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Opinião – A verdade da mentira ou as “férias de inverno” dos professores

Se as escolas tivessem realmente autonomia e orçamento adequado, provavelmente (isto na minha modesta opinião), teriam feito testes a toda a comunidade educativa no início do ano letivo e periodicamente, teriam livremente acionado o plano de ensino misto, bem como poderiam ter atrasado uma semana o início do segundo período, evitando assim o caos a que chegámos.

Opinião – Em Meu Nome: A verdade da mentira ou as “férias de inverno” dos professores.

Confesso que me sinto lisonjeada por o governo deste país me ter dado, após vintena e meia de serviço e pela primeira vez, umas “férias de inverno”. Pena que devido à conjetura pandémica não possa ir fazer ski ou outro desporto de inverno para uma qualquer estância turística nos alpes suíços, pois tenho de gastar o salário milionário que o mesmo governo me paga mensalmente! Claro que já perceberam que estou a ser irónica!

Depois de nas escolas, durante o primeiro confinamento, se ter feito um trabalho hercúleo e no início deste ano letivo terem sido preparados minuciosamente (como só os professores o sabem fazer) todos os cenários possíveis (algo que está comprovado que os nossos governantes não fizeram nem tiveram em conta o que estava já feito), somos postos todos em casa de férias. Motivo? Simples, o famoso plano digital e a entrega dos computadores às escolas em setembro ou durante o primeiro período escolar deste ano letivo não foram cumpridos, pelo que o ensino online não poderia ser uma realidade.

Talvez se viva numa realidade virtual… Aproveitando que a maioria das escolas já funcionam por semestres e que iriam fazer uma pausa para proceder às avaliações semestrais, “forçaram-se” estas férias ou como agora é moda dizer, pausa letiva! Boa Mike! Se as escolas tivessem realmente autonomia e orçamento adequado, provavelmente (isto na minha modesta opinião), teriam feito testes a toda a comunidade educativa no início do ano letivo e periodicamente, teriam livremente acionado o plano de ensino misto, bem como poderiam ter atrasado uma semana o início do segundo período, evitando assim o caos a que chegámos.

Mas a autonomia das escolas é uma falácia! Resultado da falta de planeamento e da falta de autonomia das escolas: alunos em casa com poucas atividades ou nenhumas; pais à beira de um ataque de nervos pois não sabem o que fazer aos seus educandos; crianças cada vez com mais hábitos aditivos em relação ao jogo online (estamos a criar uma verdadeira geração de viciados em jogos e de inadaptados socialmente); e as aulas irão esticar-se até ao meio de julho.  Como professora ainda não parei de trabalhar, apesar das ditas “férias”.

Provavelmente, ainda irei ouvir dizer que estive de férias, de papo para o ar, sem fazer nada! Iremos voltar ao ensino online não sei por quanto tempo (talvez até ao final do ano letivo…). É diferente sim, mas não me venham com a treta que os alunos não aprendem nada com ele pois, baseada na minha experiência, quem não adquire conhecimentos online também não o faz presencialmente (podemos enumerar milhentos fatores para isto…). E não se convençam os alunos que vão tirar boas notas (como aconteceu no terceiro período do ano letivo anterior), pois agora as normas já serão mais realistas e mais adequadas (valha-nos a experiência…).

Mais uma vez os pais/encarregados de educação vão ser uma peça fundamental neste tipo de ensino. No entanto, e se que querem o meu conselho, responsabilizem os vossos educandos, supervisionem o cumprimento dos horários e dos prazos de entrega dos trabalhos, mas dêem-lhes autonomia (não lhes façam os trabalhos e não os enviem por eles, pois não estão a contribuir para o amadurecimento nem para a criação de hábitos de trabalho).

Nunca fui apologista do “vai ficar tudo bem”, pois realisticamente sempre soube que nada vai ser igual e que o “ficar tudo bem” iria depender de todos nós, do cumprimento das regras e da forma como isto nos afetaria individualmente e coletivamente.

O que irá acontecer a cada um de nós depende da consciência que tenhamos do que realmente está a acontecer e do que realmente podemos fazer para não contribuir para a disseminação deste vírus. Numa época em que a fé, mais do que que nunca, é o que nos salva e o que nos dá alento para mais um dia (seja essa crença neste ou naquele deus, neste ou naquele santo), há outra coisa que é muito importante: a solidariedade.

Sejamos solidários uns com os outros, pois nem todos temos a mesma estrutura mental para aguentar o isolamento (seja ele voluntário ou profilático) nem temos a mesma condição física para fazer face à pandemia. Deixemos de lado as diferenças, sejam elas políticas, raciais ou outras quaisquer, para sermos mais comunidade e menos “umbigo”: só juntos e unidos conseguiremos ultrapassar esta má fase.

“Sozinhos vamos mais rápido, juntos vamos mais longe” (autor desconhecido).

Catarina Vaz – Professora

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