Opinião

Opinião – Em meu nome: “Vai correr tudo bem” ou esse é o nosso desejo!

Por isso, o “Vai correr tudo bem” é o que eu realmente gostaria que acontecesse (não vivesse em “na terra onde os magos estão a salvo”). O que eu, realisticamente, acho que vai acontecer é que, devido a todos estes condicionantes (falta de recursos humanos, materiais e estruturais), teremos ainda muito que penar e teremos todos que contribuir para que o que vai ser mau, não se torne num pesadelo.

Todos sabemos que quando existem grandes crises – sejam guerras, catástrofes naturais ou outras – há a tendência para primeiro minimizarmos, a seguir entrar em pânico e, em terceiro, rezar e apelar á fé – esperando sempre um milagre! E só depois disto tudo é que as pessoas se consciencializam que têm de fazer o que for necessário para resolver as coisas, mesmo que isso implique perda de direitos ou da liberdade temporária.

Com esta pandemia da Covid 19, a maioria dos portugueses apercebeu-se de algumas coisas que seriam graves, muito graves, excessivamente graves, em tempo de “paz”, mas que agora são de menos importância atendendo ao número de mortos que sobe todos os dias e ao número de infetados ascendente (mas ainda longe do pico)… nomeadamente, que foram os próprios portugueses que impuseram aos nossos governantes medidas para fazer face a uma pandemia (cujo nome só por si é sinónimo de desastre e hecatombe colossal). Que foram os encarregados de educação, as direções das escolas e os professores a bater o pé para que as mesmas fossem fechadas, para protelar/impedir o contágio (isto quando o mesmo já existia).

Que foram os cidadãos a exigir que se fechassem as fronteiras para que se impedisse a entrada de pessoas contaminadas. Que até à última (já com vários casos em Portugal), as entidades máximas continuaram a minimizar a situação quando ela já era caótica. Isto serial surreal se não fizesse parte da nossa realidade!

A seguir veio a fase do pânico, em que sobressaiu a correria aos supermercados (tal como em um qualquer país sul americano) e o episódio do papel higiénico (chamem-me burra, mas ainda não percebi o porquê de se comprar tanto papel higiénico e de o mesmo ter esgotado). O que mais me impressionou nesta fase foi o egoísmo, a falta de sensibilidade e a falta de solidariedade para com aqueles que têm menos recursos económicos. E penso que não me sairá da memória aquela imagem de um idoso a olhar para as prateleiras vazias.

E como é nosso bom costume, a seguir apelou-se às velas, às rezas, aos santos e seus quejandos. E ficámos à espera de que o que viria e poderia suceder podia não nos atingir, pois somos um povo com grande fé.

Quando começaram a aparecer os primeiros casos (confirmados) é que se percebeu que, afinal, tínhamos muitas fragilidades. E só quando apareceram as primeiras mortes confirmadas (por ironia do destino, o primeiro ligado ao futebol e o segundo ligado à banca) é que, finalmente, se percebeu que os enfermeiros e os médicos são muito importantes para todos (quando os mesmos lutavam pela dignificação da sua carreira e por melhores ordenados – porque são mal pagos – foram severamente criticados pela grande maioria dos portugueses, que agora se reúnem em varandas para os aplaudir!).

Percebi eu e, espero, a maioria dos portugueses que o desinvestimento em áreas
essenciais como a saúde, a segurança e a educação, só poderá ser nefasto para todos.

Senão vejamos: o desinvestimento na saúde faz com que não existam profissionais suficientes, não há material suficiente e não há instalações adequadas. Agora faziam cá falta os enfermeiros e médicos que foram mandados emigrar ou que emigraram á procura de emprego e de melhores condições de vida que este Estado, que agora lhes pede sacrifícios, não lhes proporcionou.

O desinvestimento nas forças de segurança faz com que agora, numa situação de estado de emergência, não existam equipamentos adequados para os proteger (já se começam a ouvir falar nos primeiros casos de contaminação entre elementos da PSP e da GNR).

No entanto, o mesmo Estado que não lhes dá condições para trabalhar, exige-lhes agora que façam cumprir a Lei e desprotege-os. No entanto, é este Estado que lhe recusa um subsídio de risco…

E nem vos vou falar daquilo que estão a exigir aos professores (por ser secundário neste momento) …, mas uma coisa vos garanto, os encarregados de educação estão a aprender a dar valor a quem cuida dos filhos deles todos os dias!

Quero-vos falar de outra coisa, que considero também muito importante: a fé num dia a seguir melhor, que está incutida num arco-íris e na frase “Vai correr tudo bem”. A nossa esperança de que dias melhores virão nunca morre e devemos persistir nela, para que não possamos desmoralizar. No entanto, também devemos ser realistas e fazer a nossa parte, porque se não cumprimos com as instruções que nos são dadas (achando ou não que as mesmas são ditatoriais) e se não prescindimos de uma ou duas semanas e de um ou dois meses da liberdade que sempre tivemos, também não devemos esperar que a
sorte esteja sempre do nosso lado. Isto vem também a propósito de mais um episódio caricato nestes últimos tempos: a passeata de grandes grupos na Póvoa do Varzim.

A falta de civismo e de sentido de cidadania daquelas pessoas despreocupadas, só me leva a temer pelo pior.

Não nos julgava a nós, portugueses, tão isentos de bom senso, de solidariedade e de civismo.

Por isso, o “Vai correr tudo bem” é o que eu realmente gostaria que acontecesse (não vivesse em “na terra onde os magos estão a salvo”). O que eu, realisticamente, acho que vai acontecer é que, devido a todos estes condicionantes (falta de recursos humanos, materiais e estruturais), teremos ainda muito que penar e teremos todos que contribuir para que o que vai ser mau, não se torne num pesadelo.

O mais engraçado nisto tudo (que não tem graça nenhuma!), é que nas diferentes comunidades ainda há quem pense que as coisas tenham de ser partidarizadas e que não estamos todos no mesmo barco. Quando o pior acontecer todos seremos poucos para ajudar!

“Vai correr tudo bem” se soubermos cumprir com a nossa parte. “Vai correr tudo bem” se nos unirmos no que é importante.

Catarina Vaz – Professora

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