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“Em meu nome” – Opinião de Catarina Vaz sobre um ano letivo atípico

Neste artigo de opinião procuro avaliar um ano letivo atípico e a exaustão da comunidade educativa. Os efeitos que a pandemia da Covid-19 trouxe às escolas portuguesas.

Terminou a 26 de junho de 2020 mais um ano letivo para os alunos. Este que foi sem qualquer dúvida, nos meus 26 anos de serviço, o mais longo, trabalhoso, penoso e complexo de todos.

A pandemia do Covid-19 trouxe para as escolas e para todos os seus níveis de ensino uma alteração do paradigma educacional e da forma de ensino, que se pode dizer que foi de oito a oitenta!

Para quem conhece a realidade educativa (que não é aquela das estatísticas do Ministério da Educação e Ciência nem dos relatórios PISA nem da que os órgãos de comunicação social veiculam) sabe que as práticas educacionais estão muito longe da era da tecnologia (em grande parte por culpa das estruturas governativas), pois não existem nem recursos físicos nem materiais para colocar em prática novas teorias e novas práticas.

Quem é educador ou professor sabe do que falo: não há computadores operacionais – a maior parte está velho, estragado ou a quantidade dos que estão em bom estado nem dá para colocar meia turma a trabalhar em contexto de sala de aula.

A pandemia da Covid-19 transformou a educação num inferno para alunos e professores
Foto: D.R

Acresce a esta falta de material informático a falta de formação dos profissionais em plataformas digitais e a idade já avançada da maioria dos professores. E se formos pensar bem no assunto, de que vale andar a fazer formação em horário pós-laboral se depois, muito por falta dos computadores ou tablets, não se pode pôr em prática o que se andou a aprender?!!! Pois…

E, de repente, foi pedido a todos os professores que dominassem plataformas digitais e outras tecnologias! E os professores fizeram isso de um dia para o outro e fizeram muito mais, demonstrando que são profissionais competentes, desenrascados e que pensam sobretudo nos seus alunos e nas suas famílias, mostrando um grande respeito por estes últimos – respeito que não tem sido recíproco.

O final do 2º período letivo em termos presenciais aconteceu a 13 de março. Desde esse dia até ao dia de hoje a grande maioria dos professores deixaram de ter vida própria para viverem em função do ensino à distância e das necessidades dos seus alunos/encarregados de educação e estruturas educativas. Na ânsia de não deixar ninguém para trás foi “pedido” á comunidade educativa que se desdobrasse para que o ensino á distância fosse uma realidade.

E os professores fizeram esse milagre acontecer!!! E a primeira recompensa por parte do Ministério da Educação chegou: aumentou mais duas semanas ao 3º período!

O 3º período foi o equivalente a cinco anos letivos! Porque digo isto? Porque a partir de 13 de março, os professores não deixaram de estar ao serviço, não tendo feriados, dias festivos ou fins-de-semana em prol do bem maior que é a Educação. Os professores que o são por vocação não pararam de estar presentes, por via videoconferência ou telefonemas, na vida dos seus alunos; não pararam de tentar inovar por forma a manter os alunos motivados e “presentes” numa realidade virtual que se tornou o nosso ensino; não pararam de tentar que os alunos não vissem este modo de aulas como uma “brincadeira” (situação que aconteceu em alguns casos pontuais).

Pediu-se também aos encarregados de educação que fizessem o sacrifício de se tornarem explicadores, professores e educadores – muitos deles com baixa escolaridade, outros com empregos que não lhe permitiam fazer o acompanhamento escolar dos seus educandos e ainda outros que nada percebem dos conteúdos escolares e da forma como são ministrados hoje.

Pediu-se que fizessem o sacrifício de comprarem material informático para que os alunos pudessem assistir às aulas síncronas – muitos deles com baixos rendimentos e sem qualquer forma de adquirirem esse material. As escolas, na sua maioria também não tinham material informático para emprestar, pois também não o têm!

Pediu-se aos professores que elaborassem material para que os alunos que não tinham acesso à internet pudessem continuar a sua formação escolar em casa. Mais uma vez os professores fizeram o que tinham a fazer, tentando enviar tarefas que fossem exequíveis e, na sua maioria, diferentes e motivadoras. Este trabalho compensou?

Penso que não, pois na sua maioria os alunos nem entregaram o seu portfolio com metade dos trabalhos feitos!!!!!

Pediu-se a todos os alunos que acompanhassem as aulas (da forma que era possível). E a grande maioria cumpriu! Também os alunos fizeram o seu papel: aprenderam a mexer em plataformas, a submeter trabalhos a fazer documentos digitais… alguns nem tinham sequer e-mail ou nunca tinham mexido num computador! Mas fizeram-no!

As direções dos agrupamentos de escolas fizeram também o seu melhor para que o terceiro período fosse exequível, mesmo recebendo a toda a hora informações contraditórias de quem nos (des)governa nesta área. Não estiveram sozinhos, pois os professores estiveram sempre ao seu lado, repetindo, atualizando e elaborando todos os documentos que foram exigidos.

Toda a comunidade educativa chegou à exaustão, pois cumpriu o exigido e o não exigido para que todos os alunos tivessem acesso aquilo que é um direito seu: o direito á educação.

Ninguém estava preparado e ninguém supôs que fosse tão intenso ou penoso fazer com que esse direito fosse o de todas as crianças!

Eu só me apercebi que tinha passado o limite da exaustão, quando há cerca de 3 semanas, numa superfície comercial bati num automóvel estacionado sem que o tivesse visto, sentido o toque ou ouvido o barulho – felizmente sem consequências maiores!

Se faria tudo de novo? Sim faria! Doutra forma, agora já temos uma experiência para comparar, melhorar e evitar erros futuros, mas faria tudo de novo.

Quando o governo for avaliar este período letivo, dirá que o ensino à distância foi um sucesso e esquecerá que não é bem assim e que o que foi possível fazer foi graças á boa vontade, trabalho disciplinado e exaustivo dos professores e dos encarregados de educação.

Se me perguntarem a mim, como professora, o balanço que faço, a minha resposta será sempre a mesma: foi o possível, mas deixámos muitos alunos para trás! As assimetrias entre alunos ficaram maiores, o fosso entre os bons alunos e os maus alunos está muito maior! Foi um período atípico, mas tenho três certezas:

– a maioria dos encarregados de educação passou a respeitar, a compreender e a dar razão aos professores;

– Nada substitui os professores e a escola em modo presencial;

– o próximo ano letivo vai ser muito mais difícil para a maioria dos alunos, por causa das assimetrias criadas ao nível das aprendizagens.

Se perguntarem aos alunos o que eles aprenderam neste 3º período escolar, a maioria responderá que nada! E se lhes perguntarem o que preferem, eles responderão na sua quase totalidade estar na escola – espaço físico! Alguns até têm saudades dos ralhetes dos professores!!!!

E ainda há a realidade do aumento de situações de maus tratos em crianças que se está a revelar após este período…

Termino desejando que todos possamos descansar e recuperar e voltar a estar na Escola no próximo ano letivo!

Catarina Vaz – Professora

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