Ribatejo

Ambiente: olhar para o rio Sorraia como um exemplo de corredor ecológico

Na semana que antecede a Cimeira das Nações Unidas dedicada às alterações climáticas que se verificam em todo o Mundo, o “Ribatejo News” vai continuando a publicar um conjunto de trabalhos jornalísticos dedicados a este tema. Para que os nossos leitores compreendam que é necessário agir rapidamente em defesa do Planeta Terra.

Este artigo da bióloga Sandra Oliveira Alcobia, dedicada á importância e preservação dos corredores ecológicos serve para alertar para os problemas ecológicos que têm vindo a afectar o rio Sorraia. O maior afluente do rio Tejo.

Numa altura em que as Nações Unidas se preparam para discutir a problemática das alterações climáticas, em Coruche e Benavente luta-se para salvar o rio Sorraia da “praga” de jacintos Foto: José Peixe/D.R

Sabe-se que as explorações agrícolas sejam elas ou não intensivas, conduzem a grandes alterações no ecossistema, na grande maioria das vezes com profundos impactos negativos. O corte de áreas extensas de florestas quer para produção de madeira quer para promoção de monoculturas ou pastagens levaram a uma homogeneização e simplificação da paisagem (Angelsen & Kaimowitz, 2001) em nada benéfica para a conservação dos ecossistemas naturais, empobrecendo a qualidade quer dos solos quer das águas.

A degradação e perda do habitat natural que fornecia alimento e abrigo, conduz à fuga de inúmeras espécies de aves, mamíferos, répteis, anfíbios e peixes procurando locais onde se possam estabelecer de novo. Acredita-se que, quer os diferentes habitats afectados quer as espécies que neles se encontram diminuirão a sua capacidade de resiliência potenciando deste modo o efeito das alterações climáticas que poderão levar, por sua vez, a profundos impactos socio-económicos (Kettunen, et all, 2007).

No entanto, a existência de uma população cada vez mais sensibilizada para a conservação dos recursos naturais tem vindo a exercer uma forte pressão para que soluções sejam encontradas, de modo a inverter a exploração negativa que se tem observado um pouco por todo o planeta e onde o Ribatejo não é excepção.

Uma imagem que demonstra a beleza de um rio que quer voltar a ter vida Foto: José Peixe/D.R

Neste sentido, a importância da conectividade entre parcelas de habitat e as espécies que nelas ocorrem são amplamente reconhecidas. A execução de esforços que permitam manter e melhorar a conectividade ecológica entre parcelas, que permitam apoiar a suficiência, coerência e resiliência das espécies é cada vez mais utilizada como medida de mitigação do impacto causado pelo sector agroflorestal (Kettunen, et all, 2007).

É neste contexto que a actual tendência da exploração agrícola e de recursos naturais procura o estabelecimento de uma relação entre a produção e a conservação da biodiversidade onde, gestores agrícolas e florestais em conjunto com conservacionistas trabalham para a obtenção de uma exploração sustentável, surgindo o conceito de “corredor ecológico”.

Este conceito tem vindo a ser amplamente promovido como forma de mitigar o impacto causado pela fragmentação de habitat em áreas agrícolas, aumentando o valor da conservação e conectividade (Harvey et al., 2008).

Que bom seria ver mais embarcações destas nas margens do rio Sorraia Foto: José Peixe/D.R

Um corredor ecológico não é mais do que uma faixa de vegetação onde o habitat permite criar a ligação entre populações que foram separadas por diversas actividades humanas, quer se trate de áreas agro-silvo-pastoris, ou de estradas ou infraestruturas que interrompam a continuidade do seu habitat natural conduzindo á perda da capacidade de explorar todos os recursos da qual necessitam para a sua sobrevivência (Mech & Hallett, 2001).

Os corredores ecológicos facilitam a deslocação das espécies permitindo a troca genética e a dispersão de sementes. Podem ser implementados em duas áreas distintas, água ou terra, geralmente com restauro ecológico de linhas de água e plantação e protecção de áreas verdes arborizadas formando um corredor contínuo

O rio Sorraia e os Corredores Ecológicos

O rio Sorraia representa um exemplo de corredor ecológico, funcionando como tal, na medida em que estabelece uma ligação entre zonas de Cabeção e Mora até à ponta da erva onde desagua no rio Tejo, sendo por isso urgente o planeamento de acções de restauro ecológico ao longo deste sistema.

Um exemplo que um corredor ecológico que deve ser preservado Foto: José Peixe/D.R

A percepção de que as paisagens agrícolas podem ser geridas em equilíbrio com a biodiversidade, com efeitos neutros ou mesmo benéficos para a produção, levam à procura das melhores soluções adaptando, protegendo e gerenciando diversos tipos de paisagem “ecoagrícolas” gerando benefícios quer para a produção, quer para a biodiversidade (Scherr & McNelly, 2009), Acções de remoção de infestantes, aquáticas ou terrestes (como o jacinto de água, silvados e caniçais) com substituição por vegetação ribeirinha autóctone que forneça abrigo e alimento à fauna (pilriteiros, madressilvas, salgueiros, freixos e amieiros são exemplos de plantas que poderão ser estabelecidas, de acordo com as diferentes características ao logo do rio) que permita o desenvolvimento de galerias ripícolas, ou acções que previnam o assoreamento do rio (como o controlo da construção de diques artificiais) contribuirão, para um maior controlo natural de invasoras e restabelecimento da qualidade de água com consequente beneficio para a fauna.

Um corredor ecológico com a dimensão do rio Sorraia e seus afluentes pode ainda representar potenciais serviços de regulação, como o sequestro de carbono tão importante no combate ao aquecimento global, e culturais, como o ecoturismo ou práticas desportivas.

Para além de ser o maior afluente do Tejo o rio Sorraia é sem dúvida um dos rios mais interessantes de Portugal Foto: José Peixe/D.R

A possibilidade de restaurar um sistema aquático que nos traga todos estes benefícios e novas perspectivas de exploração sustentável, sem que para isso tenham de ser abandonadas as práticas agrícolas mas antes adaptadas à nova realidade que enfrentamos, são argumentos de peso na tomada de decisão orçamental de algumas instituições portuguesas que começam já a estabelecer estas medidas de mitigação ao impacto causado pelos sistemas agro-silvo-pastoris.

Exemplos destas acções são, a pequena escala a Companhia das lezírias que adoptou já este conceito na sua gestão florestal desde 2009, Montemor-O-Novo juntamente com a Universidade de Évora com a criação de um corredor ecológico entre Montemor e Évora ao longo da Nacional 114 ou a cooperação entre Olivicultores e o LIFE Habitat Lince Abutre que permitiu a criação de mais de 55 hectares de corredores ecológicos.

Sandra Oliveira Alcobia – Bióloga

Publicado na página “Juntos Pelo Sorraia” – Benavente

A bióloga Sandra Oliveira Alcobia tem sido uma das pessoas que mais tem colaborado para a limpeza do rio Sorraia Foto: D.R
Referências Bibliográficas
Angelsen, A. & Kaimowitz, D. (eds) 2001 Agricultural technologies and tropical deforestation. Wallingford, UK: CABI Publishing.
Harvey, C. A., Komar, O., Chazdon, R., Ferguson, B. G., Finegan, B., Griffith, D. M., et al. (2008). Integrating agricultural landscapes with biodiversity conservation in the Mesoamerican hotspot. Conservation Biology: The Journal ofthe Society for Conservation Biology, 22(1), 8–15.http://dx.doi.org/10.1111/j.1523-1739.2007.00863.x
Kettunen, M, Terry, A., Tucker, G. & Jones A. 2007. Guidance on the maintenance of landscape features of major importance for wild flora and fauna – Guidance on the implementation of Article 3 of the Birds Directive (79/409/EEC) and Article 10 of the Habitats Directive (92/43/EEC). Institute for European Environmental Policy (IEEP), Brussels, 114 pp. & Annexes.

 

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