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Marcelo ganha e consolida resultado, Ventura afirma-se e esquerda afoga-se

Ana Gomes assegurou segundo lugar por 1%, Marisa Matias desaparece e João Ferreira ultrapassou Edgar Silva. O terramoto Ventura anuncia a reconfiguração da direita.

Sem surpresa, Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito Presidente da República, com 60,70%, e conseguiu mesmo subir significativamente, em cerca de oito pontos percentuais, a percentagem de votos com que foi eleito para o primeiro mandato em 2016, quando obteve 52%. E até teve mais votos do que então, mais de 2.500.000 agora, contra 2.411.925 votos então. Marcelo Rebelo de Sousa ganha assim força política para o exercício do seu segundo mandato em Belém e para fazer o devido contraponto presidencial ao primeiro-ministro, António Costa, e ao seu Governo.

Marcelo Rebelo de Sousa subiu significativamente a sua percentagem de votos em relação à primeira eleição e acabou por não ser prejudicado e obrigado a ir a uma segunda volta eleitoral pelo crescimento da abstenção, que se temia galopante, por causa do receio dos eleitores em irem às suas secções de voto por causa do risco de contágio com covid-19.

A abstenção fixou-se nos 60%. Isto quando, há cinco anos, na primeira eleição de Marcelo, foi de 51,34% e, em 2011, quando Cavaco Silva foi eleito pela segunda vez, a abstenção atingiu o máximo até hoje, 53, 48%. Além disso, o universo de eleitores aumentou, em relação há cinco anos, pelo facto de, entretanto, terem sido incluídos no universo eleitoral todos os portugueses residentes no estrangeiro que têm cartão de cidadão, o que aumentou a abstenção técnica, uma vez que há mais cerca de um milhão de eleitores.

Ana Gomes atingiu o seu propósito, ficar em segundo lugar, ainda que apenas com 12,97%, e apenas com uma diferença de um ponto percentual à frente de André Ventura. Ana Gomes falhou, deste modo, o objectivo de obrigar Marcelo Rebelo de Sousa a disputar consigo uma segunda volta, bem como o de ficar à frente de André Ventura com significativa distância eleitoral.

O resultado de Ana Gomes poderá ainda trazer ondas de choque dentro do PS. Por um lado, porque a direcção dos socialistas não a apoiou, uma vez que não deu indicação de voto. O que permitiu que vários dirigentes e personalidade do PS tenham apoiado Marcelo Rebelo de Sousa.

Mas a candidatura e a votação que Ana Gomes obteve pode ter consequências na vida interna do PS. Ana Gomes não só foi apoiada pelo ministro das Infra-estruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, como ela mesma declarou na quinta-feira, que para líder do PS no futuro apoiava Pedro Nuno Santos, o líder da ala esquerda do PS. Este resultado eleitoral acaba, deste modo, por servir a Pedro Nuno Santos e pode criar tensão interna no PS.

Apesar de ser o terceiro classificado no resultado das presidenciais, André Ventura é um dos vencedores da noite ao atingir os 11,90 % e entrar assim na casa dos dois dígitos. Além disso, ficou atrás de Ana Gomes por uma diferença de um ponto percentual, e conseguiu o segundo lugar em vários distritos. Isto quando, nas legislativas de 2019, o seu partido, o Chega, conseguiu 1,29% dos votos. O resultado de André Ventura é, desta forma, muito positivo para o candidato que conseguiu o objectivo de se afirmar e de aumentar a sua visibilidade e o seu espaço político, para se posicionar para as próximas legislativas. Mas não atingiu o objectivo assumido de ficar à frente de Ana Gomes, tendo mesmo inicialmente admitido que, se tal não acontecesse que se demitia da presidência do partido.

Por outro lado, o resultado atingido por André Ventura deverá ter consequências na reconfiguração da direita parlamentar, que se torna agora evidente. A sua prestação eleitoral aumenta o peso do Chega nas análises de previsão das próximas legislativas. E cresce, assim, a pressão do Chega sobre o PSD e o CDS, partidos que apoiaram o Presidente reeleito, mas cujas direcções não podem sair tranquilas desta noite eleitoral. Mesmo que na divisão entre esquerda e direita, nestas presidenciais, a última tenha maioria de votos.

Em quarto lugar, ficou João Ferreira que obteve 4,32 %, o que é um dos piores resultados do PCP em presidenciais, ficando ligeiramente acima dos 3,95% obtidos por Edgar Silva, o candidato do PCP há cinco anos. O facto de João Ferreira ter ficado à frente de Marisa Matias pode representar para o PCP um suplemento de ânimo político e criar uma dinâmica partidária que pode ser significativa para as eleições autárquicas previstas para 3 de Outubro. Embora os partidos à esquerda do PS saiam os dois claramente derrotados desta eleição.

Em quinto lugar, Marisa Matias com os seus 3,95 % de votos perdeu em relação às presidenciais de cinco anos, quando teve 10,12%. É mesmo uma das maiores derrotadas destas presidenciais, pela queda eleitoral que sofreu. Este resultado pode macular o seu futuro político como dirigente do BE e como personalidade que pode vir a substituir Catarina Martins na liderança do partido. Mas não é credível que este baixo resultado se venha a reflectir no BE em próximas legislativas.

Tiago Mayan Gonçalves ficou no sexto lugar, mas não é propriamente um perdedor. Assumindo-se como estreante na política e dando a cara pelo seu partido, a Iniciativa Liberal, Tiago Mayan Gonçalves conseguiu consolidar e aumentar o eleitorado deste partido ao duplicar agora para 3,22 %, os 1,29% das legislativas.

Em último lugar, com 2,94 %, Vitorino Silva é o sexto classificado, obtendo um resultado percentual mais baixo do que obteve há cinco anos, na sua primeira candidatura a Presidente da República, quando atingiu os 3,28% que representaram um total de 152.094 votos.

Fonte: Público

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