Sociedade

Natalidade aumenta: em cinco anos nasceram mais 4 mil crianças

No ano passado fizeram-se mais meio milhar de “testes do pezinho” do que em 2018. É um crescimento muito ligeiro, mas os especialistas preferem destacar os últimos cinco anos, em que o aumento foi de cerca de 5% no total de nascimentos.

É uma boa notícia, apesar de saber a pouco. No ano passado, terão nascido mais de 87 mil crianças em Portugal, mais cerca de meio milhar do que em 2018, indicam os dados do Programa Nacional de Rastreio Neonatal, conhecido como “teste do pezinho”, nesta terça-feira revelados pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa), que coordena este programa. Numa análise a cinco anos, face a 2014 nasceram mais cerca 4 mil crianças no ano passado.

O aumento dos “testes do pezinho” – que constituem um indicador fiável da natalidade uma vez que cobrem a quase totalidade dos nascimentos em Portugal – foi no ano passado de apenas cerca de 0,6% quando comparado com 2018. Mas os números ficam mesmo assim já longe dos registados nos anos da crise económica e financeira — quando se chegou a um mínimo de 82.367 nascimentos em 2014, depois de cinco anos consecutivos de queda. Depois de 2014, a natalidade subiu durante dois anos seguidos, diminuiu em 2017, voltou a crescer em 2018 e tudo indica que, segundo os dados do Insa, o mesmo aconteceu também em 2019, ainda que o acréscimo tenha sido ligeiro.

“É uma boa notícia. É muito bom que nasçam mais crianças mas, em vez de natalidade, devíamos falar de fecundidade, da propensão para procriar. E não sabemos ainda se este aumento de nascimentos se reflecte num aumento da fecundidade”, comenta a presidente da Associação Portuguesa de Demografia (APD), a socióloga e demógrafa Ana Alexandre Fernandes. O que se sabe já é que os aumentos sucessivos dos nascimentos verificados nos últimos anos fizeram com que o índice sintético de fecundidade (média de filhos por mulheres em idade fértil, dos 15 aos 49 anos) subisse para 1,4 quando rondou os 1,2, em 2013 e 2014. E este aumento já é relevante, assinala a professora catedrática Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.

Os sociólogos com quem o PÚBLICO falou preferem, aliás, olhar para um período mais alargado – como os últimos cinco anos – para avaliar aquilo que está a acontecer em Portugal. E os dados indicam que, com ligeiras oscilações, tem de facto havido um crescimento sustentado desde que em 2014 a natalidade em Portugal bateu no fundo.

“São pequenas diferenças [de ano para ano], mas, quando se olha para os últimos cinco anos, há um aumento de cerca de 5% em relação a 2014. Estamos aqui a falar de uma tendência de ligeiro aumento, ainda que irregular. Apesar de tudo, isto representa uma novidade. Relativamente ao ano 2000, é a primeira vez que temos uma série de cinco anos de aumento”, destaca o sociólogo Paulo Machado.

Resta saber “quem são os pais que estão a sustentar este acréscimo”, diz. O aumento pode estar a ser sustentado pela imigração, especula, frisando que, se assim for, “estamos em linha com outros países europeus, como a França, onde o crescimento da natalidade se fica a dever em parte à população imigrante”. De facto, olhando para os dados do INE, percebe-se que em 2018 a percentagem de mães estrangeiras voltou a aumentar – era então de 10,8%, quando em 2014 tinha recuado para 8,7%, devido à diminuição da chegada de imigrantes que chegam em idades mais jovens e por isso têm mais filhos.

Níveis anteriores à crise

A presidente da APD acredita ainda que os números dos últimos anos indicam que se estará a observar uma reposição dos níveis anteriores à crise económica e financeira, em que se verificou o adiamento de nascimentos. “Tendo chegado tão baixo [como aconteceu em 2014], só podíamos crescer”, considera.

Quanto às medidas que poderão incentivar alguns casais a decidir ter filhos, os dois especialistas preferem destacar várias. Não serão, por certo, os incentivos de alguns milhares de euros dados por algumas autarquias aos casais que ali têm filhos que irão contribuir para alterar a situação. “Essas políticas têm resultados muito débeis”, sublinha Paulo Machado. “Ter uma boa rede escolar gratuita seria uma medida excelente e justa, tal como ter uma rede de transporte mais eficaz. Levar uma criança à escola num transporte público é um martírio”, afirma. “Também é necessário ter melhor habitação e apostar numa coisa que os patrões habitualmente não gostam: flexibilidade de horários”, propõe.

Ana Fernandes acredita que ter creches gratuitas seria uma medida muito importante. “Quando num país como Portugal se paga numa creche a módica quantia de 300 a 500 euros por mês e um casal tem um rendimento de 1500 euros é difícil [decidir ter uma criança]. É mais caro ter um filho numa creche do que numa universidade pública. Isto é absurdo”, enfatiza. A demógrafa advoga igualmente uma aposta maior do Estado no planeamento da localização dos jardins-de-infância e das creches para que os pais “não tenham que andar quilómetros todos os dias”.

Fonte: Público

Mostrar mais

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to top button
Close
Close