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Entrevista EXCLUSIVA com a viúva do Capitão Salgueiro Maia

Entrevista do RibatejoNews a Natércia Salgueiro Maia, viúva do “Capitão de Abril”

“Não me aflige nada que uns sejam muito ricos, desde que todos vivam com o mínimo de
dignidade”.

Por Mário Gonçalves

O que significava para si a Democracia antes do 25 de Abril de 1974 e depois do 25 de
Abril?

Existem grandes diferenças. Para já, eu estudei num colégio em regime de internato.
Era um mundo à parte. Uma mentalidade muito fechada, e, por isso, não estávamos
muito conscientes de determinadas questões que se passavam fora das quatro
paredes. Depois, fui para a universidade. Foi, a partir dessa altura, que a mente se
abriu e os conhecimentos também. Percebi que havia necessidade de uma grande
mudança e que as pessoas pudessem escolher quem as governasse. Era importante
mudar-se a vida do país para que todos pudéssemos viver com o mínimo de dignidade.

O Capitão Salgueiro Maia no Largo do Carmo
Foto: D.R

Mas nota uma grande diferença entre o antes e o depois?

Evidentemente! Apesar de se ouvir constantemente dizer que está tudo mal, não é
bem assim. As pessoas têm a memória curta ou não têm consciência do que era antes
do 25 de Abril. Mesmo depois do 25 de Abril, cada vez que ia ao estrangeiro e
regressava a Portugal, ainda notava uma enorme diferença: as mulheres vestidas de
preto, a subserviência que ainda se tinha em relação aos patrões das grandes
indústrias…isso revoltava-me um pouco. A mim não me aflige nada que uns sejam
muito ricos e vivam muito bem, desde que todos vivam com o mínimo de dignidade. A
partir do 25 de Abril de 1974, muita coisa mudou. Basta ver a redução da taxa de
analfabetismo; a entrada na faculdade, que antes era apenas reservada a uma elite; o
serviço nacional de saúde.

Por vezes, as pessoas estão revoltadas e dizem que Salazar deveria regressar para
por ordem nisto tudo. O que tem a dizer em relação a isso?

Acho que isso é falta de informação. Desculpem que eu diga, mas é ignorância das
pessoas. Não é assim que se resolvem os problemas. As pessoas têm direito à greve e
lutar por melhores condições, deve imperar o mínimo de bom senso. A luta terá de ser
sempre por uma causa justa, sem que pelo meio haja outros interesses, o que
infelizmente por vezes acontece.

Sabia que estava a ser preparada uma revolução para o dia 25 de Abril?
Sim, sabia. No dia 23 de Abril, ele tinha saído para uma reunião e disse-me: “se calhar é
hoje!”. Mas não foi, como sabemos. É claro que estava a par do que estava a ser preparado. Soube que ele se deslocara, nesse dia, para Lisboa, só não sabia que ia para o Terreiro do Paço.

Tributo ao Capitão de Abril – Salgueiro Maia
Foto: P.C – D.R

Teve medo que pudesse acontecer alguma coisa ao seu marido nesse dia?
Não sei se era excesso de confiança, mas não me recordo de ter tido medo. Sabe que
ele passava sempre muito entusiasmo. Eu tinha confiança que as coisas iriam correr
bem.

Nesse dia, ainda se lembra onde estava e o que estava a fazer?
Estava em casa. Na véspera, estava em casa, em Santarém. E, no dia 25 de Abril, fui dar
aulas. A ideia, segundo os conselhos do meu marido, era fazer uma vida normal. Como
nesse dia tinha aulas no horário, saí de casa e fui dar aulas normalmente.

Ainda se lembra das primeiras palavras que ele lhe dirigiu, logo após de ser
consumada a revolução? Como é que ele lhe deu a notícia?
Eu lembro-me de ter ido a Lisboa com um casal amigo e de lhe ter dado um grande
abraço junto da Cavalaria 7.

Foi só um abraço ou houve um beijo também?
(Sorriso) Pronto, houve um beijo também… Lembro-me de um motorista a conduzir
um camião e de ter partilhado connosco aquele momento de felicidade…não me
lembro de mais nada.

Como foi viver muitos anos ao lado de um herói nacional? Não se sentiu, em
determinado momento, poder estar a viver na sua sombra?
Ele não foi um herói nacional. Em 1975, foi um ano muito difícil. Havia muitas reuniões
do Movimento das Forças Armadas (MFA). Ele deslocava-se muitas vezes a Lisboa, chegava muito tarde e eu estava sempre com receio. Mas depois tivemos uma vida normal.

Que recordações guarda do seu marido?
Muitas coisas boas. Aliás, a minha forma de estar na vida é agarrar-me as boas
recordações que tenho dele. Era uma pessoa diferente. Mesmo antes do 25 de abril,
ele já se afirmava pela diferença. Foi por isso que me apaixonei por ele. Recordo-me
um dia estar na cozinha a fritar peixe e ele chegou ao pé de mim e disse: “A menina
dança?” Ele tinha destas coisas.

Como se conheceram?
Ele e os seu colegas iam para junta da escola onde eu dava aulas. Ele, aliás, até
começou por pensar que eu era aluna, mas já era professora (Matemática). E foi
assim… Começámos a sair, e a passear. Chegámos a ir a alguns bailes que se realizavam
em Marinhais.

Ele dançava bem?
Sim, dançava muito bem.

Era um bom faca e garfo?
Era. Embora estivesse, no início da nossa relação, muito habituado à comida do
quartel. Fui eu que comecei a criar uma dieta mais equilibrada. Obrigava-o a comer
mais legumes e uma comida mais variada.

Qual era o prato que mais gostava?
Bife com batatas fritas.

Clarins da Repartição de Bandas e Fanfarras do Exército, acompanhados por uma Seção de Homens do Regimento de Manutenção do Entroncamento no tributo a Salgueiro Maia
Foto: P.C – D.R

A professora Natércia tem filhos e netos. O que conta aos netos sobre o avô?
Tento contar as histórias do dia a dia, da partilha de tarefas, da sua alegria, de facto de
ser brincalhão e da sua participação no 25 de Abril que tinha a ver com a sua maneira
de estar na vida. Digo aos meus netos que o avô amava o país e que se interessava que
as coisas melhorassem para o bem de todos.

Acha que o país lhe prestou a justa homenagem?
Acho que sim. Ele não iria dar importância a isso. Vocês (jornalistas) batalham muito
nessa tecla, mas ele achou que deveria ter feito o que foi feito. Eles combinaram que
regressaria à Escola Prática, retomar a sua vida normal do dia a dia, e foi isso que ele
fez. Apesar de tudo, esteve sempre atento ao que se ia passado no seu país. Foi
sempre falando com as pessoas e foi sempre dando a sua opinião. O objectivo era dar o
seu contributo para as coisas mudarem, como ele achava que era o melhor para o seu
país.

Tendo em conta a sua determinação e a sua garra, se tivesse vivido até aos dias de
hoje, teríamos um Portugal diferente?
Não. Portugal está nas mãos de todos nós, não estaria apenas nas mãos dele. Ele seria
mais um cidadão sempre disposto a colaborar, nem que fosse pela palavra e pela
forma de estar.

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