas humanas mais antigas conhecidas na América do Norte. Os autores do artigo estimam que estas marcas encontradas no local que é hoje o Parque Nacional de White Sands têm entre 21 mil e 23 mil anos de idade, durante o Último Máximo Glacial. As descobertas indicam que os humanos estavam presentes no sul da América do Norte cerca de sete mil anos antes do que se pensava.

“Apesar de quase um século de investigação, os detalhes relativos à migração dos primeiros humanos para as Américas e o seu impacto na paisagem do Pleistoceno continuam a ser pouco claros, e as primeiras provas arqueológicas para a colonização da região são frequentemente muito controversas”, adianta o resumo assinado por Walter Beckwith, da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS, na sigla em inglês) que edita a revista Science, acrescentando ainda que “as estimativas actuais sobre o calendário destes primeiros ocupantes variam entre há 13 mil e há 20 mil anos”.

O trabalho liderado por Matthew Bennet analisou as marcas deixadas por pegadas que – ao contrário de artefactos culturais ou outras evidências de actividade humana que podem ter uma origem menos precisa – têm um “contexto de depósito primário, fixadas na superfície impressa, e representam um momento mais distinto no tempo”. Os autores revelam ainda que as análises adicionais das pegadas sugerem que a maioria destas marcas (cerca de uma dúzia delas) foi deixada por adolescentes e crianças, detectando-se pontualmente o rasto da presença de adultos.

Anteriormente, os cientistas tinham assumido que a primeira aparição de seres humanos nas Américas foi há 11 mil a 13 anos atrás, devido às lanças de pedra encontradas em toda a América do Norte e associadas ao que é conhecido como a cultura Clovis. O povo Clóvis viveu na América do Norte há uns 13 mil anos, caçando mamutes, mastodontes e bisontes com as suas características pontas de lança talhadas na pedra. Desapareceu, ninguém sabe ainda bem porquê, ao fim de quatro séculos.

“As provas são muito convincentes e empolgantes”, diz Tom Higham, um cientista especialista em datação por radiocarbono da Universidade de Viena, citado no The Guardian. “Estou convencido de que estas pegadas são genuinamente da idade reivindicada”. Outro perito, Spencer Lucas, paleontólogo do Museu de História Natural e Ciência do Novo México, considera que estes resultados representam uma clara mudança das “regras do jogo” corrigindo as anteriores estimativas.

Os sinais das pegadas na base da trincheira. Foto: D.R

A descoberta agora divulgada altera a versão que tínhamos sobre os ocupantes deste território, corrigindo o calendário e sugerindo que poderá ter havido grandes migrações de que nada sabemos. O artigo conta ainda que as pegadas foram deixadas “em lama macia nas margens de um lago raso” que agora faz parte do Alkali Flat (um lago seco) em White Sands.

Especulando sobre os motivos que podem dar um contexto a estas marcas onde se destaca a presença de crianças e adolescentes, os cientistas admitem que é difícil dizer ao certo o que estariam ali a fazer, mas admitem que é possível que estivessem a ajudar um adulto em alguns trabalhos e rotinas ligados aos costumes de caça. Os animais “tinham todos de ser processados num curto período de tempo”, explicou Sally Reynolds, co-autora da Universidade de Bournemouth, citada pela BBC. Era preciso usar o fogo e transformar a gordura das presas, elaboram os especialistas admitindo a hipótese de os adolescentes estarem por ali a ajudar em algumas tarefas, como recolher lenha ou água.

A datação da descoberta é fundamental, porque tem havido inúmeras alegações e muitas delas contestadas sobre a presença humana precoce nas Américas. O debate tem estado sobretudo centrado à volta de umas peças encontradas no local que tanto são vistas como ferramentas de pedra como simplesmente rochas quebradas através de algum processo natural — como a queda de um penhasco.

Uma das razões que justifica tanto debate à volta deste tema tem sido a falta de uma prova muito sólida e inequívoca. “É o que pensamos que provavelmente temos aqui”, disse Matthew Bennett, primeiro autor no jornal da Universidade de Bournemouth, à BBC. “As pegadas não são como ferramentas de pedra”. Uma pegada é uma pegada, e não se pode mover para cima e para baixo [nas camadas do solo], justifica.

No entanto, apesar das fortes provas físicas apresentadas, a descoberta pode vir a ser fragilizada pelo conhecido “efeito reservatório”. “Isto refere-se à forma como o carbono antigo pode por vezes ser reciclado em ambientes aquosos, interferindo com os resultados do radiocarbono ao fazer com que um local pareça mais antigo do que é”, refere a BBC, notando que, no entanto, os membros da equipa dizem ter sido responsáveis por este efeito e acreditam que não é significativo aqui.

Tom Higham, especialista em datação por radiocarbono da Universidade de Viena, afirma: “Argumentaram, penso que justificadamente, que o lago deve ter sido pouco profundo na altura em que as pessoas lá caminharam, atenuando o efeito de efeitos de reservatório introduzidos por antigas fontes de carbono”. A consistência dos resultados e o apoio de uma técnica de datação diferente aplicada ao local apoiam a validade dos resultados, acrescentou.

As provas deixadas pelas pegadas no Novo México sugerem que os humanos tinham chegado ao interior da América do Norte no auge da última Idade do Gelo, quando enormes camadas de gelo cobriam grande parte do que é hoje o Canadá. “Isto teria bloqueado a entrada de humanos que atravessavam a Ásia, talvez sugerindo que os humanos chegaram ainda mais cedo quando os caminhos através do gelo estavam abertos”, refere a notícia da BBC.

Gary Haynes, um professor da Universidade do Nevada, Reno, também valida os resultados apresentados agora na Science: “Não consigo encontrar falhas no trabalho que foi feito ou nas interpretações”. Por fim, Andrea Manica, geneticista da Universidade de Cambridge, concorda que a descoberta tem implicações importantes para a história da população das Américas. “Não posso comentar quão fiável é a datação (está fora da minha especialidade), mas a prova firme de humanos na América do Norte há 23 mil anos está em desacordo com a genética, o que mostra claramente uma divisão dos nativos americanos dos asiáticos há aproximadamente 15- 16 mil anos”, disse o investigador à BBC.

E conclui: “Isto sugere que os colonos iniciais das Américas foram substituídos quando o corredor de gelo se formou e outra vaga de colonos entrou. Não temos ideia de como isso aconteceu”.

Fonte: Público

Mostrar mais

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to top button
Close
Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker