Opinião

“Em meu nome” – Opinião: Perdemos todos a cabeça ou a liberdade?

A professora Catarina Vaz neste seu artigo de opinião diz que "Os últimos dois meses não têm sido nada fáceis (tal como o resto do ano que já passou), mas há situações que têm sido agravadas e dificultadas por todos nós, ou melhor, o facilitismo e a ligeireza com que temos encarado as regras e as normas impostas nesta pandemia tem impedido que a situação melhore. Mas a culpa não é única e exclusivamente do mero cidadão."

A existência de dois pesos e medidas nas autorizações concedidas pelo governo na realização de eventos que favorecem este ou aquele segmento da população também baralham ainda mais este cenário e, na minha modesta opinião, criam sentimentos de revolta, de impunidade e de uma falsa imunidade.

Há muitos anos que os sucessivos governos deste país (e aqui nem estou a falar deste ou daquele partido: estou a falar de todos!) pedem aos cidadãos sacrifícios pessoais, financeiros e comunitários, mas depois o que se vê e o que se prova é que os mesmos têm sempre exceções para eles próprios e para os seus “amigos”, consoante interesses que, na maioria das vezes, não são os da maioria da população que os elegeu democraticamente para a representar.

São sobejamente conhecidos estes (maus) exemplos de haver dois pesos e duas medidas, vejamos só os casos tão badalados da Festa do Avante, do casamento em Arruda dos Vinhos com 200 pessoas, do grande prémio da Fórmula 1 em
Portimão, das festas particulares em hotéis de Lisboa ou em resorts de praia, a multidão que se acumula para ver as ondas gigantes na Nazaré, etc…etc.!

 

O “faz o que digo, não faças o que eu faço” tem sido um dos fatores mais desestabilizador do cumprimento das regras, associado ao “só acontece aos outros”!

Sempre ouvi dizer que o exemplo vem de cima, mas se quem nos lidera não cumpre ou abre exceções para este e aquele, como querem que os restantes
compreendam e respeitem as regras?! Agora que muitas mais famílias começam a sentir na pele a existência de casos positivos (e apesar das estatísticas valerem o que valem… os casos estão a aumentar substancialmente) está-se a entrar em pânico e começa-se a assistir à loucura total… aqueles que criticavam quem estava de máscara em locais públicos e até gozavam com a situação, acham-se no direito de insultar quem está na via pública sem a famigerada máscara no rosto.

Esses mesmos que colocam a máscara, mas continuam a ter o nariz de fora… Pois!!!!

O futuro afigura-se-me um pouco negro, mas está na altura de aplicarmos a máxima “a minha liberdade termina aonde a do outro começa”!!!!! Por falar em
liberdade, o que dizer de Samuel Paty, professor francês e laico, decapitado por um fundamentalista islâmico por defender a livre discussão de ideias e ajudar e ensinar os alunos a refletir sobre o mundo? Vejo esta situação como um exemplo de alguém que perdeu a cabeça em nome de um bem maior: a liberdade!

Liberdade de pensar, de falar, de discutir, de construir um mundo assente na razão e na livre reflexão. Temos de chorar este e outros que em nome da tão apregoada liberdade de expressão vão morrendo às mãos de loucos (todo o
fundamentalismo é uma forma de loucura).

Mas há muito que eu considero que, não de uma forma tão horrenda, os professores em particular e a os cidadãos em geral têm perdido a margem de manobra (e às vezes a cabeça literalmente) no que concerne a ensinar e a praticar a livre discussão e a reflexão (são disso exemplo as sucessivas alterações à lei de Bases Educativas e aos programas curriculares das disciplinas).

No meu ponto de vista, não convém ao poder instalado que as gerações vindouras sejam muito letradas nem muito independentes relativamente ao pensamento reflexivo, pois quanto mais ignorantes as pessoas, mais fáceis
são de manipular (e hoje há pessoas com muita escolaridade, mas cuja cultura geral e até escolar deixa muito a desejar…).

Também eu ia perdendo a cabeça com o isolamento profilático que fui obrigada a cumprir por ter aparecido um caso positivo de contacto muito próximo no meu local de trabalho. Não gostando muito de expor a minha vida pessoal (gosto de opinar baseado na minha experiência, mas não gosto de particularizar muito), vou-vos contar a minha experiência com o Covid-19. Esta é a segunda vez que me encontro em isolamento: da primeira fi-lo por autorrecriação pois nunca fui contactada por ninguém.

Passo a explicar: em março de 2020, numa das instituições em que trabalho, um dos voluntários foi a Madrid e contraiu o vírus, tendo acusado no teste positivo. O mesmo avisou quem teve contacto de proximidade com ele. Eu, que já me encontrava em casa em teletrabalho, fiquei, por auto-iniciativa, em isolamento durante os 14 dias que devia. Nunca fui contactada por ninguém de nenhuma das entidades que o deveria ter feito.

Nesta segunda vez, os procedimentos até foram agilizados (talvez por trabalhar num local público ou por já existir alguma polémica com os procedimentos anteriores para as mesmas situações). Assim, depois de vir para casa, fui contactada no dia seguinte pela delegada de saúde local que reiterou que
devia ficar em casa e fazer o teste.

Recebi 48 horas depois uma SMS com os códigos para ir efetuar o mesmo (isto a um domingo). Levantei-me muito cedo no dia seguinte e comecei às 7:30 horas a telefonar para todos os laboratórios de recolha de análises para fazer a marcação e lá consegui ser atendida (estive em linha 45 minutos a aguardar a minha vez, tendo perdido a chamada uma vez e 12 lugares no atendimento…). Consegui vaga para esse dia. Desloquei-me a Santarém e fiz o teste. Doeu-me e caíram-me as lágrimas pelo rosto. Recebi o resultado 33 horas depois.

Felizmente, negativo! Mas poderia não ser… Neste tempo, cumpri com todas as
diretivas e só sai de casa para ir fazer o teste. Temos de ser responsáveis e cumprir! Apesar de ter consciência de que mais cedo ou mais tarde também passaria pelo teste, sempre achei que se apelasse ao bom senso dos meus alunos e dos seus encarregados de educação e se todos cumpríssemos com as regras, todos poderíamos estar salvaguardados. Mas não foi isso que
aconteceu… Espero que não exista uma terceira vez!

Também me parece que aqui, na santa terrinha, há pessoas que perderam a cabeça no fim-de-semana (mesmo antes de sermos colocados em estado de emergência e podendo ainda circular livremente): continuam a não cumprir as regras (continuam os ajuntamentos às portas e dentro dos cafés; usam a máscara quase como um cachecol, ou seja, com o nariz de fora e no queixo; etc… etc), mas vão fazer filas para os hipermercados quase uma hora antes da sua abertura e deixam as prateleiras vazias!!!! Já gastaram o papel higiénico que compraram no outro confinamento?!

Não quero terminar aqui sem referir que quem também está a perder a cabeça são os inúmeros utentes de outras valências da saúde, cujas consultas ou tratamentos muito urgentes têm sido adiados para datas que “não lembram nem ao diabo”! Por causa da pandemia ou apesar dela, fica a pergunta… Por causa da má gerência política que se tem feito de setores tão importantes e vitais como a saúde, forças de segurança e educação, assiste-se à falta de recursos humanos: faltam enfermeiros, polícias, professores… já ninguém quer abraçar estas profissões. Para quê?! São mal pagos, não são reconhecidos e ainda são vítimas de agressões…

Há que repensar tudo isto, há que virar os ventos que auguram um futuro também negro nestas profissões! Para terminar uma nota de esperança: cumpram com todas as regras para que a liberdade que agora é só um nome e se encontra suspensa, seja uma realidade num futuro próximo!

Bertold Brecht resume no poema “De que serve a bondade” aquilo que eu sinto neste momento:
“De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

Catarina Vaz – Professora

 

Mostrar mais

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to top button
Close
Close