Cultura

A intimidade à distância: um festival para ouvir em casa

Começou na passada terça-feira e termina este domingo. Chama-se #euficoemcasa. Músicos a tocar para público que os acompanha no telemóvel. A ocasião é excepcional, mas poderá ver-se daqui um vislumbre do futuro?

São concertos e, portanto, há músicos a tocar e a cantar. Como em qualquer concerto, há palmas, pedem-se canções, elogia-se aquele pedaço de letra, soletram-se quadras inteiras enquanto os cantores as cantam, pede-se no final que a actuação se prolongue um pouco mais. Mas, nestes concertos, vemos Boss AC a dar uma garfada num prato de cachupa enquanto canta Catchupa sab ou rappar Queque foi com as duas filhas ao colo.

Nestes concertos, António Zambujo, sentado no sofá da sala, estores laminados descidos sobre a janela atrás de si, deixa de cantar durante alguns compassos de O pica do 7, como acontece em todos os seus concertos, e incentiva quem o está a ver – “agora vocês: mais alto!” –, mas nada ouvirá em resposta. “É muito estranho não vos ouvir, mas vocês estão mesmo aí, não estão?”, perguntava um dia antes Márcia. “Mãos no ar”, brincava a cantora de A pele que há em mim.

A pandemia da covid-19 encerrou salas de concertos, auditórios, clubes. Deixou os músicos sem aquele que, historicamente, tem sido o seu habitat natural, o palco. Claro que o palco, no mundo digital da segunda década do século XXI, já não se define exclusivamente enquanto espaço físico de encontro entre artista e público. E por isso mesmo, enquanto as salas se foram fechando, enquanto as pessoas foram recolhendo a casa, os músicos não pararam e a agenda de concertos preencheu-se. Em Portugal, tivemos mesmo direito a um festival, o #euficoemcasa.

Desde terça-feira e até este domingo, contabilizaremos 78 concertos de meia-hora, entre as 17h até às 23h30, numa iniciativa conjunta de editoras, promotoras e músicos. Já ouvimos e vamos ainda ouvir fadistas, cantautores, rappersrockers, DJs, estrelas pop e criadores do underground – o último dia de festival tem marcadas actuações de Fausto (17h), João Só (17h30), Sara Correia (18h), Júlio Resende (18h30), Selma Uamusse (19h), Ricardo Ribeiro (19h30), Best Youth (20h), Nuno Ribeiro (20h30), Ana Moura (21h), David Carreira (21h30), Luísa Sobral (22h), Tiago Bettencourt (22h30) e Xinobi (23h).

Tal como o nome indica, os músicos, em casa, tocam para o público em quarentena. Um telemóvel, uma ligação online, uma conta na rede social Instagram e está feito. Intimidade partilhada – a cachupa e as filhas de Boss AC, a sala de Zambujo em Porto Covo, o quarto de brincar dos filhos de Márcia, que ali toca enquanto eles dormem –, e aplausos, apartes e pedidos, como os ouvidos nas salas de concertos, transformados nos comentários que os espectadores teclam e com os quais vão reagindo. “O presidente está em directo, e o Marcelo na TV”, escrevia-se na noite de quarta-feira quando Chico da Tina, o auto-intitulado “minhoto trapstar”, dava o seu concerto delirante, que incluiu momento televendas à Melga & Mike. “Chiu, deixa ouvir”, exclamava com piada alguém, perante a avalanche de comentários, quando Noiserv, um par de horas depois, se preparava para cantar The sad story of a little town. Ergueram-se copos de vinho digitais na direcção de Bispo, o rapper que acaba de editar Mais Antigo, enquanto aquele dá mais um gole no seu copo, esse bem real.

O festival é uma manifestação solidária do meio musical para com a população. Aliás, têm-se multiplicado mundo fora os concertos nos mesmos moldes e vão sendo anunciadas iniciativas semelhantes. O Gig Club, serviço de música ao vivo por subscrição, desenvolveu juntamente com a editora Omnichord Records a plataforma Play it safe, stay home, alojada em playitsafe.pt, que desdesábado e até 19 de Abril (se a situação estabilizar até essa data) programará concertos em streaming. Este domingo actuam Luca Argel (21h30) e Noiserv (22h30), sendo que já aderiram à plataforma nomes como Alex D’Alva, Filipe Sambado, First Breath After Coma, Best Youth, Samuel Úria, Twist Connection, Surma, Valter Lobo ou Joana Espadinha.

#ficaremcasa e iniciativas como esta Play it Safe, Stay Home servem também, em segundo plano, como alerta para a posição de imensa fragilidade em que a actual crise colocou os músicos e suas equipas. “Nesta fase, a prioridade é outra, é salvar vidas, manter a economia minimamente estável e a sociedade funcional”, diz Boss AC ao PÚBLICO. Mas, acrescenta, “a situação é muito grave”: “Não sabemos quanto vai durar e é transversal a todos os sectores, mas muitos músicos vão ficar sem sustento. Pode ter consequências devastadoras.” Para o decano do rap português, há que começar a “pensar em alternativas”: “Concertos online são bons, mas isto não paga as contas”. Isto é, ao dia de hoje, uma verdade indesmentível. Mas, e se pagar no futuro? Poderão concertos online pagos substituir ou, pelo menos, complementar os roteiros de actuações habituais?

Fonte: Público

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