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Dina, o dia do adeus

Pisou o palco principal das Festas de Marinhais a 2 de Agosto de 2009, num concerto em que revisitou grandes êxitos (como o tema «Amor d’água fresca») e entoou outras canções menos conhecidas («Esta manhã em Lisboa», por exemplo, um inédito que integrou o álbum «Da cor da vida», editado em 2008). Quando actuou em Marinhais, Dina já sabia que tinha fibrose pulmonar (recebeu o diagnóstico em finais de 2006). A doença foi progredindo e, em 2012, ficou impedida dos espectáculos ao vivo. Abrandou drasticamente o ritmo de vida devido ao cansaço extremo e à dependência de oxigénio medicinal. Aguardava por um transplante. Mas acabou por morrer, na passada 5.ª feira, no Hospital Pulido Valente. Tinha 62 anos. As cerimónias fúnebres, reservadas apenas à família e amigos, decorreram este sábado, em Lisboa.

«Dinamite», a derradeira homenagem

Dina despediu-se de forma definitiva dos palcos em 2016, por ocasião de dois concertos (um no Teatro S. Luiz, em Lisboa, e outro do Teatro Rivoli, no Porto) que tiveram como derradeiro objectivo a celebração da sua obra e o encerramento de uma carreira de 40 anos. O espectáculo assumiu o nome do primeiro álbum editado em 1982 («Dinamite») e partiu de uma ideia concebida por Gonçalo Tocha, realizador e produtor de cinema – integrando, igualmente, o duo Tochapestana, criado em 2004.

«Dinamite», o espectáculo que evocou os 40 anos de carreira da cantora, realizado em 2016. Esta foi a despedida de Dina dos palcos.

Ana Bacalhau, B Fachada e Samuel Úria foram alguns dos 16 artistas da nova geração que participaram neste evento evocativo. João Gil, membro dos Diabo na Cruz, integrou a banda formada propositadamente para o concerto de homenagem realizado há 3 anos. Nas redes sociais, e perante a notícia da partida de Dina, João Gil admitiu sentir-se «feliz por ter feito parte de um momento que não sabia que seria a despedida de uma amiga». O músico avança ainda que não esquece primeira imagem de Dina, a «entrar na nossa sala de ensaios, com a sua garrafa de oxigénio na mão, a cantar uma música connosco, a parar no primeiro refrão e a pedir desculpa por isso».

As palavras de quem a conheceu

Carlos Alberto Moniz, músico e compositor, considera que Dina fazia parte da sua vida. «Fui a Malmö [Suécia], dirigir a orquestra, quando ela nos representou na Eurovisão com uma canção (sim, uma canção!), de sua autoria e de Rosa Lobato Faria. Fica a Saudade (canção açoriana de que ela tanto gostava)», refere. Não é por acaso que Carlos Alberto Moniz coloca a tónica na palavra «canção».

A 2 de Agosto de 2009, Dina actuou nas Festas de Marinhais. Na altura, a artista já sabia que tinha fibrose pulmonar. Deixou de dar espectáculos 3 anos depois.

O estilo demasiado pop e a música exageradamente simplista foram rótulos que alguns críticos atribuíram à obra de Dina. Talvez por isso, aliás, a sua carreira tenha, em parte, sido subestimada. No seguimento da observação de Carlos Alberto Moniz, o apresentador Júlio Isidro sublinhou que «realmente a Dina escrevia canções, mesmo canções. A partir de hoje, algumas pessoas vão ganhar perenidade. Já anda saudade por aqui».

A revelação da homossexualidade

Ondina Maria Farias Veloso. Nascida a 18 de Junho de 1956, em Carregal do Sal, distrito de Viseu. Gravou o primeiro EP em 1976, ainda sob o nome artístico de Ondina. Um pouco antes, já tinha assinalado a sua passagem em programas televisivos como «Nicolau no País das Maravilhas» (o mesmo que ficou conhecido pelas rábulas do Sr. Feliz e do Sr. Contente, personificados por Herman José e Nicolau Brayner) e «Passeio dos Alegres», apresentado por Júlio Isidro. Foi ele, aliás, que recebeu Dina em 2017, no programa Inesquecível (RTP Memória). Nessa que foi uma das suas últimas aparições públicas, Dina confessou que, apesar da doença, tinha material para fazer um novo disco.

Na «Grande Reportagem», na SIC, revelou a sua homossexualidade. Corria o ano de 1996. Desde então, muito raramente falou sobre o assunto. Mesmo em 2016, numa entrevista à revista SÁBADO, escusou-se a abordar o assunto: «Não quero desenvolver esse tema… Isso já não tem importância nenhuma. Na altura em que falei, em que ninguém conhecido se tinha assumido, era importante para dizer não à discriminação. Agora, não».

As tentativas no Festival da Canção

Por três vezes esteve no Festival da Canção. Primeiro, em 1980, com o tema «Guardado em mim», tendo conseguido ganhar o Prémio Revelação. Ficou em oitavo lugar. O tema «Há sempre música entre nós», um dos mais conhecidos da sua carreira, haveria de ser lançado no ano seguinte. Voltou depois ao Festival em 1982, onde interpretou «Em segredo» (e, entretanto, assumiu também a co-autoria de uma outra canção, «Gosto do teu gosto»). Só à terceira foi de vez: «Amor d’água fresca», com letra de Rosa Lobato Faria, assegurou-lhe o primeiro lugar na edição realizada em 1992 e serviu de passaporte para o Eurofestival, na Suécia (onde ficou na 17.ª posição).

«Amor d’água fresca» foi o tema que levou Dina a conquistar o 1.º lugar no Festival da Canção, em 1992.

A propósito desta participação, Dina contou à SÁBADO que «quis ir ao Festival em 1992 e ganhar, ressurgir em grande, até porque tinha acabado de romper, em 1991, com um silêncio de 8 anos». Isto porque, apesar das expectativas em torno de temas como «Pérola rosa» e «Dinamite», a coisa «não estourou. Desmotivei-me. O Festival era a solução – fui ter com a Rosinha [Rosa Lobato Faria] para fazer a letra (…). Fizemos ali um cocktail. Eu ia quase com a certeza que ganhava». E ganhou mesmo.

Por Abílio Ribeiro [Quântica | Conteúdos]

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