Ambiente

Covid-19 e clima: Europa viveu ano mais quente em 2020 e Árctico derrete

Más notícias no Dia Mundial da Terra. Dois relatórios sobre as alterações climáticas alertam para dados preocupantes registados em 2020. A covid-19 mudou muita coisa, abrandou a economia mas não travou os danos provocados no planeta. As temperaturas continuam a subir e a concentração de gases continua a aumentar.

A Europa viveu o seu ano mais quente em 2020, enquanto partes do Árctico siberiano registaram seis graus Celsius acima da média, de acordo com o relatório anual sobre o Estado do Clima Europeu divulgado esta quinta-feira. Num outro relatório que analisou o impacto da covid-19 nos indicadores de ambiente conclui-se que a pandemia (e o consequente abrandamento económico) fez diminuir temporariamente as emissões de gases com efeito de estufa, mas não teve um impacto perceptível nas concentrações atmosféricas. “Este é o ano para a acção”, avisa o secretário-geral da ONU, António Guterres, instando os países a comprometerem-se a serem neutros em emissões de CO2 até 2050 e a apresentarem planos “ambiciosos” para que as emissões globais sejam reduzidas em 45%, comparando com 2010, até 2030.

A quarta edição do relatório do Serviço Europeu de Mudanças Climáticas Copérnico (C3S) detalhou as condições climáticas globais e europeias durante o ano passado, e procurou “quebrar o fosso entre a ciência e a sociedade”, disse aos jornalistas o director de serviços do programa Copérnico no Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, Jean-Noel Thépaut. O estudo mostrou que as temperaturas na Europa continuam numa trajectória de subida, e que, à escala global, 2020 é um dos três anos mais quentes desde que existem registos, um recorde que tem sido quebrado consecutivamente nos últimos seis anos. No caso da Europa, em 2020 a temperatura subiu 0,4 graus Celsius acima dos anos mais quentes da última década, especialmente no Outono e Inverno, quando foi alcançado um novo recorde com um aumento de 3,4 graus Celsius sobre a média do período de referência, de 1981 a 2010.

Uma das cientistas responsáveis salientou que o relatório não se centrou apenas nos valores meteorológicos, mas utilizou todas as capacidades de monitorização, tais como os dados dos satélites. Freja Vamborg alertou para a situação no nordeste da Europa, que viveu um 2020 “particularmente quente”, com invernos até nove graus Celsius acima da média habitual, um aumento que teve consequências em áreas próximas do mar Báltico, onde quase não nevou.

O relatório indica ainda que o Noroeste da Europa experimentou no ano passado uma das Primaveras “mais secas dos últimos anos”, depois de ter passado por um Inverno de fortes chuvas. Esta mudança reflectiu-se na descarga fluvial mais baixa do rio na bacia do Reno desde que existem registos. No entanto, no início de Outubro de 2020, a tempestade Alex chegou, com chuvas “invulgarmente elevadas” que triplicaram a precipitação média habitual, bateu recordes diários em países como o Reino Unido e França e causou mesmo inundações em algumas regiões da Europa Ocidental.

O Árctico siberiano “está a aquecer a um ritmo mais rápido do que o resto do planeta”, advertiu Vamborg, sublinhando que 2020 foi “de longe” o ano mais quente até à data, com temperaturas até seis graus Celsius mais elevadas do que o habitual. Por outro lado, em Março houve um “vórtice polar” de grande magnitude nesta região, o que resultou num esgotamento recorde da camada de ozono no hemisfério Norte, acrescentou.

O clima anómalo em 2020 no Árctico também fez com que o gelo marinho atingisse “mínimos históricos”, bem como um aumento do número de incêndios florestais e das emissões de dióxido de carbono (CO2). As concentrações de gases com efeito de estufa, tais como dióxido de carbono e metano, atingiram os níveis mais elevados desde o início dos registos, mesmo com as reduções causadas pela paralisia de alguns sectores durante a pandemia.

Particularmente preocupante é o aumento acelerado das emissões de metano (mais 0,8% do que no ano anterior), que, segundo o director do Serviço de Monitorização Atmosférica de Copérnico (CAMS), Vincent-Henri Peuch, “não tem uma explicação real” e, portanto, será avaliado com mais detalhe para se obterem mais dados. O Copérnico, com sede em Reading, Reino Unido, é o principal programa de observação da Terra da União Europeia, fornecendo informação actualizada sobre o planeta e o ambiente, em colaboração com os Estados-membros e outras agências europeias.

Os indicadores e os impactos das alterações climáticas agravaram-se em 2020, um dos três anos mais quentes de sempre, e a pandemia de covid-19 abrandou a economia mas não as concentrações de gases, alerta um outro relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma agência das Nações Unidas com sede na Suíça. Na sequência da divulgação destes dados, o secretário-geral da ONU, António Guterres, deixou um aviso a todos os países.

“A tendência negativa do clima continuará durante as próximas décadas, independentemente do nosso sucesso na mitigação. Por conseguinte, é importante investir na adaptação. Uma das formas mais poderosas de adaptação é investir em serviços de alerta precoce e em redes de observação meteorológica”, alertou. De acordo com os dados compilados em relação a 2020, a pandemia de covid-19 e o consequente abrandamento económico fizeram diminuir temporariamente as emissões de gases com efeito de estufa, mas tal não teve um impacto perceptível nas concentrações atmosféricas.

Nos últimos dois anos, afirma-se no documento, as concentrações de gases com efeito de estufa continuaram a aumentar e a concentração de CO2 seguiu os mesmos padrões de aumento também. E a covid-19 só fez piorar a situação de milhões de pessoas já a braços com os riscos climáticos, pelas recessões económicas, pelas perturbações no sector agrícola, pelo aumento da insegurança alimentar e o atraso na prestação de ajuda humanitária.

Em resumo, diz a OMM, além da covid-19, o ano 2020 foi marcado pelo aumento da temperatura da Terra e dos oceanos, pela subida do nível do mar, pela continuação do derretimento do gelo permanente e recuo dos glaciares e pelas condições meteorológicas extremas. Tudo isso teve impacto no desenvolvimento económico, nas migrações (internas e externas), na segurança alimentar, e nos ecossistemas terrestres e marinhos.

E para que não restem dúvidas, diz a OMM, 2020 foi um dos três anos mais quentes de que há registo, com uma temperatura média global de 1,2 graus Celsius acima do nível pré-industrial (1850-1900). Os últimos seis anos (desde 2015) foram os mais quentes de que há registo. E a década 2011-2020 foi também a mais quente de que há registo.

O secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, lembrou que foi há 28 anos que a organização fez o primeiro relatório sobre o estado do clima (1993) para dizer a seguir que, apesar dos avanços de informação e tecnológicos, a mensagem continua a mesma, de preocupação com as alterações climáticas. A diferença é que agora há “mais 28 anos de dados que mostram aumentos significativos da temperatura em terra e no mar, bem como outras alterações como a subida do nível do mar, o derretimento do gelo e dos glaciares e alterações nos padrões de precipitação”. Todos os indicadores, sublinhou, “realçam uma mudança climática incessante e contínua, uma ocorrência e intensificação crescentes de eventos extremos, e perdas e danos severos, que afectam as pessoas, sociedades e economias”.

Para António Guterres, o relatório agora apresentado mostra que não há tempo a perder, que o clima está a mudar e que os impactos já são demasiado pesados para as pessoas e para o planeta. “Este é o ano para a acção”, disse, instando os países a comprometerem-se a serem neutros em emissões de CO2 até 2050, apresentando antes da próxima cimeira sobre o clima (COP26), em Glasgow, planos “ambiciosos” para que as emissões globais sejam reduzidas em 45%, comparando com 2010, até 2030.

“E precisam de agir agora para proteger as pessoas contra os efeitos desastrosos das alterações climáticas”, avisou António Guterres. O relatório faz uma análise da situação em várias áreas, uma delas os oceanos, que absorvem cerca de 23% das emissões de CO2 emitidas pelos humanos, mas que devido a esse CO2 se acidificam e que também por isso perdem capacidade de absorção de CO2 da atmosfera. E esse processo continuou em 2020, afectando a vida marinha, os ecossistemas e a pesca.

“O oceano também absorve mais de 90% do excesso de calor das actividades humanas. Em 2019 registou-se o maior teor de calor dos oceanos, e esta tendência provavelmente continuou em 2020”, diz-se no documento. Mais de 80% da área oceânica sofreu pelo menos uma onda de calor em 2020 e o nível médio global do mar continuou a subir no ano passado.

No Árctico as temperaturas aumentam duas vezes mais rapidamente do que a média global, com implicações nos ecossistemas árcticos, mas também no clima global, com o descongelamento dos gelos permanentes (permafrost) a libertar metano para a atmosfera. Em 2020 bateram-se recordes de diminuição do gelo, bateram-se recordes de altas temperaturas na Sibéria e a Gronelândia continuou a perder gelo. E se na Antárctida há uma maior estabilidade, diz o relatório que a região perde anualmente entre 175 e 225 gigatoneladas de gelo por ano.

Mas o ano passado deixou outras marcas, lembra-se no relatório. Chuvas anormalmente fortes e inundações em grandes partes de África e Ásia, seca severa na América do Sul (o Brasil teve perdas agrícolas estimadas em três mil milhões de dólares), temperaturas anormalmente altas na Sibéria (38 graus Celsius em Verkhoyansk, na Rússia, perto do círculo polar Árctico), os maiores incêndios alguma vez registados nos Estados Unidos, e temperaturas altas nunca antes registadas, também nas Caraíbas e na Austrália. E a Europa também com ondas de calor. E recordes de temperaturas em Israel, no Kuwait e no Iraque.

E depois, também em 2020, os furacões, com o Atlântico Norte a ter o maior número de tempestades nomeadas de sempre, com os Estados Unidos a sofrerem 12 furacões (recorde anterior era nove), com a zona da Índia e do Bangladesh a sofrerem o ciclone mais destrutivo de sempre e as Filipinas um dos mais intensos. E 2020 foi também o ano que registou (3 de Outubro) o dia mais chuvoso de sempre no Reino Unido e uma tempestade de granizo na Líbia (Trípoli, a 27 de Outubro) com um frio invulgar.

No ano passado, mais de 50 milhões de pessoas foram duplamente atingidas por catástrofes relacionadas com o clima (inundações, secas e tempestades) e pela pandemia de covid-19, com as tempestades a provocarem desalojados e deslocados e a ajuda a ser dificultada devido à pandemia (atrasos na assistência, as pessoas a não poderem ser transportadas em grande número, os centros de evacuação a funcionar pela metade).

Como consequência das alterações climáticas, da pandemia ou de conflitos aumentou a insegurança alimentar e foram quebradas cadeias de abastecimento. Na primeira metade do ano registaram-se quase dez milhões de deslocações devido a acontecimentos climáticos (Ásia e Corno de África, por exemplo). E se a isso se somarem os deslocados da segunda metade do ano, o número de deslocados de suas casas só em 2020 deverá aproximar-se da média da década, segundo a OMM.

O FMI, citado no documento, admite que a recessão global provocada pela pandemia de covid-19 pode afectar as políticas de mitigação das alterações climáticas. Mas fala de oportunidades para “colocar a economia numa trajectória mais verde”, que pode apoiar o PIB e o emprego e ao mesmo tempo limitar o impacto das alterações climáticas.

O relatório publicado a 19 de Abril antecede uma cimeira virtual de líderes mundiais sobre o clima, organizada pelo Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que se realiza esta quinta e sexta-feira para juntar esforços das principais economias no sentido da redução de gases com efeito de estufa e do cumprimento dos objectivos do Acordo de Paris – manter a subida da temperatura mundial a um nível inferior a dois graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais até ao final do século. O relatório junta informação de muitos serviços meteorológicos e hidrológicos, centros climáticos, e parceiros da ONU.

Fonte: Público

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