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Opinião “Em meu nome”: Desconfinamento, desespero e pobreza

Esperemos que este desconfinamento faseado aconteça e que todos contribuam para amenizar estas consequências da pandemia (que só veio agudizar a crise económica que já se fazia sentir antes da mesma). Crise económica e desemprego são sinónimos de pobreza. E o grave problema para toda a população portuguesa é mesmo esse: pobreza e fome.

Numa altura em, que pelas mais variadas razões, já estamos todos mais que fartos de estar em casa começa-se a vislumbrar por meias palavras, por supostos falsos quadros, um desconfinamento parcial e uma retomada da “normalidade” à nossa vida.

Já todos percebemos que há sempre uma “fuga” de informação ou alguém que assume uma determinada medida, antes da mesma ser oficial – o que a meu ver e numa perspetiva muito pessoal não é mais do que um isco para ver como os portugueses vão reagir à implementação desta ou daquela medida (chamo a isto “prospeção do mercado”) – ou seja, conforme a reação temos ação!

Não me parece a melhor forma, mas é aquela que a classe política eleita escolheu para não ter danos colaterais nas próximas eleições. Simplificando, as medidas têm sido tomadas em função dos votos e da opinião pública. Simples!

Espanta-me que os números tenham baixado repentinamente (mas devo ser eu que sou desconfiada por natureza). Talvez isso se deva à vacinação maciça ou, contrariamente ao anunciado como medida a aplicar de imediato, à menor testagem. O que é um facto estatístico é que os números estão a baixar – esperemos que a realidade não se sobreponha à estatística.

Sou apologista de um desconfinamento faseado, pois já se verificou que quando se abre tudo ao mesmo tempo os portugueses não cumprem com o que lhes é pedido. Também não me choca que se inicie este desconfinamento pelas escolas, desde que as mesmas tenham todas as condições de segurança garantidas para o efeito, que passa muito pela testagem semanal ou periódica de
todos os elementos da comunidade (algo que sempre disse que seria eficaz na prevenção e deteção de casos positivos) bem como pela existência de recursos humanos em número suficiente (a começar pelas assistentes operacionais).

Apesar de achar que as escolas poderiam ter ficado a trabalhar em regime misto (alternando ensino à distância com ensino presencial) e sempre ter defendido que as escolas nunca foram o local mais perigoso de contágio, entendo que ao se colocar as crianças/jovens em casa foi a melhor medida para assegurar que os pais também se mantinham em casa, limitando assim as suas deslocações e
interações com outros elementos da comunidade, fazendo assim cumprir o confinamento e diminuindo o risco de contágio.

Têm sido largamente publicitadas pelos órgãos de comunicação social as situações de incumprimento e violação do confinamento obrigatório por pessoas singulares ou por comerciantes, nomeadamente donos de restaurantes e cafés.

Temos todos de entender, mas não compactuar, com as razões dos mesmos: têm contas para pagar, alguns já tinham problemas financeiros antes e, na sua maioria, ainda têm funcionários/famílias que dependem do seu rendimento para sobreviver.

Percebo o desespero daqueles que têm de assumir estas responsabilidades e lamento que os apoios estatais fiquem muito aquém e que não sejam pensados em função das necessidades emergentes. Outra área que está a ser muito afetada por esta pandemia e que tem sido um parente pobre dos vários governos é a área da cultura. Os artistas das várias vertentes têm tentado adaptar-se a esta nova realidade, adaptando também através das novas tecnologias a sua forma de performance.

Há anos que lutam por um estatuto igual ao das outras profissões, o tão falado
estatuto do trabalhador da cultura, e nesta pandemia muitos têm sobrevivido graças à boa vontade de amigos, pois ao nível de apoio social ainda estão à espera da aprovação legal desse mesmo estatuto para que possam aceder às medidas de proteção social comuns a todos os portugueses.

O número de vítimas de desemprego que esta pandemia está a fazer estende-se
a todos os sectores, mas pelo que vou vendo, serão o comércio e os serviços que serão mais afetados, pelo que se vislumbra nos próximos anos um quadro negro para estes sectores, sendo que quase de certeza muitos irão fechar portas.

Esperemos que este desconfinamento faseado aconteça e que todos contribuam para amenizar estas consequências da pandemia (que só veio agudizar a crise económica que já se fazia sentir antes da mesma). Crise económica e desemprego são sinónimos de pobreza. E o grave problema para toda a
população portuguesa é mesmo esse: pobreza e fome.

Num país em que a justiça e equidade sociais são sempre uma bandeira política, mas cuja realidade não é bem assim (o que se assiste de há umas décadas a esta parte e que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres – não muito diferente dos tempos em que a democracia era uma miragem).

Em Portugal antes da pandemia já existiam um quinto das crianças portuguesas em risco de pobreza (dados Eurostat 2018), o número de sem abrigo aumentou em Portugal 157% – 2º lugar ao nível europeu (dados OCDE 2018) e o número de famílias endividadas subiu para 63,4% (2019). É fácil percecionar que a situação para a maioria das famílias seja muito pior neste momento e que, em alguns casos, já estejam no limiar da pobreza.

Pessoalmente, incomoda-me sempre saber que determinada família está a passar fome (principalmente se existem crianças no agregado). Para variar, será ao comum do cidadão que serão pedidos sacrifícios para atenuar a crise. No entanto, enquanto elementos de uma comunidade também podemos atenuar um bocadinho esta má fase (se tivermos meios para isso e seja da nossa vontade) através da ajuda que poderão dar ao vosso vizinho, ao vosso amigo ou a alguém da vossa comunidade.

Termino com Martin Luther King: “Enquanto houver pobreza no mundo, nenhum homem poderá ser totalmente rico mesmo se tiver um bilião de dólares. Toda vida é interligada, estamos presos em uma inevitável rede de reciprocidade, amarrados em um único fio do destino, o que afeta diretamente a um, afeta indiretamente a todos.”

Catarina Vaz | Professora

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