Desporto

Jorge Fonseca: “Eu nasci para o ouro, não nasci para o bronze”

Jorge Fonseca foi terceiro em -100kg no judo olímpico em Tóquio, a primeira medalha portuguesa nestes Jogos Olímpicos, mas queria mais. Uma cãibra na mão esquerda estragou-lhe o sonho dourado em Tóquio.

Uma das regras covid nos Jogos Olímpicos determina que ninguém põe medalhas ao pescoço de ninguém. Elas vão numa bandeja e os respectivos contemplados retiram a sua e colocam-na, eles próprios, ao pescoço. Quando o tabuleiro das medalhas se aproximou de Jorge Fonseca, talvez o judoca português, durante meio segundo, tenha tido a tentação de deixar a de bronze e ficar com a de ouro, que era a que ele verdadeiramente queria. Descalço no pódio, tal como dois dos outros (a excepção foi o novo campeão, o japonês como nome pouco japonês Aaron Wolf), Jorge Fonseca tirou a medalha certa, a de bronze, a premiar o seu terceiro lugar no torneio olímpico de judo em Tóquio 2020, na categoria de -100kg.

– Melhor dia da carreira?
– Não.
– Supera o Campeonato do Mundo?
– Não.
– Queria mais?
– Quero mais. Eu nasci para o ouro, não nasci para o bronze.

Por estas três primeiras respostas aos jornalistas portugueses após o bronze no país que inventou o judo, torna-se evidente que Jorge Fonseca quer outro metal dentro de três anos, nos Jogos de Paris. E por apontar ao ouro, a festa que se seguirá após esta conquista no Budokan não será uma coisa em grande, nem sequer se poderá chamar festa. “Não quero festa, não há motivo para festejar. Só festejo ouro”, atirou. Mas esta era uma medalha que faltava ao bicampeão do mundo e vai ter espaço na cada vez maior colecção de rodelas feitas de metais preciosos — é a mãe que as guarda todas.

Depois de Nuno Delgado, em Sydney 2000, e de Telma Monteiro, no Rio 2016, esta foi a terceira medalha do judo português nos Jogos Olímpicos (todas de bronze). E foi também a primeira medalha da comitiva portuguesa em Tóquio, já quase no fim da participação da equipa de judo — Rochelle Nunes será a última a entrar em acção — e ainda antes das competições de canoagem e atletismo, onde as expectativas de medalha se concentram. Para já, para além da medalha, a primeira semana deu a Portugal quatro diplomas: Yolanda Sequeira (surf), Gustavo Ribeiro (skate), Catarina Costa (judo) e equipa de dressage (equestre).

Jorge Fonseca chegava a Tóquio com expectativas altas, que, para ele, eram realistas. Queria ser campeão olímpico. Nada mais natural para um bicampeão mundial, o último dos títulos conquistado há mês e meio, em Budapeste. Aterrou em Tóquio e chegou ao Budokan, um pavilhão feito só para judo, em 1964, onde tinha sido campeão mundial em 2019, para escrever uma nova página na sua história e na do desporto português — até estes Jogos, todos os campeões foram do atletismo.

Como era o segundo do ranking mundial, o português ficou isento da primeira ronda e avançou para a segunda. A vontade era tanta que despachou o belga Toma Nikiforov, o campeão europeu em título, em apenas 17 segundos. Foi dos últimos da categoria a subir ao tapete e foi entrada e saída. Fonseca estava com pressa. Mas o seu adversário seguinte não lhe fez a vontade.

Bem mais demorado foi o combate dos quartos-de-final com o russo Niiaz Iliasov. Depois de empatados nos quatro minutos regulamentares, o combate avançou para prolongamento. Ainda houve uma interrupção para tratar uma lesão do russo — foram largos minutos em que o português andou de um lado para o outro no tapete. Quando Iliasov regressou, Fonseca conseguiu pontuar com waza-ari, estavam decorridos 3m55s no golden score, e apurou-se para a sessão da tarde, na qual teria o sul-coreano Guam Cho pela frente.

Era “só” mais um combate até chegar à luta pela medalha de ouro. Fonseca parecia descontraído, com auscultadores nos ouvidos, a fazer a activação muscular com uma dança. Subiu ao tapete, começou o combate, mas algo estava errado. Fonseca tinha um problema na mão esquerda, que não era uma lesão traumática sofrida durante o combate, mas uma cãibra que, antes, só lhe tinha aparecido uma vez na vida. Essa cãibra nervosa deu-lhe cabo dos planos e nunca conseguiu atacar em condições. Quando o tentou fazer, já perto do final, Cho virou-lhe as costas e Fonseca caiu. O coreano pontuou e já não havia margem para recuperar. “Estava em modo monstro. Mas a cãibra destruiu o modo monstro.”

Fonseca falhava a final, mas o dia ainda não tinha acabado. Ainda tinha uma medalha para conquistar e menos de meia hora para recuperar antes de defrontar um adversário que vinha moralizado das repescagens. “Quem vem de baixo vem de uma derrota, aquilo é preciso ser digerido, mastigado em 20 ou 25 minutos. Não é fácil levantar moral, porque este é um nível elevadíssimo e sabíamos que ia ser um combate muito difícil para o bronze, porque não teve muito tempo para repousar nem para colocar a cabeça no lugar”, explicou Pedro Soares, o treinador.

E assim foi, cerca de meia-hora depois, Fonseca estava de volta ao tapete para defrontar o canadiano Shady Elhanas. Sem cãibras, aparentemente. Mas o nervosismo impôs-se na cabeça de Fonseca quando, já depois de ter recebido uma penalização, pontuou com waza-ari a 36 segundos do fim. Dez segundos depois, o português levou outro castigo, Pedro Soares foi expulso por falar (gritar algumas palavras que o árbitro espanhol percebeu bem) e Fonseca precisava de gerir aqueles segundos sem o terceiro castigo que lhe podia roubar a medalha.

Nas palavras de Jorge Fonseca, foi isto que se passou naqueles 20 segundos: “Estava muito cansado. Marco waza-ari, aquele momento não dá para controlar, a emoção é tão grande… A malta julga que é fácil, não é, cada segundo vale ouro. Eu estava completamente perdido, já tinha dois castigos… Tenho uma grande guerra com aquele árbitro espanhol, ele não gosta muito de mim, ele já me lixou a vida no Masters. Hoje correu bem, até lhe pedi desculpa por ralhar com ele, ele não gosta de mim por causa da minha atitude. Eu estava ali para conquistar o ouro, já estava na hora de mostrar quem é que manda. Sou eu.”

E foi ele mesmo que mandou naquele tapete. Medalha de bronze, bandeira de Portugal a subir no Budokan ao lado das bandeiras do Japão (ouro), da Coreia do Sul (prata) e da Rússia (bronze). Jorge Fonseca chorou um bocadinho quando a pendurou ao pescoço e ainda baixou a máscara por uns segundos para que lhe vissem o sorriso. Que podia ter sido ainda maior.

Fica em suspenso durante três anos a promessa de dançar pimba no Japão: “Queria dançar pimba, mas com o ouro no pescoço. Era completamente diferente. Com bronze? A gente pode dançar uma quizomba. Não quero dançar quizomba, quero dançar pimba em Paris, lá na terra dos franceses, ali com eles todos. Estou um bocado por aqui com os franceses, ninguém grita na minha cara [referência a um combate com Alexandre Iddir, no Europeu de Lisboa, em 2021], que eu não gosto. Festa, festa, faço em Paris e depois vou para o Marquês com o ouro ao pescoço.”

Fonte: Público

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