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Entrevista: Pedro Malaquias, o escritor de canções com origens ribatejanas

Pedro Malaquias, o escritor de canções com origens ribatejanas

Abílio Ribeiro [Quântica | Conteúdos]

É da sua autoria as letras de músicas como “Jardins Proibidos” (interpretada por Paulo Gonzo) e “Anzol” (Rádio Macau). Ao longo dos últimos anos, colaborou com vários artistas e bandas: Beto, Rita Guerra, Entre Aspas, Lúcia Moniz e Quinta do Bill, entre tantos outros. No currículo, conta ainda com três participações no Festival da Canção: em 1995 (com o tema “Vem um tempo”, com interpretação de Mário Sereno), em 1998 (“Aqui ou Além”, Janot) e em 2008 (“Obrigatório ter”, Alex Smith). Em entrevista, Pedro Malaquias (ex-jornalista, com boa parte da carreira ligada à rádio) fala sobre o processo de escrita de canções – e que, ao contrário do que se possa pensar, dá muito trabalho e não é ofício para qualquer um.

Tem alguma ligação com o Ribatejo?

Com o Ribatejo, só o meu pai, que nasceu na Chamusca. Consta que há, aliás, uns Malaquias por aquelas bandas…

Ainda tem memória do primeiro tema que escreveu?

O primeiro de que me lembro, gravado em disco, foi o “Até o Diabo se ria”, para o primeiro disco dos Rádio Macau. O ano, ao certo, não me lembro, mas foi pelos meados dos anos 80.

Quanto tempo pode demorar a escrever a letra de uma canção?

Isso tanto pode demorar 5 minutos como uma semana, ou mais. Depende da música, depende da “inspiração”. E quando falo em inspiração, quero dizer tanto aquela coisa que dizem que cai do céu, como as ideias, ou ambientes, que a própria música inspira.

É da sua autoria as letras de músicas como “Jardins Proibidos” (interpretada por Paulo Gonzo)
Foto: D.R

Numa canção, o é feito primeiro: a música ou a letra?

Na maior parte das vezes, recebi as maquetes com uma linha de voz trauteada e escrevi os textos por cima, de forma a encaixar nas melodias que me mandavam. Mas também já colaborei em canções em que os compositores fizeram a música por cima dos textos já escritos. Aconteceu já com o Flak e com os próprios Rádio Macau.

Ambas apresentam o mesmo nível de dificuldade?

A dificuldade seria maior, claro, ao escrever por cima das músicas. Mas como quase sempre trabalhei assim, apanhei-lhe o jeito. Claro que também há melodias mais difíceis de “domesticar”. Já me calharam algumas, mas aí é trabalho de oficina puro e duro. Baralhar e voltar a dar as palavras, até elas encaixarem harmoniosamente na música e em que o texto faça algum sentido. Sem palavras muito rebuscadas, nem conversa muito “armada” – que aquilo, afinal, é só uma canção. Mas também se exige, claro, um mínimo de respeito pela língua portuguesa e pela poesia em geral.

A relação que se aprofunda com um artista ou uma banda é determinante para o sucesso de uma canção?

Não creio que seja determinante, mas decerto que pode ajudar. Não me estou a ver a escrever canções para malta que não gramo, ou cuja música não me diz nada. A menos, claro, que isso pague muito bem. Mas, mesmo assim… há limites. Já quanto ao sucesso de uma canção, se soubesse qual é, estava rico.

Que passos são seguidos na escrita da letra de uma canção?

Primeiro que tudo, a melodia, certamente. E a métrica. Fundamental é que as tónicas do texto acertem com as tónicas da música, senão está tudo estragado. E não são poucos os casos em que isso acontece. Depois de apanhar o balanço da coisa, as palavras podem até surgir sem ninguém as chamar. As palavras, uma ideia. Depois é só seguir o fio à meada e contar uma história que faça sentido com a música que se está a ouvir. E esse é outro caso curioso em algumas canções – quando a música é uma coisa alegre e “saltitona”, enquanto o cantor vai dizendo, por exemplo, que a namorada fugiu com um guarda fiscal. Não se percebe se o homem está triste ou ficou contente por se livrar da miúda.

Fazer a letra de uma música é um dom ou é algo que se pode aprender?

Tudo se aprende. Claro que há pessoas com mais jeito para umas coisas do que para outras. Eu, por exemplo, nunca teria jeito para ministro da Fazenda.

Alguma letra, em especial, que se tenha arrependido de escrever?

Arrepender mesmo, acho que não. Mas há várias letras que, muito francamente, acho que são uma bela porcaria…

Todas as letras que escreve são fruto de encomendas de quem interpreta os temas?

As que chegaram já a disco, sim. Mas, no aconchego do meu disco rígido, tenho já uma bela mão cheia de cantigas em que fiz tudo. Música, letra e interpretação e execução de todos os instrumentos. Quando bater a bota, editam-se a título póstumo e vai ser uma festa.

Como estamos em matéria de direitos de autor? O trabalho desenvolvido pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), por exemplo, tem sido positivo?

Podia dizer que, profissionalmente, não faço nada. Mas era mentira. Porque vou fazendo coisas várias
Foto: D.R

E ainda bem que me faz essa pergunta. Uma das minhas características, de que muito me orgulho, é nunca fugir a uma questão e responder frontalmente e com toda a transparência a todas as perguntas que me fazem, para que não restem dúvidas quanto à minha vontade de colaborar voluntariamente no respeito pelos mais elevados valores democráticos. Próxima pergunta…

Em termos profissionais, o que anda, entretanto, a fazer neste momento?

Podia dizer que, profissionalmente, não faço nada. Mas era mentira. Porque vou fazendo coisas várias que me ajudam a passar o tempo. Escrevo, faço música e cantigas, e desenho e vou até ao jardim – e, quando a tarde está de sol, dou passeios a ver a minha sombra fugindo à minha frente. Tal e qual como a idade da reforma. E era mentira porque, no fundo, é essa a minha profissão actual – viver a vida que me resta a fazer o que me dá prazer. Mas, se alguém quiser umas cantiguinhas catitas, pedindo com graça e se a música for uma coisa honesta e asseada…

é dizer.

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