ActualidadeOpinião

Opinião da Catarina Vaz – “Em meu nome”: Dia Mundial da Criança e as “Valentinas”, os “Antónios” e as “Marias” da nossa vida

Dia 1 de Junho comemora-se o Dia Internacional da Criança.

Quem me conhece bem sabe que eu detesto a comemoração de qualquer dia, pois, no meu entender, se os direitos estivessem assegurados não haveria necessidade de assinalar nem de comemorar “Dias”.

Mais do que nunca, parece-me pertinente falar aqui do que afinal é ser criança e porque este dia se estabeleceu. Assim, em 1925 foi instituído em Genebra, no âmbito da Conferência Mundial para o Bem-Estar da Criança, este dia internacional. No entanto, o mesmo não se comemora em todos os países na mesma data. Na minha ótica, esta celebração até teria lógica ser feita no dia 20 de novembro, pois foi neste dia que foram aprovadas a Declaração Universal dos Direitos da Criança (1959) e a Convenção dos Direitos da Criança (1989).

Depois da voltinha pelas datas mais memoráveis e que foram importantes para se estabelecer a criança como um ser único e com direitos, vou dar aqui a minha definição do que é isto de ser criança: indivíduo do sexo feminino ou masculino com idade inferior a 18 anos, que deve ser o centro da família e ser cuidado com muito amor, responsabilidade e afeição.

Toda a criança devia ter os seus direitos assegurados no que diz respeito a ter uma família (seja ela do tipo que for, o importante é ser cuidada), a ter uma casa e a ir á escola. Ter as mesmas oportunidades ao nível da educação, da saúde e do bem-estar físico e psicológico. Isto num mundo ideal!

Como vivemos no mundo real e até conhecemos alguns casos em que isto não é nada assim, convém estarmos muito atentos a todas as crianças que nos rodeiam.

Todos ficámos chocados com a história e a tragédia da Valentina. Mais uma criança que foi morta e que, para quem supostamente a assassinou, não deveria ter qualquer direito – nem o de permanecer viva. O problema desta criança é igual ao problema de muitas crianças que nos cercam e mostra que não há leis nem direitos instituídos que consigam alterar mentalidades e formas de estar criminosas de um dia para o outro.

Que quero dizer eu com isto? Simples: quando tudo e todos falham na proteção de um elemento da sua comunidade é porque tudo o que está á volta não está certo ou não se está a agir da forma correta. Neste caso, quem protegeu esta criança? Ninguém!

Uma criança, como muitas outras, que não foi desejada. Uma criança que passou a ser descartável, para que um dos progenitores pudesse reconstruir a sua vida (igual a muitas outras crianças, cujos pais arranjam outro companheiro e as deixam para trás…). Uma criança que devia ter sido protegida pelas instituições que existem para esse fim, mas cujos responsáveis não fizeram bem o seu trabalho e ficou completamente desprotegida!

Uma criança que toda a gente sabia, desde familiares a vizinhos, que poderia estar em grande perigo, mas que deixaram sozinha entregue ao seu destino.

Há um provérbio africano que diz “É preciso uma aldeia inteira para educar uma
criança.”, eu só acrescentaria que também é preciso uma aldeia inteira para proteger uma criança. E neste caso, como em muitos outros, faltou a atenção e proteção de toda a comunidade, pois também é nossa responsabilidade enquanto cidadãos e em prol de uma cidadania ativa estar atentos e informar ou denunciar a quem de direito estas situações.

Sempre ouvi dizer que quando chegamos a velhos voltamos a ser crianças pela segunda vez. E a essas “crianças”, os “Antónios” e as “Marias” também temos o dever de cuidar e proteger.

Nesta altura de confinamento devido ao Covid-19, há situações que nos devem merecer especial atenção e sem dúvida que os idosos são a outra faixa etária (em paralelo com as crianças) com quem temos de nos preocupar. Temos uma alta taxa de idosos a viverem isolados. Temos uma taxa elevada de idosos em lares (legais e muitos deles ilegais) que se encontram, muitas vezes, semanas, meses e até anos sem que as famílias os visitem numa situação de abandono familiar.

Temos idosos a viver em hospitais porque as famílias não os querem – têm alta da parte da saúde, mas não têm alta social.

Temos depois aqueles que vivendo com familiares são negligenciados e vítimas de situações várias (desde abusos emocionais, psicológicos, físicos e até financeiros) que perfilam crime de violência doméstica.

Sabemos todos que, numa situação de pandemia como estamos a atravessar, estas situações ficam mais escondidas e até são mais difíceis de identificar, mas se ao tomarmos conhecimento delas nada fizermos estamos a ser coniventes com os “criminosos” e no caso de alguém morrer lá ouviremos na televisão os vizinhos e os familiares dizerem “Eu até sabia, mas…”. Mas nada fizeram!!!!

Temos de começar a assumir uma cidadania mais responsável e ativa e denunciar estas e outras situações de ilícito de que tenhamos conhecimento.

Podem até todos os mecanismos legais falharem e pode acontecer tudo na mesma, mas a consciência tranquila de que fizemos o que devíamos e que podíamos fazer para aliviar o sofrimento de alguém será sempre o melhor balizador da nossa cidadania.

A culpa de crianças e de idosos que morrem em situações criminosas não pode
continuar a morrer solteira!

Desejo a todos (novos e velhos) que mantenham o vosso espírito de Criança, com esta frase de José Eduardo Soares de Almeida:
“O espírito de criança é algo que o tempo não pode apagar. Ninguém deseja ser adulto a vida toda, ninguém deseja ser idoso a vida toda. Mas todos nós, em cada ano de nossas vidas, desejaremos ao mínimo uma vez, sermos crianças novamente”.

Catarina Vaz – Professora

Mostrar mais

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to top button
Close
Close