Cultura

Ao ar livre ou a pagar para ver em casa: assim se desenha o regresso aos concertos

O manual provisório para o regresso à actividade das salas de espectáculo já circula, mas as regras oficiais só devem chegar no final desta semana. Ainda a estudar possibilidades, as salas pequenas tentam encontrar soluções. Temporárias ou definitivas, eis a questão.

Faltam duas semanas para as salas de espectáculo poderem reabrir, mas no auditório do CCOP – Círculo Católico de Operários do Porto os concertos já regressaram desde o início de Maio. O arranque foi feito com os técnicos de palco a trabalharem, os músicos a usarem o plateau – uns e outros remunerados, o que nem sempre tem sido a regra – e o público a ter de passar previamente pela bilheteira. Não há lotação máxima, mas também não há filas, nem aglomerações. Isto porque cada espectador assiste ao espectáculo a partir de casa, numa plataforma acessível em regime pay-per-view, criada ainda antes de se conhecer o manual provisório de procedimentos anti-covid-19, a pensar no desconfinamento marcado para 1 de Junho, que a Secretaria de Estado da Cultura enviou na semana passada aos responsáveis do sector.

A realização de concertos com todas as condições técnicas de um evento ao vivo, mas para um público remoto e confinado, foi a estratégia gizada pelos responsáveis deste espaço do Porto para tentar alavancar a economia de um sector que desde o início da pandemia luta para conseguir recuperar os rendimentos perdidos por força do cancelamento (ou, na melhor das hipóteses, do adiamento) de vários meses de agenda. O esforço serve também para voltar a pôr no mapa o auditório de uma sala de pequena dimensão, proporcionando aos artistas um regresso aos palcos seguro e remunerado.

Mesmo com as regras provisórias já nas mãos dos promotores e dos programadores, o futuro da música ao vivo em salas de pequena e média dimensão é ainda uma incógnita. Entre soluções como a que o CCOP pôs em marcha, o formato drive-in que a Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, já está a testar, ou transferindo os concertos para espaços ao ar livre ou para auditórios maiores, que permitam um encaixe de bilheteira interessante mesmo com uma lotação severamente reduzida, que planos têm as salas de espectáculo mais pequenas para regressar à actividade já a partir do próximo mês? Será exequível garantir uma agenda de concertos regular, cumprindo ao mesmo tempo as normas estabelecidas pelo Governo?

O manual provisório que chegou às mãos de alguns promotores e produtores de espectáculos prevê que, nas salas fechadas, os espectadores terão de ocupar cadeiras separadas por dois lugares vazios e com uma fila de intervalo ou, em alternativa, três lugares de permeio em filas seguidas, mas com ocupação desencontrada. Só estão previstas excepções para grupos de espectadores do mesmo agregado familiar ou coabitantes, a quem serão principalmente destinados os camarotes, no caso dos teatros clássicos.

Em salas sem lugares sentados e de menor dimensão, porém, não se sabe ainda como se aplicarão as regras. Há, de resto, promotores inquietos por não terem sido incluídos na auscultação prévia promovida pela Secretaria de Estado da Cultura – a Artemrede, que junta 16 municípios de Lisboa e Vale do Tejo, reclamou esta terça-feira, em comunicado, que “algumas das medidas (…) inviabilizarão a programação cultural em vários pontos do país”, e que há omissões “em questões relevantes para a segurança e confiança das equipas técnicas, artísticas e público”, nomeadamente “a gestão das entradas e saídas dos espectadores” e da sua “permanência em foyers, nalguns casos espaços exíguos”.

Face a essa indefinição, antecipam-se cenários possíveis. Renovado no final de 2018, o auditório do CCOP foi pensado já nessa altura para considerar outras formas de fazer chegar a música ao vivo a uma maior audiência. João Maya, responsável por esta casa, diz que a possibilidade de assistir a um concerto à distância sempre esteve nos planos. E como também está à cabeça de uma empresa de streaming, desde os primeiros espectáculos após a renovação do espaço lançou-se em experiências nesse formato.

Declarada a pandemia, e face ao número elevado de concertos via streaming e à impossibilidade de reunir público no auditório, apostou numa variante desta forma de apresentar música, mas com condições técnicas asseguradas por profissionais e sempre remunerada – o pay-per-view. Assim, torna-se possível incluir também os técnicos que trabalham com os músicos – de forma geral, fora das soluções anteriormente apresentadas –, num formato em que a receita é distribuída por todas, sem “intermediários”.

Arrancou nestes moldes, já na semana passada, o festival Auditório em Casa, a decorrer até ao final do mês, com uma agenda de oito concertos. Será o primeiro teste para mais tarde dar continuidade ao formato. Neste caso, explica João Maya, é possível comprar, na respectiva plataforma online, um bilhete que dá acesso apenas a um espectáculo ou ao cartaz completo. As actuações ficam depois disponíveis em arquivo.

Toda a produção cumpre o distanciamento social e as regras de higiene estabelecidas pela Direcção-Geral de Saúde, garante João Maya: “Meia hora antes do espectáculo os técnicos fazem o som e preparam o equipamento de forma a ser controlado remotamente. Quando os músicos entram já está tudo preparado e esterilizado.” Além do som, também as câmaras – quatro robotizadas e uma móvel – são operadas à distância.

Concertos ao ar livre, mas sem carros, são uma das alternativas que o Hard Club, no Porto, está a estudar para retomar a actividade, fora das suas duas salas. Foto: D.R

O objectivo é dar continuidade a este formato, diz o responsável, adiantando estar a negociar com promotoras e outras estruturas parcerias para partilha do espaço, usufruindo da tecnologia instalada. Mas a maior vantagem do módulo é que é portátil. “O equipamento pode ser montado em qualquer sítio com as mesmas características”, diz João Maya.

Por agora, ainda não sabe ao certo quais serão as regras que terá de cumprir e quantas pessoas poderá acolher na sala do CCOP a partir de 1 de Junho. Seja como for, o pay-per-view é para continuar: “Mesmo quando pudermos voltar a ter gente na sala, é uma modalidade que vai manter-se para sempre.”

Também à espera de conhecer o manual de regras definitivo, Sérgio Hydalgo, da galeria Zé dos Bois (ZDB), em Lisboa, vai estudando soluções. Por agora, o pay-per-view está longe de ser a alternativa que prefere abraçar. Actualmente o arquivo áudio de 20 anos de casa está a ser vasculhado; será disponibilizado, “a partir das próximas semanas”, enquanto a sala se prepara para retomar as suas residências artísticas.

Na ZDB, a música e as performances ao vivo acontecerão preferencialmente com o público presente. Das duas uma: ou se transferem os concertos para um espaço ao ar livre, ou para um auditório maior. Os concertos ao ar livre poderão voltar já este Verão. Nos auditórios, talvez em Setembro. Certo é que, com as digressões dos artistas internacionais canceladas, o foco será nos artistas nacionais. Sérgio Hydalgo ponta um regresso à normalidade com mais nomes de fora do país apenas para a Primavera de 2021. Sempre com espectadores. “É assim que considero que deve ser a experiência ao vivo”, afirma.

O arquivo áudio de 20 anos da ZDB poderá vir a ser disponibilizado enquanto a sala se prepara para retomar as suas residências artísticas. Foto: D.R

Recentemente, já foram testados alguns novos formatos, como o dos concertos drive-in ​que Maria João estreou na Fábrica Braço de Prata. Enquanto os festivais não regressam (estão proibidos até 30 de Setembro) e os concertos de maior dimensão estão suspensos, há outros espectáculos drive-in já marcados: no próximo sábado, dia 23, Pedro Abrunhosa vai apresentar-se no parque de estacionamento do Estúdio 33, em Ansião, Leiria.

Concertos ao ar livre, mas sem carros, são também uma das alternativas que o Hard Club, no Porto, está a estudar para retomar a actividade, fora das suas duas salas. A amplitude do Mercado Ferreira Borges pode ser uma vantagem no regresso aos espectáculos, por permitir que o público se espalhe, acreditam os responsáveis da casa. O restaurante já abriu na segunda-feira, e para já vai funcionar na esplanada, onde equacionam marcar também actuações. Sempre com músicos nacionais, por força das condicionantes aplicáveis às viagens entre países.

“Com uma vantagem para os músicos nacionais”, é como entende Luís Fernandes, do GNRation, que poderá funcionar este “novo mundo” dos concertos ao vivo. Actualmente a apostar no reforço do apoio à criação, enquanto não abre portas ao público, o espaço bracarense põe todas as hipóteses em cima da mesa para o regresso aos concertos, parte importante da extensa programação do projecto.

Festival Semibreve, no edifício GNRation, em 2015. Foto: D.R

“A primeira reacção foi, em vez dos streaming, decidir redobrar esforços no domínio da criação. Lançar mais desafios a mais artistas”, explica. Agora está tudo em aberto, nomeadamente usar os dois pátios como palco.

Com o acesso vedado a artistas internacionais, tal como os seus pares, Luís Fernandes olha para os tempos que se avizinham como uma espécie de campo aberto para a prata da casa: “Acredito que haverá maior e melhor produção artística nacional. Estas condicionantes talvez coloquem os artistas portugueses numa posição de destaque.”

Fonte: Público

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