Opinião

Opinião Livre: Abril, mil vezes Abril

Onde estavas tu no 25 de Abril, costumava perguntar o Baptista Bastos. No meu caso, estava em Águeda, onde o meu pai frequentava um curso de promoção de sargentos para oficiais do Exército português. Tinha 15 anos e naquela noite, ao contrário do que era habitual, não estava a escutar a Rádio Renascença, mas mesmo que estivesse, seguramente que não teria dado pela senha da “Grândola Vila Morena”.

Na manhã seguinte é que percebi que se passara alguma coisa. O meu pai foi chamado à presa para o quartel e eu e os meus irmãos não fomos para as escolas, pois estava tudo fechado. Nessa tarde, acompanhei de longe uma primeira manifestação de jovens um pouco mais velhos que eu que gritavam “fascismo nunca mais”.


Mais tarde, o meu pai fez uma grande festa em casa e explicou-nos que a nossa vida de saltimbancos, entre Portugal e África iria acabar. Ele já estivera sete anos em Goa, onde se casou e viu nascer os dois filhos mais velhos – eu e o Luís – passara duas vezes pela Guiné-Bissau, na segunda já com a minha irmã Céu a completar a família, sem esquecer quase quatro anos em Angola antes da ida para Águeda. E pelo meio das viagens intercontinentais, passagens por Tomar, Entroncamento, Lisboa… eu sei lá que mais!


À medida que fui crescendo, naqueles anos pós-25 de Abril, fui ganhando a paixão pelo jornalismo… e alimentando o sonho de viajar. Tentei entrar para a Força Aérea, mas fui reprovado na entrevista com o psicólogo que me disse que eu queria mesmo era ser jornalista.

Quando comecei a gatafunhar os primeiros textos, em Abril de 1980, senti-me nas nuvens. Um estágio no “Diário de Lisboa”, outro na ANOP, até entrar, a tempo inteiro, para A Tribuna. Aí, dei por mim no primeiro grande teste de fogo – a reportagem do desastre de Camarate. Até que, em Abril (de novo Abril…) de 1981 entrei para a “Gazeta dos Desporto” e aí iniciei uma longa carreira ligada ao jornalismo da área desportiva, onde me mantive até Abril (juro com é mesmo coincidência) de 2017, quando me mandaram embora do “Record” por ser “velho e caro”.

Entre Abril de 1980 e Abril de 2017 tive a sorte de fazer o que gostava e conhecer o Mundo. Foram centenas e centenas de viagens por uns 58 países. Foi, por isso, uma carreira de que não me posso queixar.
Tudo por causa do 25 de Abril de 1974!


Aos meus filhos, João e Diogo, ensinei apenas uma coisa – a liberdade que hoje eles vivem não é um dado adquirido. Num Mundo repleto de perigos, o maior de todos é a ignorância dos homens e a estupidez de uma sociedade refém das redes sociais.


Passaram 45 anos do 25 de Abril de 1974. Parece que foi ontem que me esqueci de ligar o rádio de pilhas e perdi a emissão da Grândola Vila Morena.

José Carlos Freitas – Jornalista

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