Opinião

“Pega de Caras”: O rio Sorraia deve ser protegido como um ecossistema e não deve ser utilizado como um canal de rega

Há muitos anos que o rio Sorraia tem vindo a ser utilizado pela Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (BLGVFX) (e não só!) como um canal de rega para as searas de arroz, tomate e milho.

No dia 16 de Julho o director executivo da Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira, Joaquim Madaleno, em declarações ao jornal “Público”, justificava o corte do rio Sorraia da seguinte forma: “a criação deste açude no Sorraia é a única opção para evitar a perda das culturas feitas, em Março e Abril, nos mais de 10 mil hectares da Lezíria Grande – uma das zonas mais produtivas do país, onde actuam cerca de 170 empresas agrícolas e trabalham cerca de 2 mil pessoas. A partir do início de Maio, a ABLGVFX, que gere o Aproveitamento Hidroagrícola da Lezíria Grande, dotado dos mais modernos equipamentos de monitorização, percebeu que a cunha salina (zona onde a água salgada do Atlântico se mistura com a água doce do Tejo) já subia muito para Norte, ultrapassando mesmo a Estação do Conchoso, que é a infra-estrutura de captação situada mais a Norte do curso do Tejo. A opção foi, nessa altura, tentar captar alguma água no rio do Risco, que liga o Tejo ao Sorraia, mas essa solução não é suficiente para as necessidades e a Associação de Beneficiários articulou com a APA um pedido de licenciamento da interrupção do curso do Sorraia, para criar uma zona de retenção de água utilizável na rega”.

O problema é que o rio Sorraia não é propriedade do senhor Joaquim Madaleno nem da Associação de Beneficiários da Lezíria Grande e Vila Franca de Xira (ABLGVFX). O rio Sorraia é um património hidrográfico que pertence a todos os portugueses. Ponto final parágrafo.

Mas o senhor Joaquim Madaleno optou por efectuar a obra mais fácil e menos dispendiosa para a ABLGVFX, mesmo sabendo que à posteriori podiam advir muitos problemas ambientais e ecológicos para o próprio rio Sorraia, a Reserva Natural do Estuário do Rio Tejo (RNET) e o próprio rio Almansor. Tenho a certeza que Joaquim Madaleno sabe que existem outras alternativas sem ser a de construir um açude no próprio Sorraia.

Só que Joaquim Madaleno foi muito esperto e contou com a cumplicidade de alguns técnicos da Associação Portuguesa do Ambiente (APA), que foram cúmplices em tudo o que foi feito e está a acontecer neste momento nos rios Sorraia e Almansor. Mas também na Reserva Natural do Estuário do Rio Tejo.

E neste momento procuram limpar as mãos como Pilatos, não aparecendo na praça pública a admitir que a construção do açude no rio Sorraia (pela terceira vez!) correu muito mal e é preciso assumir as responsabilidades do que se está a passar.

Quanto ao senhor ministro do Ambiente, Matos Fernandes tem andado mais ocupado (e preocupado!) com a greve dos motoristas de matérias pesadas do que com os problemas ambientais que existem em Portugal. Provavelmente, Matos Fernandes nunca teve o privilégio de admirar o rio Sorraia. Enfim…

Se Portugal fosse um país do Norte da Europa, o que se está a passar no Rio Sorraia, provavelmente já tinha ocorrido alguns processos disciplinares na APA, o ministro do Ambiente já tinha vindo ao terreno inteirar-se do que se está a passar e a Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (BLGVFX) já tinha um processo judicial pela frente.

Mas como somos um povo sereno e de brandos costumes, toda a gente se cala e não acontece nada.

O senhor presidente da Câmara Municipal de Benavente, Carlos Coutinho, em declarações à Agência Lusa, fez questão de dizer “que não se pode dizer que foi um açude que potenciou esta situação” catastrófica que está a causar problemas ambientais nos leitos dos rios Sorraia e Almansor, mas no próprio estuário do Tejo.

Será que Carlos Coutinho alguma vez escutou a bióloga que trabalha no município? E outros técnicos entendidos em problemas ecológicos e ambientais? Ou decidiu ouvir o parecer da associação “Juntos pelo Sorraia”? Dá para perceber que não.

Neste momento anda toda a gente preocupada com os incêndios na Amazónia. Para vos ser sincero eu estou mais preocupado com o que se está a passar nos rios Sorraia e Almansor. Muito preocupado mesmo. Porque para além de ser cidadão e jornalista, sempre fui um ambientalista ferrenho.

Mas o Sorraia (nem nenhum rio em Portugal) são propriedade da Associação Portuguesa do Ambiente (APA). Isso que fique muito claro. Por isso mesmo, antes de darem luz verde à Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (BLGVFX) os técnicos da APA deviam deslocar-se ao terreno e ouvir as populações, especialmente os grupos ambientais.

Os especialistas da APA sabem melhor do que ninguém (ou deviam saber!) que existem muitas alternativas à construção do açude.

Veja-se este exemplo no Lagar do 25, entre as aldeias de Valongo e Troviscais Cimeiros, a ribeira de Frades tem salgueiros e cheira a erva cidreira. Começou ali um olhar novo sobre técnicas antigas de cuidar dos rios e ribeiras.

Quero deixar bem claro neste artigo de opinião que o Rio Sorraia é um Ecossistema e deve ser protegido como tal. Não podem nem devem utilizar o Rio Sorraia apenas e só como um canal de rega, como têm feito até agora.

O rio Sorraia é um Ecossistema e não um canal de rega
Foto: José Peixe/D.R

O senhores da Associação Portuguesa do Ambiente, o director executivo da Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (BLGVFX), Joaquim Madaleno e o senhor presidente da Câmara Municipal de Benavente, Carlos Coutinho, devem ficar conscientes disso mesmo. O Rio Sorraia é um Ecossistema. Um habitat único para muitas espécies que encontram ali um refúgio.

O rio Sorraia alberga um conjunto de seres vivos e do meio ambiente em que eles vivem, e todas as interacções desses organismos com o meio e entre si. Daí eu afirmar que é um ecossistema. Um habitat para muitas espécies que correm o perigo de extinção. A própria camada ao redor da Terra onde vivem todos os organismos vivos, chamada de biosfera, é considerada por alguns cientistas um único e enorme ecossistema.

Para que não restem dúvidas do que é um ecossistema
Imagem: D.R

Os ecossistemas apresentam dois componentes básicos: as comunidades vivas (biótico) e os elementos físicos e químicos do meio (abiótico). A parte biótica é formada por plantas, animais e micro-organismos. A porção abiótica é o conjunto de nutrientes, água, ar, gases, energia e substâncias orgânicas e inorgânicas do meio ambiente. Os ecossistemas são subdivididos em pequenas unidades bióticas, conhecidas como comunidades biológicas. São compostas de duas ou mais populações de espécies interdependentes, como, por exemplo, o conjunto da flora e fauna de um rio como o Sorraia.

As grandes comunidades biológicas do planeta, como a floresta Amazónica e a tundra ártica, são também chamadas de biomas.

O Rio Sorraia é um Ecossistema em risco. Não só porque existe uma invasão anormal de jacintos de água, mas também porque as entidades competentes não se têm interessado pela defesa deste habitat especial que acolhe tantas espécies.

José Peixe – Jornalista e Editor do “Ribatejo News”

 

 

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