Opinião

Opinião – Em meu nome… “Os meus, os Teus, os Nossos e… as férias!”

Há uma expressão que se utiliza muito no nosso país, “uns são filhos, outros enteados”, para designar a diferença de tratamento entre pessoas, mas hoje vou utilizá-la para falar do puzzle de afectos que são hoje as famílias portuguesas.

O conceito de família em Portugal tem vindo a ser alterado ao longo dos tempos. Hoje a família tradicional deu lugar a outras formas de família, nomeadamente, a famílias monoparentais e a famílias reconstituídas. Em 2011 as famílias reconstituídas ou recompostas, que resultam de segundas uniões e em que existem filhos não comuns (na sua maioria do elemento feminino do casal) já eram 6,6% (fonte INE) dos casais com filhos.

Na grande maioria destas famílias reconstituídas acabam também por existir, pelo menos, um filho em comum. Imaginam a confusão que é um casal recém formado, iniciar o seu relacionamento com a “bagagem” dos filhos de cada um? Na realidade não constitui um peso tão grande assim, apenas é uma adaptação maior a uma família constituída em moldes diferentes e em que cada elemento do casal representa papéis múltiplos de parentalidade.

Para além do ajustamento a um novo companheiro(a) existe uma ambiguidade na definição dos novos papéis, com disputas de autoridade e de poder; conflitos e dificuldades de relacionamento; dificuldades de estruturação de sentimentos, de identidade e de pertença…

A mudança nem sempre é fácil, mas a adaptação à “nova” família acaba por se fazer (melhor ou pior consoante os casos), com um reboliço constante entre casas de pai e mãe…fazer mochila, desfazer mochila… arrumar os pertences, desarrumar pertences… encaixar o que se pode ou não fazer em casa de cada um dos pais… lembrar as regras da casa da mãe e não esquecer as regras da casa do pai… estabelecer novas redes sociais… lidar com o sentimento de culpa e com o ciúme…

E quando chegam as férias, como se desenrola esta alteração aos hábitos ditos quotidianos e já estabelecidos?

A maioria da regulação das responsabilidades parentais já estabelecem períodos, mais ou menos flexíveis, sobre o tempo que as crianças passam com cada um dos progenitores. Mas quem trabalha com processos de promoção e proteção de crianças sabe que, na sua maioria, estes períodos raramente são cumpridos, umas vezes por conveniência de ambos os pais ou porque é mais um motivo para litigar com o ex-companheiro(a).

Sei de alguns casos em que o imcumprimento do que está regulado se prende com questões económicas (o não receber a pensão de alimentos nessa altura) e em que depois de acertado o período de férias o pai ou a mãe alteram o estabelecido para criar confusão ou recusam pagar a pensão porque a criança está em sua casa no período de férias.

Também conheço casos em que um dos progenitores só deixa a criança ir passar férias com o outro se existir algum ganho económico com a situação e acabam por o conseguir, pois alguns pais vêem os filhos como um bem…

Existem igualmente aqueles pais que os filhos que têm da outra união constituiem realmente um fardo e que depois de acertarem o período de férias os entregam a outros familiares ou os deixam com o outro progenitor, pois as férias com a actual família são muito mais importantes e os filhos das outras relações atrapalham!

Mas como nem tudo é mau, uma boa parte das famílias reconstituídas aceita os filhos do outro como “quase seus”, ou seja, amam primeiro os seus, mas mesmo logo a seguir vêm os do(a) companheiro(a) e, se existir um em comum, esse vem sempre em primeiro lugar.

Naturalmente, que isto nunca é assim tão linear e há famílias reconstituídas que são verdadeiras alcateias.

Termino parafraseando Buda: “A família é o lugar onde as mentes entram em contato entre si.

Se essas mentes amam umas as outras, o lar será tão bonito quanto um jardim florido. Mas se essas mentes entrarem em desarmonia umas com as outras, será como uma tempestade que destrói o jardim.”

Catarina Vaz – Professora

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