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Bolsonaro perde o segundo ministro da Saúde e o Brasil fica ainda mais perdido na pandemia

A pressão do Presidente levou à demissão de Nelson Teich, que não completou um mês no cargo. Esperam-se tempos de maior desordem na resposta à covid-19.

Os brasileiros foram brindados esta sexta-feira com mais um episódio de uma novela que parece não ter fim. Antes de completar um mês no cargo, o ministro da Saúde, Nelson Teich, apresentou a demissão em desacordo com o Presidente, Jair Bolsonaro, dando mais uma machadada no combate à pandemia da covid-19 no país, que é caso único no planeta, com a saída de dois ministros em plena crise sanitária.

Não durou mais que 15 minutos a reunião matutina entre Teich e Bolsonaro no Palácio do Planalto, em Brasília, em que ficou assente a saída do médico oncologista ao fim de 29 dias como ministro da Saúde, mostrando que pouco havia a salvar de uma relação que se degradou em poucos dias. Assim que saiu do encontro, Teich disse ser o “pior dia” da sua vida, de acordo com a CNN Brasil.

A nota do Ministério da Saúde que anunciava a demissão não fornecia qualquer justificação para a demissão de Teich e, na conferência de imprensa que concedeu durante a tarde, o próprio nada disse sobre as razões que o levaram a sair. Mas os episódios de confronto com Bolsonaro acumulavam-se. O principal ponto de discórdia foi a pressão crescente do Presidente para que a prescrição da hidroxicloroquina para os pacientes infectados com o novo coronavírus fosse ampliada.

Este medicamento usado para tratar a malária e algumas doenças auto-imunes tem em Bolsonaro um dos seus grandes adeptos, mas também o Presidente dos EUA, Donald Trump, e, ironicamente, o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, no pólo ideológico oposto. O sucesso do tratamento em alguns casos de pessoas infectadas com a covid-19 é visto como mais do que suficiente para que Bolsonaro defenda a alteração do protocolo referente à hidroxicloroquina, apesar de a generalidade dos estudos já realizados apontar dúvidas quanto à sua eficácia e até a possibilidade de potenciar ou causar outros problemas de saúde.

A posição actual do Ministério da Saúde referente à hidroxicloroquina determina que “as evidências identificadas ainda são incipientes para definir uma recomendação”. Mas no mês passado o Conselho Federal de Medicina emitiu uma nota em que permitia a prescrição do tratamento se médico e paciente estiverem de acordo. O organismo admitiu a falta de estudos que comprovem a eficácia, mas decidiu autorizar a sua utilização à luz da emergência criada pela covid-19.

A demissão abrupta de Teich mostra que a convicção de que este tratamento deve ser prescrito aos doentes da covid-19, mesmo que não exista suporte científico, passou a ser requisito obrigatório para ser ministro da Saúde.

Fonte: Público

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