Mundo

“Terramoto político” no Kosovo dá vitória histórica à esquerda nacionalista

Pela primeira vez desde a declaração de independência, um partido ultrapassou a barreira dos 40% e tem o caminho aberto para formar um governo estável, apesar de necessitar de um parceiro de coligação. Partidos que governaram o Kosovo nos últimos 20 anos castigados nas urnas, com o Vetevendosje a pôr normalização das relações com a Sérvia em segundo plano.

Os eleitores kosovares escolheram a mudança nas eleições legislativas de domingo, dando uma vitória esmagadora ao partido Vetevendosje, nacionalista de esquerda, que conseguiu 48% dos votos (quando estão contabilizados 99% dos boletins) e tem caminho aberto para formar governo, apesar de necessitar de encontrar um parceiro de coligação que permita pôr fim à instabilidade política que dura desde que o Kosovo declarou independência da Sérvia em 2008.

Numa campanha eleitoral muito marcada pela crise económica e social, num país em que metade da população de 1,8 milhões de pessoas tem menos de 30 anos e 55% dos jovens estão no desemprego, Albin Kurti, de 45 anos, conquistou o apoio dos jovens e guiou o Vetevendosje para um resultado histórico, conseguindo com que, pela primeira vez desde a independência, um partido ultrapassasse a fasquia dos 40% no Kosovo.

“Ficou claro que estas eleições eram um referendo. E nós ganhámos este referendo pela justiça e pelos empregos, contra a captura do Estado e a corrupção”, afirmou Albin Kurti perante os seus apoiantes, salientando as duas principais bandeiras da sua campanha eleitoral. “Esta grande vitória é uma oportunidade para começarmos a mudança que queremos”, salientou o líder do Vetevendosje (cujo nome se traduz por autodeterminação).

Além de sublinhar a “eloquência, educação e juventude” de Albin Kurti, Visar Xhambazi, analista político do think tank Democracy for Development (D4D), com sede em Pristina, considera que o sucesso eleitoral do Vetevendosje deve-se ao cansaço da população em relação à classe política, maioritariamente dominada por ex-guerrilheiros da luta pela independência, que governou o Kosovo nos últimos 20 anos.

“Problemas como o desemprego, a corrupção e o nepotismo acumulavam-se há vários anos e os partidos só se preocupavam em disputar cargos. As pessoas fartaram-se”, sublinhou Visar Xhambazi.

Após a divulgação dos resultados provisórios, enfrentando temperaturas negativas, milhares de pessoas saíram às ruas de Pristina para celebrar a vitória do Vetevendosje, um sinal de optimismo num país que nos últimos 14 anos foi a votos seis vezes e que, desde a sua independência, ainda não viu um governo conseguir terminar um mandato de quatro anos.

“Este é, sem dúvida, um terramoto político”, afirmou ao Politico o analista Agon Maliqi. “Põe uma grande responsabilidade sobre o novo Governo. As expectativas são extremamente elevadas, uma vez que grande parte dos votos é anti-sistema. As pessoas estão zangadas, e, se não forem bem tratadas, pode haver um esvaziamento do optimismo no país”, alertou.

A vitória esmagadora do Vetevendosje aconteceu à custa da queda dos dois partidos que têm governado o Kosovo nos últimos anos: o conservador Partido Democrático do Kosovo (PDK) que se ficou pelos 17%, e a Liga Democrática do Kosovo (LDK), de centro-direita, que não foi além dos 13%.

Contudo, apesar da vitória expressiva, o Vetevendosje ficou aquém dos 61 deputados (num Parlamento com 120 lugares) necessários para formar uma maioria, pelo que terá de encontrar um parceiro para formar governo.

Albin Kurti já fez saber que não conta nem com a LDK nem com o PDK – que pela primeira vez desde a independência podem ficar ambos fora do executivo – e a solução poderá passar por um acordo com os partidos étnicos (no Kosovo, dez assentos parlamentares estão destinados à minoria sérvia e outros dez a outras minorias) ou com a Aliança para o Futuro do Kosovo (AAK), do ex-primeiro-ministro Ramush Haradinaj, que conseguiu 7% dos votos.

O mau resultado da LDK – passou de 24,5% nas legislativas de Outubro de 2019 para 13% – indicia um castigo imposto pelo eleitorado, que responsabilizou o partido pela instabilidade que se seguiu após a moção de censura que levou à queda do Governo de Albin Kurti, que apenas esteve 50 dias no poder, e agora vê-se com uma legitimidade reforçada para formar um novo executivo, mais estável, tendo praticamente duplicado a sua votação nas últimas legislativas, quando obteve 25,5%.

A promessa do primeiro-ministro em funções, Avdullah Hoti, da LDK, em garantir que a Sérvia reconheceria a independência do Kosovo até final do ano não entusiasmou o eleitorado kosovar, que não ficou convencido com a assinatura, em Setembro do ano passado, nos Estados Unidos, de acordos económicos entre Hoti e o Presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, no que foi encarado sobretudo como um jogada de Donald Trump para aparecer na fotografia ao lado dos líderes da Sérvia e do Kosovo.

Albin Kurti, por seu turno, tem defendido que, ao contrário do combate à corrupção e da criação de emprego, a normalização das relações diplomáticas com a Sérvia não é uma prioridade. No entanto, Visar Xhambazi faz notar que “nenhum governo ou primeiro-ministro pode evitar o diálogo entre Kosovo e Sérvia”.

“Apesar dos comentários de Albin Kurti, este processo é crucial para consolidar a legitimidade internacional do Kosovo e não pode ser evitado”, afirmou o analista do D4D. “Além disso, ambos os países, Kosovo e Sérvia, estão empenhados em resolver o conflito pacificamente e ambos afirmaram que o seu futuro passa pela União Europeia”, sublinhou Visar Xhambazi, antevendo “mudanças no diálogo” entre Pristina e Belgrado, mas não um “aumento de tensões que possam intensificar-se no futuro”.

Desde que declarou a sua independência em 2008, o Kosovo foi reconhecido por cem países, e a normalização das relações com a Sérvia é vista como essencial para que o pequeno país possa entrar em organizações internacionais como as Nações Unidas (onde enfrenta o bloqueio da Rússia e da China), a NATO ou a União Europeia (a que a Sérvia também ambiciona aderir).

Após o anúncio da vitória do Vetevendosje, o alto-representante da União Europeia para a Política Externa e de Segurança, Josep Borrell, e comissário europeu para a Vizinhança e Alargamento, Olivér Várhelyi, manifestaram disponibilidade para colaborar com o futuro executivo. No entanto, sublinharam que a normalização das relações com a Sérvia é fundamental.

“O caminho europeu do Kosovo passa por uma normalização abrangente das relações com a Sérvia, e a UE espera que as novas autoridades em Pristina possam cooperar de maneira construtiva com vista a continuar as reuniões do diálogo facilitado pela UE”, lê-se no comunicado assinado por Borrell e Várhelyi.

Fonte: Público

Mostrar mais

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to top button
Close
Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker