Ambiente

Plásticos: e se a reciclagem não estiver a resolver o problema?

Documentário The Story of Plastic estreou nos Estados Unidos a 22 de Abril e chega a Portugal nesta segunda-feira. Alguns associados da Zero já o viram e discutiram-no num debate online.

Chega-nos às mãos sem darmos por isso, utilizámo-lo em inúmeras actividades e tarefas do dia-a-dia sem pensarmos no assunto e, muitos de nós, só reparamos no plástico na altura em que precisamos de nos livrar dele. Seja porque a embalagem do produto de limpeza ficou vazia, seja porque o saco em que transportámos as cenouras se rasgou e já não serve para mais nada ou porque está na hora de trocar de escova de dentes. Nessa altura, há algum alívio na consciência de quem está a utilizar um produto que sabe ser um grande poluente ao enviá-lo para reciclagem. Mas, e se isso não servir para grande coisa? E se a reciclagem não resolver o problema? E se o peso de resolver o problema não estiver, como tem sido incutido na mente de todos, no consumidor?

Estas são algumas perguntas que, quase de certeza, ficarão na cabeça de todos os que assistam a The Story of Plastic. O documentário produzido em 2019, com o apoio da organização não-governamental The Story of Stuff, estreou no Discovery Channel norte-americano a 22 de Abril deste ano e chega a Portugal, naquele canal, nesta segunda-feira. Ao longo de mais de uma hora e meia jornalistas, activistas e ambientalistas que procuram reduzir a utilização de plástico guiam o espectador pela vida deste produto “miraculoso”, através de vários continentes, com uma mensagem subjacente a toda a história: a responsabilidade pelo plástico que invadiu o planeta e que polui solo e água de forma avassaladora tem de ser atribuída a quem o produz. É certo que os produtores não são ouvidos no documentário, aparecendo apenas com intervenções sobre o tema que foram fazendo em diversos programas televisivos ou discursos, mas a mensagem é suficientemente bem estruturada para deixar o espectador a pensar.

Foi isso mesmo que se percebeu do debate online sobre o documentário que a Zero organizou entre os seus associados, depois de ter acesso prévio ao filme, por pertencer à rede Break Free From Plastic. “Gostei imenso. Mostra que estamos perante um problema global e em que medida os países ocidentais são muito responsáveis pelo que se passa no terceiro mundo. E fez-me pensar neste conceito em que eu nunca tinha pensado, algo totalmente novo: a ideia da responsabilidade das empresas. Elas têm de ser responsabilizadas. Deu-me, de facto, uma consciência diferente em relação ao plástico”, disse uma das participantes.

A história do plástico contada pelo documentário resume-se com facilidade: no século XX surgiu um produto novo, vendido como “miraculoso” e facilitador da vida das famílias. Mas descobriu-se rapidamente que a mesma característica que o tornava tão extraordinário – a capacidade de durar para sempre – é aquela que o torna mais perigoso paro o ambiente.

Foi então sendo construída a ideia que o problema não era o plástico em si, mas a forma como lidávamos com ele enquanto resíduo, pelo que a solução seria reciclar. Só que a reciclagem, explica-se, é pouco eficiente com este material e o problema subsiste mesmo quando ela é bem-sucedida. Porque o que é que os países ocidentais faziam com esse plástico reciclado? Enviavam-no para a China, que ficava com o problema nas mãos. Até que a China fechou a porta à recepção desse material e o problema transferiu-se parcialmente para outros países asiáticos.

Junta-se a isto o facto de as mesmas empresas que produzem embalagens de plástico recicláveis para a Europa (como champô), optarem por atulhar o mercado oriental e africano de saquetas individuais para vender o mesmo champô – embalagens de unidoses que são mais baratas, mas impossíveis de reciclar. E que essas mesmas empresas produtoras de plástico são as mesmas que viviam até agora confortavelmente com os lucros do petróleo (99% do plástico existente parte deste material, refere-se no documentário) e estão agora a braços com uma quebra no consumo de gasolina (por causa das restrições crescentes por razões ambientais e uma maior consciencialização do consumidor), pelo que vêem no plástico o seu próximo salvador. Como tal, produzem-no mais, na expectativa de levarem o consumidor a acreditar que não pode viver sem ele.

Este é o resumo da mensagem por trás por documentário que sustenta que, por tudo isto, há uma falácia quando nos apresentam dados como aqueles que dizem que 60% do plástico presente nos oceanos vem de cinco países da Ásia. Isso não é mentira, mas é preciso ter em conta que são as empresas do Ocidente que levam para a Ásia todas aquela saquetas ou os países ocidentais que entregam nesses países os seus resíduos de plástico com que não conseguem lidar. A mensagem passou claramente para mais um dos participantes no debate promovido pela Zero, que referiu que um dos aspectos que mais o marcou no documentário foi essa ideia de que “o problema é global, mas tem uma origem muito forte na parte ocidental do planeta”.

O outro ponto forte em que assenta a mensagem do filme é a contestação ao facto de o peso da resolução do problema estar no consumidor e na sua capacidade ou incapacidade de reciclar. É preciso reduzir o consumo do plástico e reutilizá-lo sempre que possível, porque a reciclagem por si só não vai resolver o problema, diz-se claramente. Aliás, segundo os números ali apresentados, apenas 14% do plástico mundial é reciclado, mas deste, apenas 2% é eficientemente reciclado, o que quer dizer que só esta percentagem é transformada em algo efectivamente melhor.

Uma das participantes no debate da Zero, que acompanha o processo de reciclagem em Portugal desde a criação das entidades gestoras, foi muito clara: “O foco sempre foi na reciclagem e enquanto mantivemos o foco aí, não resolvemos o problema. A dificuldade em reciclar plástico é uma coisa enormérrima. Tens de cortar no consumo e se calhar esta é uma boa altura para criar essa disrupção.” Outra participante, ligada ao processo de tratamento dos plásticos, disse sentir-se exasperada com “o esquecimento” das pessoas. “A reciclagem nunca foi o primeiro ‘R’ dos três [reduzir, reutilizar, reciclar] e foi-nos vendida assim. Foi criado um problema deliberadamente”, disse.

Os responsáveis pelo documentário que daqui a poucas semanas chega a Portugal insistem na necessidade de acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis e de responsabilizar os produtores. A política tem de intervir, através de legislação que aponte para aí. E as pessoas também. Recusando utilizar tanto plástico e identificando claramente as embalagens ou outros bens que, simplesmente, têm de deixar de ser produzidos porque não têm tratamento possível.

O caminho, defendem, tem de ser uma gestão de resíduos zero, em que todo o lixo produzido tenha tratamento e, se possível, possa ser reintroduzido no sistema como um produto novo. E os plásticos que não cabem neste sistema circular devem ser identificados, para que as marcas que os produzem, simplesmente, deixem de o fazer. Já há projectos em curso neste sentido, mas sem escala, dificilmente terão consequências.

Susana Fonseca, da Zero, que dirigiu o debate, insistiu que a tónica tem mesmo de ser colocada na redução do consumo em geral. “Porque trocar um produto descartável, como plástico, por outro descartável, mesmo que seja casca de batata, não resolve. Podemos reduzir a pressão de um lado, mas estamos a aumentá-la noutro”, disse.

Para além disto, há muito mais que se pode fazer, incluindo ao nível da reciclagem, que pode ser melhorada. Mas até o que aparenta ser um bom passo, como a entrega de garrafas de plástico em máquinas, recebendo em troca alguns cêntimos para gastar em compras – projecto-piloto já implementado em Portugal e que deverá alargar-se a todo o território em 2022 -, pode ter problemas invisíveis à primeira vista. “Com a recolha de garrafas, as empresas que o fazem ficam com o fillet mignon e o que é deixado para as câmaras é o refugo, plásticos mistos que não são aproveitáveis”, disse uma das participantes, ligado ao processo da reciclagem.

Certo é que a quantidade de plástico existente no planeta é um enorme problema, sem solução a curto prazo à vista. Um dos participantes no debate sobre o documentário sintetizou o que o filme defende de forma muito clara: “Ao lidar com o problema, não devíamos pensar primeiro em reciclagem, mas em recusar aquele produto”, disse.

Fonte: Público

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