Opinião

Opinião – “Em meu Nome”: Natal e a Solidariedade

Somos um povo de grandes assimetrias e de muitos defeitos.

Há quem aponte aos portugueses defeitos como a cegueira (só vemos o que queremos ver… há quem chame a isso servilismo ou “carneirice”!), sermos opiniosos (temos sempre uma opinião sobre tudo, mesmo sobre aquilo que não conhecemos), a inveja (ai a inveja…), falarmos sobre a vida alheia e sempre mal (claro que quando morrem eram as melhores pessoas do mundo!!!), estar sempre tudo mal (desde que não sejam os outros a dizê-lo e que esses outros não sejam estrangeiros e falem mal do nosso país…), estar sempre tudo bem (quando nos referimos ao que fazemos e aos locais onde estamos, pois nós somos bons, os outros é que não prestam!) e os políticos são todos corruptos (mas se pudermos meter uma cunha para nós ou um nosso familiar, metemos!).

Apesar destes curiosos defeitos, também temos, enquanto povo, grandes qualidades. Só para que se saiba: somos acolhedores e bons anfitriões, somos tolerantes e nada racistas (há quem diga exatamente o contrário…), somos amigos de todos e de tudo, sorrimos com frequência, somos bons cozinheiros e bons embaixadores dos nossos costumes e da nossa cultura em qualquer lado, somos desenrascados (não há problema que não se arranje uma solução, mesmo que seja “martelada” – o famoso “dar um jeitinho”), quando somos bons sabemos ser os melhores dos melhores, somos prestativos e ajudamos toda a gente.

E é sobre esta última qualidade que hoje vou escrever. Não há, em nenhum lugar do mundo nenhum povo que, perante uma calamidade ou outra qualquer desgraça, se prontifique tanto e de imediato para ajudar como nós, os portugueses. Todos nós já contribuímos e, atrevo-me a dizer, mais do que uma vez, para ajudar outro povo ou para ajudar um dos nossos (a nível nacional ou a nível mais local). O português dá a sua camisa para cobrir o corpo do outro.

O Natal deve ser uma época de mais Solidariedade para com os mais necessitados
Foto: D.R

O Natal, pelos muitos séculos de catolicismo e pelo espírito de “bem” que a própria época evoca, é uma das alturas do ano em que multiplicam, triplicam, quadruplicam… as campanhas de solidariedade. Acho muito bem! Há que ajudar aqueles, que por várias razões ou vicissitudes, não conseguem ter uma vida razoável ou num patamar acima do limiar da pobreza. E em Portugal há muitos pobres! Só pessoas Sem-Abrigo (mais ou menos contabilizados) temos cerca de 4000 e mais 11 mil em risco de o ser (dados ENIPSSA 2017-2023).

O Natal é a altura em que geralmente se lembram aqueles que menos têm e os que nada têm. Continuo a dizer que concordo inteiramente com isso. Aquilo com que não concordo é que seja só nesta altura ou nesta época que as entidades, as empresas, o poder político e a sociedade civil se lembrem que esta realidade existe, que estas pessoas existem e que, apesar das estatísticas afirmarem que a pobreza e a exclusão social têm diminuído muito em Portugal nos últimos anos, não é o que quem anda no terreno vê: os pobres são cada vez mais pobres.

Para estas pessoas, Natal devia ser todos os dias. Cabe a cada um de nós fazer com que o espírito do natal solidário se prolongue nos doze meses do ano.

Aqui ficam os meus votos de Boas Festas, através da poesia de Bráulio Bessa: Natal.

Que você, nesse Natal,
entenda o real sentido
da data em que veio ao mundo
um homem bom, destemido
e que o dono da festa
não possa ser esquecido.

Vindo lá do Polo Norte
num trenó cheio de luz
Papai Noel é lembrado
muito mais do que Jesus.
Ô balança incoerente
onde um saco de presente
pesa mais que uma cruz.

Sei que dar presente é bom
mas bom mesmo é ser presente
ser amigo, ser parceiro
ser o abraço mais quente

permitir que nossos olhos
não enxerguem só a gente.

Que você, nesse momento,
faça uma reflexão
independente de crença,
de fé, de religião
pratique o bem sem parar
pois não adianta orar
se não existe ação.

Alimente um faminto
que vive no meio da rua,
agasalhe um indigente
coberto só pela lua,
sua parte é ajudar
e o mundo pode mudar
cada um fazendo a sua.

Abrace um desconhecido,
perdoe quem lhe feriu,
se esforce pra reerguer
um amigo que caiu
e tente dar esperança
pra alguém que desistiu.

Convença quem está triste
que vale a pena sorrir,
aconselhe quem parou
que ainda dá pra seguir,
e pr’aquele que errou
dá tempo de corrigir.

Faça o bem por qualquer um

sem perguntar o porquê,
parece fora de moda
soa meio que clichê,
mas quando se ajuda alguém
o ajudado é você.

Que você possa ser bom
começando de janeiro
e que esse sentimento
seja firme e verdadeiro.
Que você viva o Natal
todo ano, o ano inteiro.

Catarina Vaz – Professora

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