Opinião

Em meu nome: As férias ou “il dolce far niente”

Agosto é, por eleição ou imposição, o mês em que mais portugueses estão de férias.

É um tempo de lazer, em que os horários deixam de existir e todos nos dedicamos às festas, aos encontros com amigos e familiares, bem como a dormir muito e a comer ainda mais.

É o mês em que fazemos aquela viagem que há muito sonhávamos ou fazemos umas férias neste ou naquele local para mostrarmos aos amigos e vizinhos que também nós fazemos férias na praia ou noutro local qualquer que eles já foram ou gostavam de ir!

Férias são sinónimo de “dolce far niente”, ou seja, de descanso, de fugir ao rotineiro (achamos nós…), de conhecer novas pessoas e de ter novas aventuras.

Sempre considerei as férias como um tempo de acalmia entre as minhas obrigações profissionais e uma pausa nas relações sociais comuns do meu dia-a-dia, saindo do local onde estou durante todo o ano e indo para outro que faz parte das minhas raízes.

Férias são sinónimo de “dolce far niente”, ou seja, de descanso, de fugir ao rotineiro, de conhecer novas pessoas e de ter novas aventuras

Reencontrar velhos amigos, ir à praia, almoçar com os meus pais, participar em almoços e jantares improvisados em casa deste ou daquele, visitar a família mais chegada, dizer à minha mãe “vou ali, volto já” e regressar cinco horas depois porque me perdi na conversa ou o carro levou-me para locais que já não visitava há muito, participar nas festas religiosas e pagãs das aldeias onde cresci…

Não sou apologista de férias com horários para isto ou para aquilo. Isso não são férias, são excursões planeadas que se podem fazer em qualquer altura do ano. “Il dolce far niente” tem aquele alor da preguiça, em que quase temos de pedir licença a uma perna para mover a outra! Tem um sabor açucarado dos dias que passam devagar e sem grande alvoroço. Exatamente o contrário da maioria das férias dos portugueses!

Quando observo as famílias que vão chegando ao areal da “minha” praia, esboço quase sempre um sorriso, não por maldade ou indulgência, mas por achar caricatos alguns aspectos: desde a lancheira e sacos que acondicionam os laches e almoços, aos muitos chapéus de sol para não se queimarem (quando passam a maior parte do tempo em jogos ou no mar ou na toalha a secarem) até aos para-ventos, colchões e brinquedos!

Tem de haver uma grande logística para preparar isto tudo antes e para arrumar tudo depois. O stress começa logo aí!

E enquanto leio um livro, deitada na minha toalha, vou absorvendo outros aspectos que me fazem pensar no quanto somos animais sociais e como a aparência conta muito nos dias de hoje: passamos quinze dias de férias numa casa que não é nossa, pagando por esses dias o equivalente a três ou quatro rendas mensais da nossa habitação, mas se o nosso filho pede um gelado, avisamos logo que não pode ser ou só um e dos mais baratos, pois a seguir vem Setembro e temos de comprar material para a escola, os livros,… nos entretantos, o patriarca
está sentado numa esplanada, geralmente acompanhado, pois não gosta muito de calor… a
refrescar-se com uma, duas… dez imperiais!

No meio disto tudo o que conta são as fotos que colocamos, no Facebook ou noutra rede social qualquer, com imagens dos dias de férias. Se as férias foram ou não um momento de pausa das agruras do dia-a-dia, isso não interessa para nada!

Outra situação que acho caricata são as férias que são feitas por uma grande maioria de pessoas da mesma comunidade no mesmo local. E não estou a falar de grupos de amigos, isso é normal. Se eu alguma vez pensaria em ir de férias para ver e estar com o mesmo grupo de pessoas (algumas delas que até nem se toleram socialmente) com que me cruzo durante o ano inteiro…

Mas como dizia o outro, de facto férias são férias e cada um vive-as de acordo com as suas expectativas, desejos e posses.

Boas férias para todos, não esquecendo que para que uns as tenham há outros que estão a trabalhar!

Catarina Vaz – Professora

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