Cultura

Morreu o compositor italiano Ennio Morricone

Foi o autor de bandas sonoras para cerca de meio milhar de filmes, entre os quais os famosos western spaghetti de Sergio Leone.

O compositor italiano Ennio Morricone, celebrado autor de bandas sonoras para o cinema, entre elas as de filmes já clássicos como os western spaghetti O Bom, o Mau e o Vilão (1966) e Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone, ou A Missão (1986), de Roland Joffé, e Cinema Paraíso (1988), de Giuseppe Tornatore, morreu na noite deste domingo numa clínica em Roma, onde fora internado há alguns dias na sequência de uma queda em que fracturou o fémur, noticiou a agência ANSA, citada pela Reuters. Tinha 91 anos.

Vencedor de um Óscar, em 2016, pela banda sonora de Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino, que se acrescentou a uma primeira estatueta da Academia de Hollywood, em 2007, pelo conjunto da sua carreira (que lhe valera, de resto, outras cinco nomeações), Ennio Morricone fora distinguido, no passado mês de Junho, em parceria com outro grande compositor de música para cinema, John Williams, com o Prémio Princesa das Astúrias das Artes, o mais recente de uma lista que se aproxima da centena de galardões e que inclui Globos de Ouro, Grammys e BAFTA.

Quando foi convidado por Tarantino para compor a banda sonora para o seu segundo western, depois de Django Libertado (2012), Morricone começou por dizer que não, mas viria a ceder quando assegurou que o realizador americano lhe permitiria fazer “uma ruptura total com o estilo dos westerns” que musicara há meio século, recorda a Reuters.

De facto, foi na década de 1960, e em especial com os filmes de Sergio Leone – a trilogia Por Um Punhado de Dólares (1964), Por Mais Alguns Dólares (1965) e O Bom, o Mau e o Vilão (1966), coroada com o operático Aconteceu no Oeste (1968), que Morricone instituiu o imaginário sonoro para o western made in Europa, recuperando para o efeito instrumentos pouco usados, como a harmónica, a ocarina, as trompetes e até formações corais.

A certa altura, o compositor e maestro teve até dificuldade em demarcar-se dos sons que criou para o grande ecrã nessas décadas de 60 e 70. “É uma camisa-de-forças”, disse, lamentando que continuassem a vê-lo sempre como o autor da banda sonora de O Bom, o Mau e o Vilão, ele que na sua filmografia não contava sequer 10% de westerns.

De facto, nas centenas de filmes que musicou encontram-se autores (e géneros) tão diversos como Pasolini (Decameron, 1971; As Mil e Uma Noites, 1974), Damiano Damiani (Processo Arquivado, 1971), ou os irmãos Taviani (Que Viva a Revolução!, 1974); mas também Edward Dmytryk (Barba Azul, 1972), Terence Young (Laços de Sangue, 1979), Brian De Palma (Os Intocáveis, 1987), Pedro Almodóvar (Ata-me, 1989), Barry Levinson (Bugsy, 1991), Wolfgang Peterson (Na Linha de Fogo, 1993), tendo no entanto regressado também a Leone (Era Uma Vez a América, 1984).

Nascido em Roma em 1928, numa Itália dominada pelo Governo fascista de Benito Mussolini, Ennio Morricone começou a estudar música com o seu pai, trompetista em orquestras amadoras. Frequentou depois o Conservatório da capital italiana, onde estudou também trompete, música coral e composição. No final da formação, conseguiu entrar para a prestigiada orquestra da Academia de Santa Cecília.

Antes de chegar ao cinema – onde o seu nome aparece creditado pela primeira vez em 1961, no filme Il Federale, de Luciano Salce –, Morricone fez música para teatro e programas de rádio, tendo composto também canções para músicos da geração pop italiana dos anos 50 e 60. Mas seria o encontro com Leone a marcar definitivamente a sua carreira, ao longo da qual, além dos nomes atrás citados, trabalhou também com Bernardo Bertolucci e Franco Zeffireli, John Huston e John Boorman, Oliver Stone e Roman Polanski. Um dos seus lamentos, confessou um dia – lembra a Reuters –, foi não ter trabalhado com Stanley Kubrick. “Ele chamou-me para o Laranja Mecânica, e eu disse que sim”, recordou em tempos o compositor, que, no entanto, não chegaria a concretizar esse projecto, porque o realizador de De Olhos Bem Fechados e Barry Lyndon não gostava de viajar de avião, e por isso nunca se deslocou a Roma.

Mas, em paralelo com a Sétima Arte, Ennio Morricone foi também um compositor erudito, com uma obra que nunca excluiu quer a experimentação quer a procura de melodias puras. “A música que fez na década de 60 aproximou-o de Luciano Berio ou John Cage – foi sob a égide deste que participou, entre 1964 e 1965, no grupo de improvisação Nouva Consonanza, onde tocou trompete”, escreveu no PÚBLICO o critico Nuno Franco, enunciando que, “nos anos 90, o seu experimentalismo mostra-se mais amansado, já que Morricone inflectiu para a faceta de construtor de grandiosas melodias”. “Para muitos, Morricone é sobretudo a imagem daquilo que, tendo ficado para trás, pode ser fonte luxuriante de incursões nostálgicas”, acrescentava o crítico.

Essa múltipla faceta da carreira do compositor italiano pôde ser verificada em Lisboa em Maio do ano passado, quando Morricone, então já com 90 anos, passou pela Altice Arena com a sua tournée de despedida dos palcos, 60 Years of Music World Tour, iniciada já em 2016 e que terminaria em Junho de 2019 na cidade toscana de Lucca. O espectáculo teve como convidada especial Dulce Pontes, que em 2003 gravara um disco em parceria com o compositor italiano, Focus.

“Poucos compositores são tão populares como o italiano, capaz de criar, apenas com algumas notas, música facilmente reconhecível – o que não significa fácil”, escreveu Vítor Belanciano na apresentação do concerto em Lisboa, lembrando, uma vez mais, que Morricone “foi sempre um compositor de sons pouco habituais, como o assobio na abertura de O Bom, o Mau e o Vilão, e [que] a sua música parece ansiar muitas vezes por qualquer coisa de épico”.

Fonte: Público

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