Benavente

Afinal os repórteres da Agência Lusa confirmam mesmo que o Sorraia está intransitável

Há dois dias quando o “Ribatejo News” denunciou publicamente que a abertura do dique no Sorraia (Porto Alto) estava a provocar uma catástrofe ambiental no rio que é um dos maiores afluentes do Tejo, algumas pessoas tentaram remar contra a maré, dizendo que se tratava de uma fotomontagem e de um sensacionalismo exagerado por parte do editor deste periódico digital.

O senhor presidente da Câmara Municipal de Benavente, Carlos Coutinho, sentiu-se ofendido pelo que publicamos no “Ribatejo News”. Mas enquanto cidadão e jornalista profissional, não podia nem devia deixar passar em branco o comunicado que que foi publicado no site do município, a dizer que um drone não tinha filmado nenhum vestígio de jacintos no rio, em finais de Julho, desde o açude até Benavente.

Pois isso é mentira. Em finais de Julho tivemos o privilégio de descer o rio Sorraia até ao açude que foi construído pela Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (ABLGVFX) e fizemos alguns vídeos e centenas de fotos que já faziam adivinhar o que iria acontecer.

Já no dia 20 de Agosto o jornal “Público” dava conta do problema relacionado com os jacintos de água doce.

E tal como fizemos questão de dizer à assessora do presidente Carlos Coutinho, teremos muito gosto em mostrar esses vídeos e as fotografias que fizemos nessa altura.

O rio Sorraia nas proximidades do Calvário, em Benavente
Foto: José Peixe/D.R

Aliás, logo na zona do Calvário já existem jacintos de água desde finais de Junho e que ainda lá permanecem, dificultando a navegação. E ontem, voltamos ao Sorraia nessa zona não muito distante da Câmara Municipal e lá estavam as plantas invasoras de que tanto de fala ultimamente.

Pois bem, hoje a Agência Lusa escreve que “o Rio Sorraia está instransitável devido a “manto verde” que vai demorar a desaparecer.” Ou seja, as fotos que o “Ribatejo News” publicou na quinta feira retratavam mesmo uma catástrofe ambiental.

Mas veja-se bem o que escreveram os repórteres da Agência Lusa, para que não restem dúvidas:

Redes de pesca presas e um rio intransitável devido à praga de jacintos de água são as principais queixas dos pescadores que retiram sustento do rio Sorraia, um problema que tem solução à vista, mas que não será imediata.

“Conheço o rio há 50 e qualquer coisa anos. Sempre usufruí do rio tanto na pesca como no lazer”, contou à Agência Lusa um dos fundadores do movimento “Juntos pelo Sorraia”, Alberto Santos.

Como é que o drone da Câmara Municipal não registou esta imagem? Fica bem próximo da própria Câmara
Foto: José Peixe/D.R

A fauna e a flora deste rio, entre Coruche e Benavente, no distrito de Santarém, estão a ser afetadas por uma praga de jacintos de água, fenómeno que Alberto Santos relaciona com o abandono do Sorraia ao longos dos anos e com o “bloqueio do rio”.

Em 24 de Julho foi construído um açude no rio Sorraia devido à necessidade de se criar uma represa com água doce porque a produção agrícola naquela zona estava em risco por as águas apresentarem um elevado nível de salinidade.

“Os jacintos que era suposto, com as marés, irem para o mar, começaram a ficar acumulados juntos a este dique que fizeram”, lamentou o membro do movimento cívico.

Mais uma imagem que dispensa comentários e que foi tirada em finais de Julho
Foto: José Peixe/D.R

O açude foi, entretanto, desmantelado causando o arrastamento de uma parte destas plantas infestantes.

Os pescadores que vivem junto à margem do Sorraia, na vila de Porto Alto, no concelho de Benavente, partilham da opinião de Alberto Santos e sublinharam que esta praga tornou impraticável a navegação pelo rio.

As redes de pesca ficaram presas, dificultando o trabalho destes profissionais, que preferiram não se identificar, e que vincaram que têm passado grande parte do tempo a retirar os jacintos de água que ficaram agarrados.

Através de uma viagem de barco, a Lusa constatou que existem milhares destas plantas infestantes ao longo do rio, que cobrem quase toda a superfície do Sorraia e dificultam a travessia.

Mais uma fotografia que os especialistas da Associação Portuguesa do Ambiente devem ver que a esta praga existe e está a liquidar o Sorraia
Foto: José Peixe/D.R

“Juntaram-se ali alguns quilómetros de jacintos. Foi uma massa enorme de jacintos que foi libertada [pelo desmantelamento do açude] sem qualquer tipo de controlo”, criticou Alberto Santos.

Apesar de considerar que o movimento “Juntos pelo Sorraia” também deve ser ouvido na tomada de decisões, Alberto Santos considera que o “que importa mesmo é que se arranje uma solução para o problema”, que não é apenas dos pescadores.

“Há zonas onde os jacintos já impossibilitam alguma captação de água para a agricultura”, vincou.
Questionados pela Lusa sobre qual seria a solução para este problema, os pescadores do Sorraia apontaram “uma barreira” que pudesse juntar as plantas numa das margens.

Já o membro do movimento cívico é a favor da retirada dos jacintos, mas diz que tem de ser mais regular: “Não é com limpezas pontuais que se resolve o problema. Tem de se ter um braço forte. O rio não pode ser deixado à sua sorte por dois, três ou quatro anos.”

O presidente da Câmara Municipal de Benavente, Carlos Coutinho (CDU), afirmou à Lusa que não se pode dizer que foi “um açude que potenciou” esta situação.

“Esta praga de jacintos não é nova, é uma situação que já está introduzida no país há algum tempo”, explicou, acrescentando, contudo, que agora é “de grande urgência”.

Carlos Coutinho salientou que “um pequeno foco de jacintos” consegue multiplicar-se em pouco tempo e, em duas semanas, o rio está “cheio de jacintos”.

Por essa razão, remover estas plantas não tem um prazo definido: “Seguramente irá levar semanas, meses, para conseguirmos fazer esta remoção”.

“Estaremos a falar seguramente, para termos uma ideia, de mais de um milhão de metros cúbicos de jacintos que estarão a cobrir o rio nesta altura”, explicitou o autarca.

De acordo com o Plano de Remoção do Jacinto de Água do Rio Sorraia, a que a agência Lusa teve acesso, um só exemplar consegue produzir entre 50 a 70 novos jacintos “em apenas um mês”.

Para o presidente da Câmara de Coruche, Francisco Oliveira (PS), o fenómeno “tem a ver com o clima de seca ou, pelo menos, de menos caudal”, e que “é propício ao desenvolvimento desta planta”.

Antes de escrever comunicados é melhor tentar navegar pelo rio Sorraia
Foto: José Peixe/D.R

A remoção dos jacintos deverá começar em 27 de agosto e a intervenção vai ser tutelada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

“No imediato vai haver uma intervenção musculada para aquelas zonas que têm mais a propagação do jacinto de água”, disse o autarca socialista.

Para o efeito, o plano de remoção destas plantas prevê a utilização de uma ceifeira aquática, duas giratórias, duas embarcações “com um a dois técnicos para remover manualmente as plantas presas na vegetação” e duas máquinas retroescavadoras “para apoio na margem”.

Durante a intervenção também vão ser instaladas quatro “barreiras de contenção” destas plantas infestantes.

Reconhecendo as críticas apontadas pelo movimento “Juntos pelo Sorraia” em relação à periodicidade na remoção destas plantas, Francisco Oliveira referiu que “não se pode fazer uma intervenção pontual, à semelhança daquilo que se tem vindo a fazer nos anos anteriores”.

“O objetivo é que possamos usufruir e fruir do nosso rio sem que tenhamos este problema de nos confrontar com este manto verde que cobre o nosso rio Sorraia, numa extensão muito grande”, finalizou.

José Peixe – Jornalista e Editor do “Ribatejo News”

 

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