Ciência

Os furacões estão a ficar mais fortes

Estudo analisou 39 anos de imagens de satélite de furacões que confirmam que o aquecimento global está a tornar estes fenómenos mais intensos.

Um primeiro estudo analisou 28 anos de dados sobre os furacões em várias partes do mundo e já apontava para um aumento da intensidade destes fenómenos. No entanto, e apesar do esforço de uniformização de vários tipos de dados recolhidos de diferentes formas, os dados ainda não eram estatisticamente relevantes para concluir que o aquecimento global está a tornar os furacões mais fortes. No estudo publicado na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), a análise foi dilatada para abarcar 39 anos de dados e dissipa muitas das dúvidas sobre esta relação dos furacões com um mundo mais quente.

“Através da aplicação de modelos e do conhecimento que temos da física atmosférica, o nosso estudo confirma o que se esperava ver num clima a aquecer como o nosso”, diz James Kossin, primeiro autor do artigo publicado na PNAS e cientista da agência nacional para o oceano e a atmosfera (NOAA) dos EUA na Universidade de Wisconsin-Madison. O comunicado da universidade sublinha que em praticamente todas as regiões do mundo onde se formam furacões, os seus ventos máximos estão cada vez mais fortes. “Um planeta a aquecer está a alimentar este aumento”, conclui.

A investigação analisou a intensidade de cerca de quatro mil furacões em várias partes do mundo. Recordando que este tipo de fenómenos representa um risco sério para muitas regiões do mundo, os autores sublinham que os grandes ciclones tropicais são uma enorme ameaça para a vida (e propriedade) de muitas pessoas no planeta. Os dados mostram que se registou um aumento na ordem dos 8% por década na probabilidade de furacões mais intensos.

O trabalho agora publicado surge na sequência de uma análise anterior que analisou dados recolhidos entre 1982 e 2009, ou seja, 28 anos de furacões. Agora, a investigação inclui informações globais de furacões ocorridos entre 1979 e 2017. O desafio de uniformizar dados muito diversificados, com diferentes tecnologias e métodos de recolha de informação, mantém-se neste trabalho mais recente que apresenta resultados mais robustos e estatisticamente significativos.

Assim, usando diversas técnicas de análise de dados, incluindo a CIMSS Advanced Dvorak Technique, que se baseia em medições de temperatura de satélites geoestacionários através da radiação infravermelha para apresentar estimativas sobre a intensidade dos furacões, James Kossin publica um conjunto de informações suficientemente homogéneo para identificar tendências. “O principal obstáculo que temos para encontrar tendências é o facto de os dados serem recolhidos usando a melhor tecnologia da altura”, diz o investigador citado no comunicado explicando que “todos os anos, os dados são um pouco diferentes dos do ano passado, cada novo satélite possui novas ferramentas e captura dados de maneiras diferentes; portanto, no final, temos uma manta de retalhos de todos os dados de satélite que foram reunidos”.

O artigo anterior publicado em 2013 já falava em mudanças no comportamento dos furacões ao longo das décadas, das suas formas de viajar nos territórios, da sua direcção e da velocidade com que se movem. Em 2014, o cientista identificou ainda “migrações polares de furacões, com ciclones tropicais a viajar para o norte e sul, expondo a um maior risco populações costeiras que anteriormente eram menos afectadas”.

Depois, em 2018, James Kossin demonstrou ainda que os furacões estão a mover-se mais lentamente através dos territórios por causa das mudanças no clima do planeta. A viajar a um ritmo mais lento (mas com ventos mais fortes), os furacões causam inevitavelmente mais estragos. Ou seja, este comportamento dos furacões resultou num risco aumentado de inundações, “à medida que as tempestades pairam sobre cidades e outras áreas, geralmente por longos períodos de tempo”.

“Os nossos resultados mostram que estas tempestades se tornaram mais fortes nos níveis global e regional, o que é consistente com o que se previa sobre a resposta dos furacões a um mundo em aquecimento”, refere James Kossin. Apesar de sublinhar que estas conclusões não permitem perceber qual é a quota-parte desta tendência para termos furacões mais fortes que pode ser atribuída às actividades humanas e qual a parte que resulta de uma “variabilidade natural”, a relação entre o aquecimento e o aumento de intensidade dos furacões parece estar mais clara do que nunca. Os autores do artigo notam que as conclusões deste estudo, que confirmam os velhos modelos teóricos e simulações baseadas nos efeitos do aquecimento global, reforçam a confiança nas projecções e estimativas de um futuro aumento da intensidade dos furacões causado num mundo que continua a aquecer.

Fonte: Público

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