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Anunciar a morte de Ribeiro Telles sem confirmar! Ser ou não ser “fake news”

Há figuras públicas cuja "morte" é anunciada várias vezes na comunicação social. A maior parte dessas informações parecem ter origem numa certa negligência investigadora, isto é, falta daquilo que qualquer jornalista tem de fazer antes de dar as notícias: confirmar por todos os meios ao seu alcance, sendo que, em caso de dúvida, é melhor não dar a notícia. Desta vez, a última personalidade a "morrer" foi Gonçalo Ribeiro Telles, ainda por cima no dia em que o arquitecto ambientalista faria (fez) 98 anos, 25 de Maio.

São vários os tipos de notícias falsas, as vulgarizadas fake news: as que são propositadamente fabricadas, as que carecem de investigação e confirmação ou as que nascem por negligência, como parece ter sido o caso da referência à morte de Ribeiro Telles. Tanto mais que a entidade que divulgou a referida notícia, apressou-se a apresentar o desmentido, acrescentando as respectivas desculpas. Mas este tipo de negligência é indesculpável, em especial quando se trata da vida (neste caso, morte) de uma pessoa, tanto mais que se tratava de uma personalidade pública que goza de consideração por parte dos seus pares e das pessoas em geral.

Grave também é o facilitador “seguidismo” jornalístico, pois praticamente todos os órgãos de comunicação replicaram a notícia, embora a maior parte tenha citado a fonte, o que demonstra que o jornalismo e os jornalistas (neste caso, mais os editores) têm de ter mais brio e não embarcarem numa espécie de facilitismo informativo.

Muito graves são as notícias concebidas em fundamentos falsos, com um objectivo preciso e o propósito de atingir uma vasta audiência, e com pormenores que dificultam a percepção da veracidade da notícia. Ou podem ter uma parte verídica mas um fundo e objectivo falsos. Estas são as fake news mais perigosas, e que têm sido muito utilizadas nos últimos anos, quantas vezes (ou quase sempre) apoiadas nas chamadas redes sociais, nomeadamente o Facebook ou o Twitter. Fake news que têm elegido presidentes de países e dado maiorias ou percentagens superiores ao expectável a partidos e outras organizações. Os desmentidos deste género de fake news são invariavelmente mais fracos que as primeiras notícias. Como se sabe, as primeiras impressões têm sempre mais impacto que as segundas. E quem toma contacto com as primeiras notícias pode não se aperceber dos contraditórios.

Mas pior ainda que a falta de desmentidos, é o facto de algumas fake news perdurarem no tempo de tal modo que se tornam “verdade”. Ou, pelo menos, verdade para as audiências que se pretende atingir com essas mesmas falsas informações.

As fake news que carecem de investigação e informação são as que se misturam mais facilmente com as notícias reais. Geralmente não são bombásticas ao ponto de serem questionáveis e assim se vão disseminando pelas redes sociais (onde ganham o “estatuto” de virais), chegando aos jornais, às rádios e às televisões com relativa facilidade. Muitas vezes têm a ver com a vida de personalidades públicas, inventam-se conflitos e traições que enchem páginas de revistas e horas de televisão.

De entre outros tipos de fake news, destaque também para as tais que nascem e se reproduzem por negligência ou falta de ouvir outras fontes. É certo que o imediatismo da informação dos novos tempos muitas vezes quase se sobrepõe à obtenção da veracidade, mas é preferível não divulgar, ou divulgar mais tarde, do que cair na situação de incorrecções que têm a ver directamente com a vida das pessoas e seus familiares e amigos.

Outra gravidade subjacente às fake news é o perigo da descredibilização jornalística. Quem sofre com isso são os jornalistas e os meios de comunicação que tentam fazer um trabalho sério. Corre-se o risco de toda a classe jornalística ser julgada pela mesma bitola e ser vista como pouco profissional, com falta de brio, incompetente ou negligente. O que não é verdade para a maior dos profissionais que dão o seu melhor todos os dias – e quantas vezes em situações complicadas no terreno e na obediência às chefias – para que a melhor e mais imparcial informação chegue às audiências.

Texto e Foto: José Alex Gandum – Jornalista | Director Adjunto 

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