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Morreu Pedro Barroso, o último trovador de uma geração interventiva

Cantor, compositor, poeta, mas também artista plástico amador, era o último trovador de uma geração interventiva. Hospitalizado desde dia 3, Pedro Barroso morreu aos 69 anos, com um novo disco pronto a lançar. Título: Novembro, o mês do seu nascimento.

No último concerto que deu, em Dezembro de 2019, já arriscou demasiado. Apesar de ter vivido anos difíceis, em particular na luta contra um cancro, Pedro Barroso fazia sempre questão de voltar à música, como se fosse ela a sua primordial fonte de vida. Espirituoso e bem-humorado, com uma fina ironia que lhe era peculiar, zombava até da própria morte. Desta vez, porém, não conseguiu vencê-la. O último trovador de uma geração interventiva morreu esta terça-feira, no hospital onde estava internado desde o dia 3 de Março, em estado muito crítico.

Nascido António Pedro da Silva Chora Barroso a 28 de Novembro de 1950, em Lisboa (porque a mãe teve medo de tê-lo em Riachos, aldeia então com poucas condições), Pedro Barroso compôs inúmeras canções, mas também escrevia (tem vários livros editados), desenhava e pintava, como artista plástico amador, assinando Pedro Chora. Além de intervir com regularidade num blogue.

O seu primeiro disco, editado em 1970, chamava-se Trova-dor. E o último, já pronto, tem por título Novembro, mês do seu nascimento e que devia ter sido também o do lançamento do disco. Mas teve de ser adiado e uma triste ocorrência forçou novo adiamento: a morte, em Dezembro, num acidente de automóvel, do cantor e compositor espanhol Patxi Andión, que gravou um dueto com Pedro Barroso para este disco. O terceiro adiamento dá-se agora, com a morte do cantor.

A influência da chanson

Foi aos oito anos que Pedro Barroso iniciou a sua aprendizagem musical, na Fundação Musical dos Amigos das Crianças, em Lisboa. Ali esteve dois anos, interrompendo os estudos para os retomar mais tarde, em 1965, “de forma autodidacta”, segundo a Enciclopédia da Música Portuguesa do Século XX (2010). Fez teatro radiofónico na Emissora Nacional, em programas de Odette de Saint-Maurice (tinha então 14 anos), estreando-se como cantor no programa televisivo Zip-Zip, em 1969, influenciado sobretudo pela canção francesa (primeiro Adamo, Barbara, Bécaud, Aznavour, Piaf, depois Ferré e Brassens). Trova-dor, o seu disco de estreia, também com o selo Zip-Zip, é editado no ano seguinte, ao mesmo tempo em que começa a trabalhar com o Teatro Experimental de Cascais como músico e actor. A par disso, foi professor de Educação Física (1969-73) e mais tarde terapeuta, mas a música absorveu-o com maior intensidade.

Ao longo da sua carreira, que completou 50 anos em 2019, Pedro Barroso somou quase 30 discos, entre álbuns de originais e colectâneas. Numa entrevista ao PÚBLICO, em 2009, afirmava: “Tive letras cortadas, canções proibidas, tive o disco mais celeremente apreendido em Portugal. Eu, o António Macedo e o José Jorge Letria gravámos uma coisa onde se dizia muitas vezes ‘soltem os encarcerados’ [no disco da peça Breve Sumário da História de Deus, de Gil Vicente], aquilo passou na rádio porque era etiqueta Zip, mas dez minutos depois o disco foi apreendido (os estúdios da Rádio Renascença eram mesmo ao lado do Governo Civil, o que até deu jeito) e nunca mais tocou.”

Pedro Barroso surgiu na primeira vaga dos chamados “baladeiros”, autores que se acompanhavam à viola nas suas canções, às vezes com melodias demasiado básicas. Mas depressa seguiu outros rumos, procurando orquestrações e arranjos mais elaborados.

Um prolongamento

Em 2014, Pedro Barroso foi obrigado a deixar a ribalta por três anos. Editara, em 2012, um disco (Cantos da Paixão e da Revolta) e um livro (Memória Inútil de Mim), em 2013 um CD+DVD (Memória do Futuro) e em Abril de 2014 um novo disco, Palavras ao Vento. Mas depois teve o seu primeiro grande problema de saúde. “Hospitalizações gravíssimas, durante alguns meses”, contou ao PÚBLICO em 2017. Após um colapso cardio-respiratório, esteve em coma 15 dias, entubado. Depois, um cancro: uma operação de dez horas e oito meses de quimioterapia. Esteve sem andar, sem falar. Chorava, ao passar pelo piano. Mas não desistiu. Vencidas essas terríveis provações, regressou à música, aos palcos e aos discos. “Sinto que estou a viver um prolongamento que me foi dado pelo Árbitro das Coisas”, disse. E aproveitou o prolongamento o melhor que pôde.

O novo disco de Pedro Barroso, que ele já via como o seu último, ficou pronto em Novembro de 2019 (as gravações haviam terminado em Outubro) e devia ter sido lançado nesse mesmo mês, que é também o do nascimento do cantor. Antes de começar a gravá-lo, Pedro Barroso dissera ao PÚBLICO: “Vai ser, cada vez mais, um disco de comunicação alternativa, de sensibilidade aos problemas das pessoas, de humanismo, da maneira de estar por dentro das coisas.” Porque era esse o entendimento que ele tinha do papel dos autores, cantores e músicos na comunidade: “Para alterar alguma coisa na sociedade é muitíssimo importante a criação. O autor desempenha um papel enorme na criação de novos arquétipos e o caminho tem de ser por aí, pela inteligência e pelo conhecimento. Isso é uma coisa que se vai aprendendo com a idade.”

“O disco foi um bocadinho lento, sofrido, mas concluiu-se em Outubro”, diz agora ao PÚBLICO Fernando Matias, da Ovação, editora para a qual o disco foi gravado. Adiado devido à morte de Patxi Andión, parceiro de dueto de Pedro Barroso na faixa Que rumos (a parte do músico espanhol foi gravada em Madrid, por na altura não haver possibilidade de gravá-la em Lisboa), o disco seria lançado em Abril próximo. E com o título Novembro (Que Rumos), acrescentando-se esta indicação: “com a participação especial de Patxi Andión”.

A morte de Pedro Barroso (a par da pandemia da covid-19) levará a novo adiamento. Uma morte que deixa mais pobre o meio musical português, no qual ele era o último trovador activo de uma geração para a qual a canção foi sempre uma arma de intervenção social. “É uma grande perda, irreparável”, diz ainda Fernando Matias. “Porque não se vislumbra, no campo artístico e musical, ninguém com este perfil. Quando eu ouvia uma nova composição do Pedro, lembrava-me do Léo Ferré, do Vinicius de Moraes e, curiosamente, do Patxi Andión. Sempre imaginei a carreira do Patxi muito próxima da do Pedro. Longe de mim pensar que uma despedida [de ambos] viria a sublinhar este meu pensamento.”

Fonte: Público

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