Ciência

Vai ser criado um cofre para os micróbios da humanidade

O grande objectivo desta “Arca de Noé” é guardar a diversidade microbiana das populações humanas para as próximas gerações.

E se um cofre guardasse a diversidade microbiana da humanidade? É isso que uma rede internacional de cientistas – que inclui investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras – quer fazer. Esta quinta-feira foi divulgado o estudo que comprova a viabilidade da criação dessa “Arca de Noé” dos micróbios da humanidade e propõe que se avance para um projecto-piloto em que seja incluída a instalação de uma infra-estrutura de preservação desses micróbios na Noruega ou na Suíça. O grande objectivo é guardar a diversidade microbiana para as próximas gerações.

Da mesma forma que há um cofre que guarda a maior colecção de diversidade de sementes do mundo – o Cofre-Forte de Sementes Global de Svalbard (na Noruega) –, estão a dar-se os primeiros passos para que o mesmo seja feito para os micróbios. O projecto chama-se “Cofre-Forte da Microbiota” (ou Microbiota Vault) e foi idealizado por Maria Gloria Dominguez-Bello (professora da Universidade de Rutgers, nos EUA) e Martin Blaser (presidente da cátedra Henry Rutgers do Microbioma Humano da Universidade de Rutgers). Nos últimos anos, têm surgido vários estudos sobre a importância da microbiota humana, que é composta por biliões de organismos microscópicos que vivem no nosso corpo.

Tal como se indica num comunicado do IGC sobre o projecto, essas investigações têm-se debruçado sobre o impacto do ambiente, da alimentação e dos antibióticos na perda de diversidade da microbiota e os efeitos dessa perda na saúde humana. “Muitos estudos mostram que a diversidade da microbiota nos humanos é extremamente importante para uma boa nutrição, para a maturação do sistema imunitário e para a defesa contra organismos patogénicos”, afirma Karina Xavier, investigadora do IGC que está envolvida no projecto.

Um dos grandes benefícios da microbiota é conseguir degradar alimentos que temos na nossa dieta. Os micróbios que vivem nos nossos intestinos têm enzimas que conseguem degradar, por exemplo, fibras que estão nas plantas. “Se não tivermos micróbios não conseguimos degradar muitas das fibras que estão nas plantas, mas [por outro lado] se não comermos essas fibras também vamos perder os micróbios, porque vão deixar de ser alimentados. Estamos a observar essa perda de diversidade”, explica a investigadora.

Nas populações das sociedades modernas está a observar-se precisamente essa perda de diversidade microbiana e isso está associado a uma maior susceptibilidade a vários tipos de doenças. Essa diminuição está ligada a uma alimentação com comida mais processada e menos diversa e até a práticas que foram introduzidas que nos trouxeram benefícios e evitam infecções, como medidas de higiene e o consumo de antibióticos. Já as populações latino-americanas ou africanas mais remotas e com práticas tradicionais têm demonstrado ter uma maior diversidade na sua microbiota, devido em parte a dietas naturais ricas em fibras vegetais. Por isso, é importante guardar esses micróbios enquanto ainda existem.

Guardar os micróbios que coexistem com essas populações será crucial, mas, neste momento, o objectivo do projecto é preservar todos os micróbios que coabitam com as populações humanas que se conseguir. Afinal, a ausência de muitos deles pode ter um papel determinante na associação entre a perda de diversidade e uma maior susceptibilidade a certas doenças. “O principal mote do projecto é que devemos guardar esta diversidade [de micróbios] para as próximas gerações”, ressalva Karina Xavier.

Esta quinta-feira foi divulgado o estudo de viabilidade que aconselha precisamente que se faça um cofre em que se possa guardar os micróbios todos que se conseguir recolher e que estejam associados às populações humanas. A instalação que acolherá essa colecção de amostras de micróbios deverá ser construída na Noruega ou na Suíça, porque “são considerados politicamente países neutros” e com infra-estruturas estáveis, refere Karina Xavier. Preparado pela empresa suíça EvalueScience, este estudo foi formalizado durante uma acção de formação organizada pelo IGC em 2019 e, além deste instituto, teve o apoio da Fundação Seerave, da Fundação Gebert Rüf, da Universidade de Rutgers, da Universidade de Kiel (na Alemanha) e a Faculdade de Medicina da Universidade de San Diego (nos EUA).

A ideia é que a colecção não fique apenas nesse cofre, mas que também existam colecções locais nos sítios onde se fizerem recolhas. Depois, as amostras ficam disponíveis para os cientistas que as queiram estudar. “A tal colecção fica congelada e podemos reactivar estes micróbios sempre que quisermos”, refere a investigadora.

Os próximos passos serão a nível político e da interacção com países que tenham populações com uma microbiota mais diversa para que possam assim colaborar com o projecto. Pretende estabelecer-se protocolos de recolha e de colecção local e testar-se a estrutura legal e logística do Cofre-Forte da Microbiota. Também se espera que comecem a ser angariados fundos para o projecto.

Além de contribuir com o conhecimento científico nesta área, por agora o IGC propõe fazer acções de formação a comunidades académicas dos países de língua oficial portuguesa em África e no Brasil sobre a importância da microbiota, de como se pode enriquecer colecções já existentes, bem como se podem fazer colheitas. Um dos potenciais países a que o IGC poderá dar essas formações será o Brasil “pelo facto de ter populações que estão muito isoladas e com estilos de vida tradicionais”, assume Karina Xavier. Este tipo de cursos já está a ser iniciado por membros do projecto em países como o Peru.

No IGC, além de Karina Xavier, está envolvido neste projecto o investigador Luís Teixeira. Ambos têm estudado as implicações da perda da microbiota e tentado identificar espécies específicas que podem explicar os efeitos directos da microbiota no hospedeiro. Também já fizeram cursos sobre o papel da microbiota na simbiose entre micróbios e o seu hospedeiro para alunos de doutoramento de mais de 20 nacionalidades. Entre os professores estiveram precisamente Maria Gloria Dominguez-Bello e Martin Blaser.

Luís Teixeira refere no comunicado que seria trágico se se perdesse grande parte da diversidade da microbiota humana antes de se perceber a sua interacção connosco. E destaca que “é imperativo começar a recolher amostras, pois, conforme as várias populações humanas vão contactando com o modo de vida ocidental, muitas vezes com vantagens para essas populações, a diversidade da sua microbiota decresce”.

Maria Gloria Dominguez-Bello realçou ainda que a actual pandemia de covid-19 pode atrasar os planos do projecto, mas que não os atrapalha. Até porque o avanço deste projecto pode trazer grandes contributos para a saúde humana, como nota: “Preservar a diversidade da microbiota humana ajudará a resolver uma crise global de saúde na qual condições como obesidade, asma e alergias estão a aumentar em todo o mundo, enquanto a nossa diversidade microbiana diminui.”

Fonte: Público

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