Ribatejo

Praga de Jacintos: Não podem nem devem utilizar herbicidas no rio Sorraia

Os jacintos de água doce têm merecido algum destaque nos órgãos de comunicação social na última semana. Uns especulam apenas e só para conquistar audiências. Outros fazem questão de escutar pessoas que apenas querem aparecer para as televisões. E os menos esclarecidos até falam em utilizar herbicidas para acabar com os jacintos de água no Sorraia. Como se uma praga ambiental pudesse ser combatida com uma “bomba química”. Enfim… No Comment.

Já aqui escrevemos e voltamos a repetir que o rio Sorraia é um corredor ecológico que serve de habitat a muitas espécies e não pode ser encarado como um canal de rega.

Por isso, em vez de entrar no circo mediático montado em torno da praga desta planta que foi trazida da América do Sul, o “Ribatejo News” optou por escutar Francisco Oliveira, presidente da Câmara Municipal de Coruche, que tem ideias muito claras como deve ser combatida esta praga que está a tirar vida ao maior rio ribatejano: o Sorraia.

O rio Sorraia deve ser protegido porque é um ecossistema que reúne características muito especiais
Foto: M.T/D.R

“As pessoas não devem aproveitar-se desta catástrofe que tem vindo a afectar o rio Sorraia nos últimos anos, apenas e só para aparecerem nas televisões e jornais. Esta praga só atingiu este níveis porque as condições climatéricas assim o proporcionaram. Mas para terminar com os jacintos no Sorraia deve apostar-se numa monitorização rigorosa a partir de agora e durante todo o ano. Não é só agora!”, afirmou ao “Ribatejo News”, o autarca de Coruche.

Mas Francisco Oliveira vai mais longe nos seus comentários: “Está completamente afastada de combater esta praga recorrendo a herbicidas. Isso seria catastrófico para todo o rio e para o próprio estuário do Tejo que é uma reserva natural património da humanidade. Por agora devemos apostar na limpeza recorrendo a meios mecânicos. E depois deve procurar-se a melhor solução para monitorizar o Sorraia, durante todo o ano e da nascente (junção das rias de Sôr e Raia) em Santa Justa (Couço) até à Ponta D’Erva”.

“Tenho dito várias vezes e há muito tempo que o Sorraia é um ecossistema que deve ser preservado, pois tem características ecológicas muito especiais. O rio deve ser encarado como um imenso corredor ecológico, pois ele serve de habitat a muitas espécies. Por isso essa hipótese de utilizar herbicidas para matar os jacintos de água seria uma opção catastrófica!”, disse Francisco Oliveira ao “Ribatejo News”.

Recorrer à luta química para combater os jacintos de água no Sorraia é um absurdo

Numa reportagem editada hoje no “Notícias do Sorraia”, o Eng.º José Núncio, da Associação de Regantes do Vale do Sorraia, confrontado sobre a praga dos jacintos de água que estão a tirar vida ao rio Sorraia afirmou o seguinte: “Temos que olhar possivelmente para a luta química e para a luta biológica, temos que combater com as armas todas uma praga como esta…”.

Só que José Núncio deve ter consciência que no dia 26 de Janeiro de 2017, numa reunião do Conselho de Ministros, o Governo proibiu o uso de herbicidas e pesticidas nos espaços públicos. Só para que conste.

Pode ler-se no “Notícias do Sorraia” que “Os agricultores do Vale do Sorraia são dos principais beneficiários da água do rio Sorraia, e nos últimos meses a preocupação destes com a praga de jacintos de água que se tem manifestado nos troços do rio, tem levado a Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sorraia a um trabalho longo e moroso, na remoção de grande parte dos jacintos de água existentes no leito do Sorraia”.

Deve apostar-se na limpeza recorrendo a meios mecânicos e mais tarde apostar numa monitorização do rio
Foto: A.S/D.R

Mas é preciso esclarecer que nos últimos anos não se tem apostado numa limpeza minuciosa do rio Sorraia. Os jacintos de água foram removidos apenas e só em algumas parcelas do rio, com o objectivo de ir buscar água para suportar as regas de uma agricultura cada vez mais intensiva.

E os jacintos de água que estão a ser removidos na região da Barrosa (Benavente) são plantas enormes e que se multiplicam a uma velocidade alucinante, porque alguns nutrientes utilizados nos arrozais, searas de tomate e milho vão parar ao Sorraia e isso faz com que esta praga progrida rapidamente.

Como a maioria dos jornalistas não é da região e desconhece muitos factos anteriores a este “circo mediático” sobre os jacintos de água, seria importante chegar à conversa com Joaquim Madaleno, director executivo da Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (ABLGVFX). Provavelmente ele terá muita coisa para contar.

E os técnicos da Associação Portuguesa do Ambiente (APA) que deram autorização para construir um açude no rio Sorraia a montante do Porto Alto, também deviam assumir as suas responsabilidades em todo este processo.

A produção de arroz, tomate, milho, melão, pimentos e melancia é extremamente importante para a economia nacional, mas todos nós sabemos que os rios não devem ser cortados da forma como o Sorraia foi. Existem outras alternativas aos açudes. A engenharia hidráulica portuguesa é brilhante nesta matéria.

José Peixe – Jornalista e Editor do “Ribatejo News”

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Comentários

    1. Provavelmente sim meu caro Manuel Abade, mas o mais importante é monitorizar o rio permanentemente e não o utilizar apenas e só como um canal de rega. Agradeço a tua participação. J.P

      1. Meu caro o rio Sorraia não é o canal de rega, o canal de rega é outro.
        Quanto ao que é afirmado muitos disparates têm sido ditos, o principal problema reside na falta de cheias e nos disparates que ao longo de anos têm sido efectuados. O estudo do jacinto já vem dos anos 70 quando uma equipe chefiado pelo o Eng. Dionísio Leitão, efectuou diversos ensaios aqui no Sorraia, o 1 despacho de proibição de importação dos ditos foi o único que o Prof. Ferrão quando ministro da agricultura fez.
        Quanto a proibição da utilização de herbicidas em espaços públicos, só contaram para vossemecê pois as câmaras continuam a utilizar o glifossato.

        1. Caríssimo eu conheço muito bem o canal de rega. Uma obra formidável. Mas a verdade é que nos últimos anos a maioria dos agricultores só olham para os rios como se eles fossem apenas e só um canal de rega. Você sabe que não. Mas de qualquer das formas, aconselho-o a ler uma obra interessante de Maria da Graça Amaral Neto Saraiva: “O rio como paisagem : gestão de corredores fluviais no quadro do ordenamento do território”. Professora Associada da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa e Investigadora do Centro de Sistemas Urbanos Regionais do Instituto Superior Técnico critica o facto de as pessoas não serem ouvidas antes de serem tomadas decisões que afectam as suas vidas. E a verdade é que quando cortaram o Sorraia, apenas ouviram o parecer dos técnicos da Associação Portuguesa do Ambiente (APA). E as associações e movimentos de cidadãos, nomeadamente os “Juntos pelo Sorraia”?
          Não me diga que você também acha correcto que se corte o rio da forma como fizeram?
          Sabe meu caro, podem ser escritos alguns disparates, mas se não houvesse a Liberdade de Expressão, não havia jornalistas livres para poder publicar sobre muitos outros disparates que vão sendo feitos diariamente neste país. O “RiabatejoNews” (nem nenhum outro órgão de comunicação social!) é dono da verdade. Mas no momento em que construíram aquele “mamarracho” próximo do Porto Alto nós estivemos lá e denunciamos. E na manhã em que tomaram a iniciativa de abrir o rio também. E escrevemos, fotografamos e filmamos. Isso deixou muita gente incomodada. E porquê? Porque se acostumaram a cortar o rio Sorraia quando bem lhes apetece.
          Bem sei que a maioria da legislação no Hemiciclo de São Bento não é respeitada. Mas posso dizer-lhe que em Janeiro de 2017 o Conselho de Ministros decidiu proibir a utilização de herbicidas em espaços públicos. Ponto final.
          Também sei que ainda existem muitos municípios e juntas de freguesia a utilizar o glifossato e outros produtos químicos, mas os iluminados da APA que investiguem. O SEPNA que actue. Agradeço a sua colaboração.JP

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