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Carlos Narciso: a longa travessia de um jornalista premiado

GRANDE ENTREVISTA

Carlos Narciso: a longa travessia de um jornalista premiado

Abílio Ribeiro [Quântica | Conteúdos]

É jornalista e começou a trabalhar em jornais e revistas, em 1978 (jornais «A Tribuna» e «O Comércio do Porto»). Entrou para a RTP, em 1980, para integrar a equipa que fez o «Bom Dia Portugal» (nessa época, coordenado e apresentado por Raúl Durão). Na RTP, no âmbito do programa «Fim-de-Semana» (apresentado e coordenado por Carlos Pinto Coelho e Mário Zambujal), Carlos Narciso venceu o prémio Gazeta com a reportagem “Bairro Negro” – e através da qual, pela primeira vez, se abordou a temática do racismo na televisão portuguesa.

Saiu da RTP em 1992 para integrar o grupo fundador da SIC. Foi o primeiro coordenador do programa «Praça Pública», coordenou e apresentou «Casos de Polícia» e «A Máquina da Verdade». Assumiu ainda a coordenação do «Jornal da Noite», assinou inúmeras reportagens, algumas delas premiadas. Venceu o prémio AMI – Jornalismo Contra a Indiferença, em 2000 (menção honrosa em 1999). Trabalha como freelance desde 2003, realiza documentários para organizações não governamentais (ONG) e dá formação profissional em jornalismo televisivo e radiofónico. Em entrevista, Carlos Narciso recorda o seu percurso, fala sobre o seu afastamento da SIC e ainda da “selvajaria capitalista de quem gere as empresas”.

Tem ligações ao Ribatejo?
Sim, o meu pai teve durante 40 anos uma casa nos Foros de Salvaterra. Morreu nessa casa. Passei lá muito tempo, embora nunca tenha lá vivido permanentemente. Vendemos essa casa há dois anos.

Como recorda os momentos em que protagonizou alguns programas de grande audiência? Tem nostalgia desses tempos?
Recordo com orgulho e espanto. O «Casos de Polícia», por exemplo, foi uma autêntica pedrada no charco na produção de informação televisiva, na época. Nunca até então a temática da Justiça tinha sido tratada como área nobre do jornalismo. Sei que nem fui a primeira escolha do director-geral da SIC, o Emídio Rangel, mas os outros que ele convidou primeiro não aceitaram, talvez por desdém.
Lembro-me que regressei de Sarajevo, onde tinha ido fazer reportagens sobre a guerra da Bósnia, quando o Rangel me convidou. Aceitei pela camisola SIC. Achei que fazia sentido trabalhar para fazer subir as audiências do canal e percebi que o «Casos de Polícia» podia ser essa alavanca. E foi. Não era um mero programa sobre crime, trabalhámos verdadeiramente o tema Justiça, levando à pantalha casos de injustiça flagrante, abusos policiais, muito para além do crime perpetrado pelo pilha-galinhas. Lembro-me de sentir gratidão e satisfação sempre que cada programa terminava nas noites de quinta-feira.

Para continuar a trabalhar em televisão Carlos Narciso teve de emigrar
Foto: Carlos Narciso – D.R

Algumas reportagens foram marcantes…
Recordo com orgulho alguns programas como, por exemplo, aquele em que revelámos a falência fraudulenta da Caixa Económica Açoreana (numa reportagem da jornalista Isabel Horta), um caso que implicava alguns amigos chegados ao patrão da SIC, alguns tinham mesmo sido ministros do governo de Balsemão… Programa que foi para o ar contra a vontade de Balsemão, mas ele percebeu que não podia proibir. É claro que tudo isto se paga e o tempo veio dar a Balsemão a oportunidade de se desfazer dos “irritantes” que tinha em Carnaxide. Mas a minha praia nunca foi a apresentação de programas. Prefiro, de longe, a reportagem, principalmente a grande reportagem e o documentário.

A que se deve o seu afastamento da televisão?
Saí da SIC em 2003, depois de um ano de luta laboral para impedir que Balsemão despedisse 300 trabalhadores sem lhes pagar as devidas indemnizações. Um ano antes, o patrão da SIC tinha reunido a estrutura da empresa, directores e coordenadores, para lhes explicar a crise do mercado publicitário que emergia depois do sucesso da TVI com a «Casa dos Segredos».
Ele explicou que preferia adaptar-se a ser segundo do que ir à luta para tentar recuperar o primeiro lugar do “prime-time”. E pediu a cada um dos presentes uma lista com nomes de pessoas dispensáveis. Recusei-me a semelhante papel, argumentei que ele podia reinvestir alguns dos milhões que tinha ganho em cada um dos últimos 6 ou 7 anos, que nós éramos os mesmos que tínhamos levantado a SIC do zero até ao primeiro lugar em apenas três anos e que poderíamos voltar a fazê-lo.

E o que acabou por acontecer?
Ele recusou e eu promovi eleições para delegados sindicais dos jornalistas, fui eleito e fui a esse combate. No final, acabei despedido juntamente com todos os outros delegados sindicais, num processo de despedimento colectivo que englobou apenas cinco pessoas (o mínimo que a lei exige) e apenas destinado a despedir os delegados sindicais.
Depois, foi uma imensa travessia do deserto. Na verdade, ainda estou nessa caminhada. A sanha persecutória de um tipo demasiado poderoso, influente e mesquinho, fez com que ninguém tivesse tido peito para me contratar. Nenhuma televisão, nenhuma estação de rádio, nenhum jornal. Até porque há poucos patrões e eles conhecem-se todos. Mesmo num meio aparentemente concorrencial, há “acordos de regime” e um deles deve ser não dar emprego a quem se “portou mal” com o amigo da Quinta da Marinha.

O entrevistado “portou-se mal” com o amigo da Quinta da Marinha e não conseguiu arranjar emprego em lado nenhum
Foto: Carlos Narciso – D.R

Que alternativas lhe restaram?
Para continuar a trabalhar em televisão tive de emigrar. Fui para França, para um projecto privado no âmbito da lusofonia, a CLPTV, que durou apenas dois anos. Depois fui para Timor-Leste, onde dei formação profissional na televisão e rádio públicas (RTTL) e fui correspondente da RTP.

Como caracteriza o actual momento que as televisões generalistas atravessam?
O paradigma mudou para as empresas de media, elas estão agora a tentar adaptar-se a novos modelos de negócio e a uma fragmentação de audiências que não pára. É sabido que a Internet desviou muita gente dos ecrans de televisão, principalmente os mais jovens. Os meus filhos praticamente não vêem televisão. E eu também. Hoje, os programas de rádio são gravados em vídeo para depois serem exibidos no YouTube ou no Facebook onde, muitas vezes, têm maiores audiências. Os programas de televisão também têm canais próprios nas redes sociais.
Nenhuma empresa de media prescinde do seu site, onde publicam textos, fotos, sons e imagens. Daqui a uns anos, estaremos a consumir informação num site chamado TSF, por exemplo, sem termos memória de que aquilo foi, no início, um mero canal de rádio. Defendi esta tese em 2007 quando, na Universidade Nova, fiz um mestrado em Novos Media e Práticas Web. Acredito que vai ser assim, tudo indica que esse será o caminho que todas as empresas de comunicação social terão de percorrer se quiserem sobreviver.
Infelizmente, para os trabalhadores, jornalistas incluídos, isso tem significado perdas salariais, desemprego, precariedade no trabalho. Isso só se contraria com oposição à selvajaria capitalista de quem gere as empresas, mas também era preciso que o Estado se preocupasse em regular essas matérias e não me parece que isso venha a acontecer. Os trabalhadores estão fragilizados e desunidos, o governo alheado, o patronato aproveita.

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