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Em nome das aves, cientista arrasa Estudo de Impacto Ambiental do Montijo

O investigador José Alves entregou, por iniciativa própria, parecer que denuncia um “ataque gritante” à conservação da avifauna em áreas protegidas e que terá consequências que vão muito além do Tejo.

Deficiente, desactualizado e, pior do que isso, minado de falhas e erros graves –esta é a conclusão de um cientista da Universidade de Aveiro sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do novo aeroporto do Montijo. José Alves, investigador especializado no estudo das aves que já publicou vários artigos científicos em revistas prestigiadas como a Nature ou a Science, entregou no passado dia 18, quase no final do prazo de consulta pública, um detalhado e demolidor parecer sobre o projecto que acredita que deve ser inviabilizado. Segundo conclui, o EIA não faz uma avaliação actual nem correcta dos possíveis efeitos deste projecto nas aves que vivem (ou apenas passam) nas áreas protegidas (Reserva Natural do Estuário do Tejo e Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo).

A avifauna é apenas uma das frentes avaliadas pelo EIA do Montijo. É o “anexo 6”, nota José Alves, que assina o parecer que espera que sirva para que a Agência Portuguesa do Ambiente emita uma declaração desfavorável ao projecto. Os dados e conclusões do EIA sobre as aves baseiam-se numa mera “recolha de informação bibliográfica, muito dela desactualizada e não disponível para a vasta maioria das espécies”, denuncia o investigador da Universidade de Aveiro. Um exemplo: os dados de distribuição e abundância das aves nestes locais foram recolhidos há dez ou 15 anos e não foram sequer validados. As fontes de informação (e respectivas datas de recolha de dados) são expressamente assumidas no EIA, bem como ali se admite a falta de informação para muitas espécies ou sobre eventuais factores de perturbação.

Depois, prossegue o cientista, há ainda erros na aplicação do modelo de perturbação das aves (por ruído) à situação prevista para o aeroporto do Montijo. No EIA, a estimativa apoiou-se num estudo que analisou os efeitos de um ruído emitido durante três segundos, o que claramente não vai corresponder à realidade. Falta também prever os efeitos mais abrangentes das rotas dos aviões a descolar e a aterrar nas zonas de alimentação e refúgio. Para o cálculo de uma possível zona de impacto, apenas foi considerada uma espécie (o pilrito-de-peito-preto), com base num estudo de 2002 e 2003, que não é válido para outras espécies. O resultado são estimativas “muito duvidosas e até erradas”. No que se refere a medidas de compensação, o EIA refere apenas a possibilidade da “beneficiação de habitat em zonas de refúgio”. É preciso muito mas do que isso, diz José Alves, sublinhando que o documento se limita a considerar (e com erros e falhas) duas ameaças à avifauna: a perturbação pelo ruído e a mortalidade por colisão com aeronaves.

José Alves estuda as aves migradoras há 15 anos no estuário do Tejo, mas também no Árctico e na África Ocidental. “Um ataque tão gritante à sua conservação (consagrada na lei) não pode ser assente apenas em decisões políticas que se prendem com a ideia de que o crescimento económico justifica tudo ou quase tudo”, argumenta ainda. O cientista deixa ainda um desafio aos decisores políticos que têm levantado a bandeira da sustentabilidade e protecção do ambiente: “Nós temos o privilégio de ser os cuidadores deste planeta durante os poucos anos que aqui estamos e podemos decidir deixar os ecossistemas naturais em melhor estado do que os encontramos ou em pior estado, sendo que, na segunda possibilidade que infelizmente tem prevalecido na larga maioria dos casos, quem irá pagar as contas do nosso ‘crescimento económico’ são as gerações futuras, pelo menos até enquanto houver ‘crédito’.”

Fonte: Jornal “Público”

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