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Há cada vez mais infectados dos 13 aos 24 anos — e muito se deve ao regresso às aulas

Os dados não mentem: durante o período de férias escolares os contágios diminuíram e no regresso às aulas voltou a haver um aumento entre os jovens dos 13 aos 24 anos. São agora o grupo com maior taxa de incidência da covid-19, mas o matemático Carlos Antunes descarta que sejam eles o “motor da terceira vaga”.

Os dados mais recentes da pandemia mostram que a taxa de incidência de contágio nos jovens está a aumentar significativamente desde o período de regresso às aulas, no início de Janeiro — o que deve ser resolvido o quanto antes. No entender de Carlos Antunes, matemático, docente e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que desenhou um modelo matemático que procura explicar e “prever” a curto e a médio prazo a evolução da pandemia em Portugal, o encerramento das escolas deve ser uma prioridade para conter os casos.

Para chegar a esta conclusão, o matemático seleccionou alguns indicadores e correlacionou-os entre si, separando as informações por seis faixa etárias — dos 0 aos 5 anos (pré-escolar), dos 5 aos 12 (primeiro e segundo ciclo), dos 13 aos 17 (terceiro ciclo e universitário), dos 18 aos 24 (maior parte da comunidade universitária), dos 25 aos 65 (população activa) e a população com mais de 66 anos (população não-activa).

“O que esta análise veio revelar é que, na primeira vaga, os grupos com maior incidência eram os da população com mais de 66 anos e população activa. Essa análise estava de acordo com a informação que tínhamos na altura: a população mais velha era mais susceptível ao vírus” e a “população activa” continuava a circular durante os meses do primeiro confinamento, altura em que a maioria dos jovens passou a ter aulas à distância.

Mas isso mudou ao longo dos últimos meses: “Enquanto na primeira vaga os grupos dos 13 aos 17 anos e dos 18 aos 24 anos tinham uma incidência relativamente baixa, a partir de Maio o grupo com idades entre os 18 e os 24 destaca-se, começa a ser o grupo com maior incidência. Na prática, isto significa que é o grupo com maior percentagem de pessoas infectadas” de entre todos os grupos, indica o professor.

“Na segunda e na terceira vaga, o que estamos a observar é que o grupo entre os 18 e os 24 anos tem sido sempre o grupo com maior incidência, nunca deixou o ‘pódio’ e o grupo dos 13 aos 17 começou a ter uma taxa de incidência equivalente à da população activa”, saltando para o segundo lugar — ainda que antes, na primeira vaga, ocupasse o terceiro.

Desde que as aulas começaram, nos dias 5 e 6 de Janeiro, o grupo dos 13 aos 17 anos apresenta uma taxa de incidência maior do que a dos mais velhos e continua a subir exponencialmente, tal como a dos 18 aos 24. “A isto podemos associar a influência da actividade escolar, com os alunos a terem mais contacto entre si e, por isso, maior contágio entre eles”.

“No entanto, não indicia que são eles o motor desta terceira vaga. Apenas conseguimos dizer que este grupo está a ter maior incidência, o que, em termos relativos, significa que a infecção está a aumentar muito mais do que nos outros grupos”, indica.

Carlos Antunes reforça ainda que, durante a pausa lectiva do Natal, o grupo dos 13 aos 17 anos passou a ter uma incidência acumulada inferior ao grupo dos idosos, mas que, já em Janeiro, inverteu-se esta trajectória. “A abertura das escolas potenciou o aumento da incidência de infecção dentro deste grupo”, conclui. “Por isso, o melhor era fechar as escolas. O gráfico mostra que, quando as escolas estão encerradas, existe uma menor taxa de incidência”.

E esta não deve ser a única medida a adoptar: “Neste panorama precisamos de sete a oito semanas” para se reverterem os números até aos níveis verificados no Natal. “E se quisermos chegar mais depressa a estes valores precisamos de medidas mais apertadas”, alerta. “Vamos imaginar que agora conseguimos metade do que conseguimos em Março, imaginado uma desaceleração mais lenta e prolongando mais no tempo a vaga: isso dá-nos um cenário muito mau, onde ultrapassaremos os 17 ou 18 mil casos e o pico, em vez de ser no final deste mês, será no final de Fevereiro”.

“Na minha perspectiva, para aliviarmos os hospitais e baixarmos a mortalidade, tínhamos de reduzir a incidência rapidamente, nas próximas duas semanas, [passar] dos dez mil casos para os três mil. E isso é possível. Nós vimos a Irlanda, a Áustria, a Holanda com um confinamento global e integral, com apenas os serviços mínimos e com um aumento a capacidade de testagem, a consegui-lo”, afirma. Por isso, Carlos Antunes defende que um fecho integral é muito mais benéfico para a economia do que medidas menos apertadas.

No entanto, o clima é ainda muito incerto e o pico da terceira vaga pode ainda estar muito longe: “Eu não sei onde isto vai parar e nem sei se alguém sabe. Poderá ser pior do que eu prevejo ou até poderá ser melhor, mas não há ainda indicadores [que permitam dizer] quando Portugal irá atingir o pico. Não sabemos se estamos sequer próximos de um pico e isso é muito grave”.

Fonte: Público

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