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Oito mil migrantes transformaram-se em arma diplomática entre Espanha e Marrocos

Em três dias, chegaram a Ceuta oito mil pessoas provenientes de Marrocos e cerca de 5600 já foram expulsas. Bruxelas acusa Rabat de “chantagem”.

A chegada de cerca de oito mil migrantes a Ceuta, enclave espanhol no Norte de Marrocos, nos últimos três dias, abriu uma crise diplomática entre os dois países.

Ao início da tarde desta quarta-feira, as autoridades marroquinas encerraram a fronteira na zona de Tarajal, por onde entrou a maioria dos migrantes nos dois dias anteriores. Nas últimas horas, o movimento inverteu-se, com milhares de pessoas a regressarem a Marrocos e sem novas entradas em números significativos, diz a agência Efe.

“Não há maior dissuasão para os que ainda querem entrar do que ver tanta gente a regressar”, diz uma fonte das forças de segurança espanholas, citada pelo El País.

Até agora, cerca de 5600 pessoas que cruzaram a fronteira foram de novo para Marrocos sem apresentarem grandes dificuldades. O processo levanta algumas dúvidas, uma vez que as expulsões colectivas são proibidas pela Convenção Europeia de Direitos Humanos, mas o Ministério do Interior espanhol diz que em muitos casos as pessoas regressaram de livre vontade.

Os dois enclaves espanhóis no Norte de Marrocos, Ceuta e Melilla, têm um historial de vagas de imigração ilegal, mas o fluxo dos últimos dois dias não tem precedentes. Entre segunda e terça-feira, chegaram à cidade espanhola perto de oito mil pessoas, algumas a nado, outras a pé, que atravessaram com facilidade a fronteira, sem que a polícia marroquina os travasse.

Entre os migrantes que chegaram a Ceuta, cidade de 85 mil habitantes, estavam pelo menos 1500 menores. Uma pessoa morreu afogada durante a travessia. Na última madrugada, 86 pessoas conseguiram entrar em Melilla.

O chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, cancelou uma viagem a Paris para participar numa cimeira com países africanos e deslocou-se aos dois enclaves espanhóis.

A entrada descontrolada de pessoas no enclave serviu de munição à oposição ao Governo do Partido Socialista (PSOE) e do Unidas Podemos. O líder do Partido Popular, Pablo Casado, acusou o executivo de ter criado um “caos” que está a prejudicar a posição externa de Espanha. A extrema-direita aproveitou para tentar capitalizar politicamente um tema que lhe é caro. O líder do Vox, Santiago Abascal, deslocou-se imediatamente para Ceuta, onde acusou Marrocos de promover uma “invasão dirigida e planificada”.

Por trás da chegada dos migrantes a Ceuta parece estar o diferendo entre Espanha e Marrocos em torno da luta pela independência do Sara Ocidental. O líder da Frente Polisário e presidente da República Árabe Sarauí Democrática, Brahim Gali, foi internado recentemente num hospital em Logronho, depois de ter sido infectado com covid-19.

O Governo espanhol justificou o acolhimento de Gali por razões humanitárias, mas Marrocos, que combate há décadas o movimento independentista sarauí, entendeu ser um acto hostil.

Em Dezembro do ano passado, o então Presidente norte-americano, Donald Trump, reconheceu a soberania marroquina sobre o território, contrariando a posição oficial da ONU que define o Sara Ocidental como “um território não autónomo pendente de descolonização”. Na altura, Trump tomou essa decisão para garantir a normalização das relações entre Marrocos e Israel. Desde então, a pressão do Governo de Rabat sobre a União Europeia e Espanha, em particular, intensificou-se para que sigam o exemplo norte-americano.

O Governo marroquino não hesitou em ligar a entrada dos milhares de migrantes em Ceuta à controvérsia entre os dois países. O ministro dos Direitos Humanos e Relações com o Parlamento de Marrocos, Mustafa Ramid, afirmou que Espanha “sabia que o preço por subestimar Marrocos é muito elevado”, através de uma mensagem no Facebook publicada na terça-feira à noite. Referindo-se a Brahim Gali, o ministro questionou: “O que esperava Espanha de Marrocos ao acolher o líder de um grupo que levantou armas contra si?”

Antes, a embaixadora marroquina em Madrid, Karim Benyaich, já tinha declarado que “há actos que têm consequências e têm de se assumir”.

A chefe da diplomacia espanhola, Arancha González Laya, disse que o apoio médico dado a Gali nunca foi encarado por Madrid como “uma agressão” e pediu o regresso à via do diálogo. “Espanha sempre se mostrou o mais aberto possível. Trata-se dos seus vizinhos, todas as dificuldades se resolvem falando”, afirmou a ministra.

Bruxelas mostrou preocupação com a chegada de um número tão elevado de migrantes a uma fronteira europeia. O comissário europeu para as Migrações, Margaritis Schinas, disse que “ninguém pode chantagear a UE” e pediu responsabilidades a Marrocos. “Não podemos ser vítimas de tácticas de países terceiros que instrumentalizam a imigração”, afirmou.

Fonte: Público

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