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Dakar: a competição que teima em ceifar vidas

A morte de Paulo Gonçalves e o acidente do piloto holandês Edwin Strave (que continua internado em estado crítico, após ter fracturado uma vértebra cervical) ensombraram a competição, avivando a memória de outras vidas já perdidas no deserto. Em 41 anos de história, morreram 75 pessoas, entre pilotos e espectadores. O próprio mentor do Dakar foi uma das vítimas mortais.

Chegou ao fim o Rali Dakar 2019. Realizada integralmente no Peru, a prova deste ano contou com 12 etapas e a maior parte dos 5 mil Km incluiu percursos sinuosos de areia e dunas traiçoeiras. A morte de Paulo Gonçalves e o acidente do piloto holandês Edwin Strave (que continua internado em estado crítico, após ter fracturado uma vértebra cervical) ensombraram a competição, avivando a memória de outras vidas já perdidas no deserto. Em 41 anos de história, morreram 75 pessoas, entre pilotos e espectadores. O próprio mentor do Dakar foi uma das vítimas mortais.

O DESESPERO QUE ORIGINOU O DAKAR

Há quem já conheça a história, mas, ainda assim, vale a pena recordá-la. Em 1977, pouco tempo após ter disputado as 24 Horas de Le Mans, o francês Thierry Sabine decidiu partir à aventura. Participou no Rali Abidajan-Nice, uma das primeiras competições realizadas em África, enfrentando o perigo das dunas. A meio do percurso perdeu-se na Líbia, a sua moto ficou sem combustível e, durante 3 dias, sobreviveu sem água e sem comida. Thierry Sabine chegou a ensaiar a própria morte, em sinal de desespero: ergueu a cabeça em direcção ao sol, esperando que a língua inchasse – morrendo, assim, asfixiado.

Nos minutos que se seguiram, e enquanto aguardava pelo último suspiro, o piloto foi invadido por uma réstia de esperança. Foi nesse momento que prometeu a si mesmo que, caso sobrevivesse, iria organizar uma competição mítica, entre os desertos míticos de África e Dakar. O seu pensamento foi bruscamente interrompido pelo ruído de um avião de reconhecimento, que lhe fez chegar água e alimentos. Embora com fortes mazelas no corpo, Thierry Sabine salvou-se. E, em Dezembro de 1978, cumpriu a promessa: organizou o primeiro Rali Paris-Dakar, que viria a contar com 170 equipas e um percurso a rondar os 10 mil Km.

Thierry Sabine, fundador do Rali Dakar. O francês morreu num acidente de helicóptero enquanto supervisionava uma das edições do Dakar.
Thierry Sabine. O francês morreu num helicóptero da organização do Dakar, enquanto supervisionava a prova.

MORRER NO DESERTO

A tragédia que chocou o mundo aconteceu em 1986. Integrado na organização da prova, Thierry Sabine seguia num helicóptero que embateu numa duna, a meio de uma tempestade de areia. Todos os passageiros morreram, incluindo o fundador do Paris-Dakar. Há quem diga que, de certa forma, o criador acabou por ser vítima da sua própria criação.

A primeira morte registada no Rali Dakar aconteceu logo em 1979. Numa etapa disputada no Níger, o motard francês Patrick Dodin não resistiu a uma queda. Incluindo o já malogrado Paulo Gonçalves, até agora o Dakar tirou a vida a 75 pessoas. Além de pilotos, desde a primeira edição que têm morrido espectadores, jornalistas e mecânicos.

Paulo Gonçalves morreu no decurso da 7.ª etapa do Dakar de 2019. O piloto português, a residir em Esposende, tinha 40 anos.

Ao contrário das edições anteriores, o Dakar de 2019 foi realizado integralmente num único país. Em Novembro de 2018, aquando da apresentação oficial da prova, a Amaury Sport Organization (ASO) avisava que esta seria «uma das mais duras de sempre». Nesta mesma ocasião, Etienne Lavigne, que integra a ASO e durante 15 anos dirigiu o Rali Dakar, afirmou: «Será um Dakar fora do normal (…). As dunas e a areia são cenários que exigem muita técnica e conhecimentos de pilotagem. A somar a isso há a navegação, a orientação no labirinto de dunas. É preciso encontrar o caminho certo».

O CASO DE PAULO GONÇALVES

A morte de Paulo Gonçalves em pleno Dakar gerou uma onda gigante de homenagens e reacções. Uma das mais notadas foi a de Jorge Viegas, presidente da Federação Internacional de Motociclismo (FIM). Ao jornal Público, e a propósito da tragédia, Viegas adiantou que o piloto português «teve quedas a velocidades bem superiores àquelas em que estaria a conduzir agora. Nós dizíamos que ele era de borracha. Como se diz em bom calão, dava espalhos enormes, mas acabava por continuar e parecia que não lhe acontecia nada. E agora teve um grande azar. Ou não e aconteceu-lhe alguma coisa antes da queda. Não se sabe».

A imagem que correu o mundo: Joaquim Rodrigues Jr., piloto da equipa HERO e cunhado de Paulo Gonçalves, no momento em que teve conhecimento da tragédia que vitimou Paulo Gonçalves.
A imagem que correu o mundo: o momento em que Joaquim Rodrigues Jr. soube da tragédia que vitimou o colega de equipa da HERO. Joaquim Rodrigues Jr. era também cunhado de Paulo Gonçalves.

O presidente da FIM admitiu algum espanto quando se confirmou a participação de Paulo Gonçalves no Dakar de 2019. Isto porque, menos de um mês antes, o piloto da equipa HERO tinha sofrido uma queda grave em Portugal (Gonçalves estava precisamente a preparar-se para a competição que iria acontecer no Peru), o que resultou na remoção do baço.

Abílio Ribeiro [Quântica | Conteúdos]

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